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sábado, 21 de março de 2026

Hoje celebra-se a Poesia

Além de se comemorar a entrada da primavera, essa estação das flores, dos dias mais azuis e mais quentes, também se assinala hoje uma data muito especial: o Dia Mundial da Poesia.

Eu gosto de escrever e, confesso, sou mais apreciadora de escrever em prosa do que em verso, mas de vez em quando lá me desafio (ou me desafiam) a escrever alguns versos. E quando me dedico, a minha cabeça enrodilha-se nas linhas e entrelinhas que compõe os versos.

Não me considero nada boa nisso e fico sempre a achar que falta algo, que não está totalmente bem, ou que podia ter encontrado uma palavra diferente para transmitir aquilo que queria. É culpa da minha exigência...

No fundo, a minha grande questão é: 

Para que nos serve a poesia ou como é que nós servimos a poesia? 

É que a poesia em si é um exercício que me desafia na arte da escrita, mas confesso que não gosto propriamente de ler poesia. Bem, a verdade é que depende. É que para mim a poesia é para ser lida quando precisamos... e há dias em que nos toca com uma tal intensidade que nos muda a nossa própria disposição. Não partilho tudo o que escrevo. Quase todos os dias escrevo e muito do que escrevo são poemas, só que depois quando os volto a ler, acabo por não gostar e deito-os fora. Quando os partilho, eles deixam de ser apenas meus e assim, já não os posso mudar - poder posso, mas decido mão o fazer - e isso mete medo. O definitivo. Há uma insatisfação qualquer em mim que não me deixa terminar nada sem ter medo de que esteja mal feito.

A poesia traz-me sentimentos diferentes conforme os dias. Cada vez mais, quando escrevo e, principalmente quando escrevo poesia, sinto que tem de haver uma intenção. Mas ler poesia é diferente. Nem sempre me faz sentir aquilo de que eu ia à procura. Pode fazer-me ficar mais feliz, me animar se estou triste, mas também pode ter o poder de me consolar, de me permitir chorar, de me rever em versos que me acolhem e me acalentam como um abraço forte.

Como exercício de escrita, a poesia é muito versátil. Ela pode dar-nos liberdade, mas, se quisermos seguir uma métrica regular e determinado esquema rimático, ela pode ser muito exigente. 

E no ensino, é difícil. Como é que eu transmito às crianças e jovens a importância da poesia, como é que eu lhes crio interesse, como é que eu os ajudo na sua interpretação? É que não estudamos poetas muito fáceis de entender! A maior dificuldade é encontrar poemas que não sejam demasiado difíceis de interpretar para que se possam trabalhar em aula com alunos que são cada vez mais imaturos. A poesia pode ser uma excelente base de trabalho para se falar de emoções, mas para isso, os jovens têm de ser capazes de se colocar nas botas daquele poeta, de assumir o seu ponto de vista, de saber sobre o que é que ele está a falar.

Hoje, dia mundial da Poesia, deixo-vos com esta questão: 

O que é que a poesia vos traz?


sábado, 31 de janeiro de 2026

Os concursos em papel...

Estamos em pleno ano de 2026 e ainda encontramos publicitados diversos prémios literários que nos obrigam a enviar as obras impressas em folhas A4 e dentro de envelopes. Bem, se alguém quer entregar uma obra manuscrita, esta também não é aceite, mas para quem escreve no computador tem depois de gastar na impressão de três ou quatro exemplares da sua obra. Fica um pouco tosco na minha modesta opinião. A esses, mesmo que eu quisesse concorrer, muitas vezes, abstenho-me de o fazer.

Não sei se vou conseguir imprimir tudo a tempo, se tenho disponível o valor para a impressão do número de exemplares pretendido e, ainda o que me faz ter mais receio, não sei se haverá alguma intempérie, catástrofe ou greve que impeça a minha obra de chegar a tempo ao seu destino para ser lida. Dir-me-ão os mais esclarecidos que posso registar o envio. Sim, claro que o posso fazer e, sim terei sempre comigo um original que posso reenviar. Mas terei mais despesas, terei de o voltar a imprimir, não uma, mas três ou quatro vezes. Imaginem o custo do envio de uma obra de, digamos, apenas 80 páginas. São um arquivo de 240 páginas A4 para os três exemplares solicitados que têm de ser pesadas e registadas com aviso de receção. 

