sábado, 21 de outubro de 2023

"Uma escuridão bonita"

Um livro escuro... mas só na cor das suas páginas! Pois brota da escrita de Onjaki a doçura infantil de uma conversa e o arcoíris de um primeiro beijo. Entre palavras novas e inventadas, os dois adloescentes descobrem-se na escuridão de mais uma noite em que falta a luz em Luanda.


Dois jovens, entre a infantilidade e a adolescência, estão numa varanda escura e a conversa é às vezes interrompida pela presença da avó que traz na mão a vela, presença constante que lhes transmite segurança e conforto. Um conto publicado pela Texto Editores e ilustrado por António Jorge Gonçalves. Este é um livro muito bonito, que se lê de forma tranquila e em muito pouco tempo mas que nos deixa a pensar e a saborear cada página. O escritou faz-nos estar ali, naquele local e naquela noite, com os sons dos insetos, dos morcegos, dos carros que passam, e com os cheiros, do abacate, da cera da vela que derrete... relembrando as primeiras tentativas de descoberta de lábios com lábios, de beijos inocentes e tão marcantes e doces.


Ndalu de Almeida, popularmente conhecido como Ondjaki, é um poeta e escritor angolano. Nasceu em Luanda, em 1977 e é licenciado em sociologia. Em 2007, ganha o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco com a obra "Os da Minha Rua. Em 2008, foi o único representante africano entre os 10 escritores finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura.


Fontes:


https://www.infoescola.com/biografias/ondjaki/

domingo, 15 de outubro de 2023

Poesia para colos vazios

Hoje assinala-se o Dia Internacional da Consciencialização da Perda Gestacional e Morte Neonatal e, para todas as mães de colo vazio, aqui fica a minha dedicatória. 




É triste a condição


Quem não sofre não entende


Não percebem porque choram


Se não chegou a ser gente.


 


É imaginar nas mãos


O toque do seu cacheado


Que antes sonhávamos ter


No colo aconchegado.


 


É deixar ir na amargura,


As baladas que cantava


É o vazio e a loucura


Que se torna em capa dura


Sobre a vida que aguardava.


 


Abandonar a dor ao grito


Num desespero profundo


Não há coração mais aflito


Nem maior dor no mundo


De que tanta gente padece


Que a mãe que sem saber


Já não há reza nem prece


Nem coração a bater.


 


Se um colo fica vazio,


Deixa-se um coração frio,


Mata-se a mãe que nascia


Não sabendo que podia


Tudo ali então perder


A vontade de viver


Não parece haver norte


Que triste a sina e a sorte.


 


E sem que se deixe de amar


Quem nunca sairá da lembrança


Pode de novo criar


Ali uma nova esperança.


Que a vida que em vós crescia


Nunca seja esquecida.


Pode não ter visto o dia


Mas estará para sempre na vossa vida.



Elsa Filipe, outubro de 2023

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

"Sem medo"

Neste livro, Rita Delgado conta a história de Maria do Ó. Uma mulher decidida, que além de ser já uma atriz famosa, pretende agora ingressar no mundo da política. É-lhe apresentado um empresário de sucesso, de nome Carlos e vinte anos mais velho. Ele é também militante do Partido Democrático e uma das figuras do combate político da transição para a democracia em Portugal e está ainda ligado familiarmente a um candidato à presidência que tinha sido assassinado. Os dois acabam por se apaixonar, uma paixão proibida por estarem ambos a trair outras pessoas, mas que inicialmente até parece correr bem. No entanto, são as histórias familiares de ambos que começam a emergir no meio deste relacionamento. Segredos guardados durante anos, num Portugal a braços com uma ditadura.


O que mais me agradou neste livro foi a forma como a autora enreda as histórias de romance e de traiçao, as discussões políticas e as crises familiares, não deixando escapar a realidade do país na época histórica, contada da perspetiva de pessoas e famílias diferentes. Passa pela posição da mulher na sociedade, destacando-a muitas vezes como estando presente nos momentos mais decisivos até da nossa história política e social, mesmo que "escondida" atrás das figuras masculinas que dominavam o país. 


Não conhecia esta escritora mas passei a gostar da sua forma de escrever. O tema também é um dos da minha preferência e isso, claro, fez toda a diferença! Não sei se podemos considerá-lo como um romance histórico uma vez que nem é essa a intenção da autora, como ela mesma nos faz saber.


 

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Poesia "Bem alto..."

Hoje deixo-vos um pequeno poema que escrevi para um concurso de poesia em que participei este ano. Espero que vos agrade e alegre o dia!



Bem alto, no cimo do mundo

 


Bem no alto, um moinho

Recebe o sopro do vento

E as velas faz girar.

Vem o moleiro a caminho,

Sobe a estrada com alento,

Ganha a vida ‘assobiar.


Bem alto, no cimo da serra,

Olha o rio a seus pés,

Lá em baixo tão pequeno.

Correntes que correm na terra,

Sopra o vento lés a lés

Abana as velas e o feno.


É sabedoria, paixão

É nas mãos ter a leveza

A farinha amassar

Que como um leve condão,

Se faz do pão a certeza

Das bocas alimentar.


Elsa Filipe, 2023

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...