Felizmente, já encontramos concursos que nos pedem apenas ficheiros em PDF. Podemos bloqueá-los para não serem alterados nem copiados se quisermos e isso traz-nos alguma segurança. E a verdade é que eu até gosto de escrever tudo à mão primeiro, pois dá-me mais certezas e autoridade sobre aquilo que é meu.

Bem, mas passado o desabafo e como existem opções para todos os gostos, aqui vos deixo um link onde podem encontrar vários dos concursos e prémios atualmente a decorrer. A página nem sempre está atualizada, mas vai dando para nos mantermos informados. Existem opções de escrita em prosa e em verso, monografias históricas e até contos infantis.

Escrevam. Arrisquem.

http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/premios/PremiosaDecorrer/Paginas/PremiosaConcurso.aspx

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

"Malala"

Da coleção "Crianças que mudaram o mundo", os CTT apresentam-nos a história de Malala. 

Malala nasceu no Paquistão, no Vale de Swat, perto da fronteira com o Afeganistão. Aos 11 anos, começa a escrever um diário, na mesma altura em que ir à escola é vedado a toda e qualquer rapariga.

Contextualizando, Malala nasceu num país em que, até os sismos, podem ser usados para impôr o medo, são castigos divinos para que as leis dos Talibãs se cumpram. As meninas que deixam a escola são aplaudidas, mas Malala quer continuar a ir à escola. Em 2008, mais de 200 escolas são destruídas! E "em 2009 os extremistas religiosos conseguiram impor a sharia, a lei islâmica, e o terror entrou na sua aldeia, com as adolescentes a serem perseguidas por frequentarem o ensino." O primeiro texto de Malala, que começa um blogue com o apoio de um jornalista da BBC que era amigo do seu pai e com quem se corresponde, sai a 30 de janeiro de 2009, e tem como título "Tenho tanto medo!" Nele, a menina fala sobre os riscos que corria para continuar a ir à escola.

Pouco tempo depois, a sua identidade é descoberta o que levou a que vários jornalistas estrangeiros quisessem falar com ela sobre o que se estava a passar no Paquistão.

Uma outra heroína que ficamos a conhecer neste livro é a sua professora, que continua a dar aulas às escondidas, arriscandpo a sua própria vida. Quando os Talibãs invadem Islamabad, a família de Malala foge para as montanhas, separando-se do pai, que vai para Peshawar, onde participa na organização de uma "manifestação contra o que se estava a passar."

O papel e as liberdades das mulheres em Islamabad e noutras regiões dominadas por este grupo terrorista são umas das temáticas abordadas neste livro, mostrando-nso também muitas outras proibições: ver televisão era (e ainda é, em vários locais) proibido!

Quando os Talibãs são expulsos, Malala e a restante família, regressam a casa. Infelizmente, pouco depois, "chuvas torrenciais" atingem e destroem toda a região e "mais de duas mil pessoas e sete mil escolas ficaram destruídas," o que é aproveitado pelos líderes religiosos fundamentalistas voltarem a dizer qye se tratava de um castigo de deus" porque o povo "não se estava a portar bem." A presença dos Talibãs volta a acentuar-se. Houve muitas mortes, incluíndo de funcionários "estrangeiros de organizações não governamentais" que foram "raptados e executados."

Em 2011, Malala é nomeada para o Prémio Internacional da Paz, concedido pela "Kids Rigths", com sede em Amesterdão. É ainda distinguida com o Prémio Nacional da Paz, atribuído pelo governo do Paquistão. Ao receber o prémio, apresenta ao primeiro-ministro do Paquistão uma "lista cheia de pedidos entre os quais a reconstrução das escolas destruídas e a criação no vale de Swat de uma universidade para raparigas."

A 9 de outubro de 2012, há precisamente 13 anos, os Talibãs paquistaneses disparam sobre o autocarro escolar em que ela e o. utras crianças viajavam, acertando-lhe na cabeça. Pensa-se que o ataque lhe tenha sido dirigido diretamente, para tentarem calá-la. Afinal, Malala defendia algo impensável para aquele regime, o direito das meninas à educação. O sucesso do "Diário de uma Estudante Paquistanesa", o seu blogue, tinha chamado a atenção dos Talibans que a tentam matar. "A menina foi levada para o Hospital da Rainha Isabel, em Birmigham, Reino Unido, onde esteve em coma durante vários dias. Malala sobreviveu ao ataque e ficou mais forte, determinada em defender sempre o direito à educação. Por causa das constantes ameaças, a família refugiou-se em Inglaterra e neste novo país Malala pôde regressar à escola, em liberdade."

Com apenas 17 anos, Malala passa a ser a pessoa mais nova a ser distinguida com o Nobel da Paz.

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/malala-a-jovem-paquistanesa-que-defende-as-criancas/

https://www.ctt.pt/femce/sku.jspx?shopCode=LOJV&itemCode=931810&srsltid=AfmBOopDsXasLmRNm9ztWxuSvRa4bTvUDl9GUqFa4W6ND7T495dwnrfz

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal posto em verso



Natal

 

Por cá, a neve não cai

Mas ainda há natal.

Falta a árvore mas os presentes

Estão felizes, contentes,

Prontos para ofertar

Mas o que importa no fundo

Em qualquer natal do mundo

Não é ter... é estar!





Se o frio apertar

há uma manta quentinha,

Comida na cozinha,

se a fome espreitar

Pode faltar um certo luxo

Ou prendas caras até,

Mas não faltará amor

Não irão faltar abraços,

Aconchego e calor.





Podem faltar as fotografias

Amorosas ou pirosas

Mas as lembranças que ficam

Vêm do peito, do fundo,

Nos stories não vão brilhar.

São momentos, são memórias

Que nenhum tesouro do mundo

Pode algum dia pagar.

 

E numa caneca quentinha,

Que aquece o coração,

Um chá quente a fumegar

A enganar a solidão.

 

Haverá maior riqueza?

Só eu e os meus pensamentos,

Pois com eles tenho a certeza

Este natal, vou passar!




 




Elsa Filipe, dezembro de 2024


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Cultivar os hábitos de leitura

Numa sociedade cada vez mais ligada às novas tecnologias, em que crianças e adultos passam largas horas, agarradas aos ecrãs, é presiso plantar livros, regar momentos de leitura e cultivar os melhores frutos: de crianças que contatam com livros nascerão melhores leitores.


Ser um bom leitor não é ler muitos livros. Muito menos ler tudo o que aparece. Ou ler o que os outros leram ou porque assim somos obrigados. Não precisamos de ler todos o mesmo porque não gostamos todos das mesmas coisas. Quando a criança se torna leitora, ela já terá tido um primeiro contato com os livros e com as histórias. Já terá escutado uma história, ouvido um poema, repetido uma lengalenga. Antes das primeiras palavras serem lidas, existe um contato físico com o livro que não pode ser medroso, mas sim prazeiroso, simples, natural e repetido. Repetitivo.


Tanto como o gesto de pegar num telemóvel e desbloquear o seu ecrã, deveria ser o gesto de abrir e desfolhar um livro. Não devíamos achar normal uma criança estar durante horas a ver vídeos, refém de rápidas sucessões de imagens, de histórias inacabadas, sem no entanto ter paciência para ler até ao fim de um parágrafo, de terminar uma página ou de querer ficar acordada até tarde para saber o final da história.


Passo por isto diariamente. Poucos são os jovens e as crianças que têm consigo um livro na mochila - e quando têm, só alguns o puseram lá por iniciativa própria - e menos são aqueles que se sentam a ler. Atrasa-se o desenvolvimento da escrita. Diminui o vocabulário que conhecem - é impressionante a quantidade de palavras que um jovem de 12, 13 anos ainda desconhece! 


Interpretar um provérbio? Quantos o conseguem? Ler pausadamente, com entoação, com emoção, muito poucos o fazem. Compreender o que leram, serem críticos, dizer com a verdade a sua opinião sobre um determinado assunto e justificá-la de forma coerente, é para muitos alunos uma tarefa hercúlea! Falta sensibilização aos livros! Faltam visitas às bibliotecas municipais! 


Aceito sugestões! O que é que se pode fazer quando, aos 14 anos, um aluno nos diz que não se lembra qual foi o último livro que leu? Ou quando outro, não se lembra de ter lido um livro até ao fim (sozinho, sem ser lido pelos pais ou por alguém quando eram mais novos...). Assustador.


Mas nem tudo é mau. Ontem, descobri que alguns dos meus alunos andavam a ler "O Diário de Anne Frank" e "O rapaz do Caixote de Madeira"... e que quando se trata de futebol, um dos meus alunos se agarra e "devora" com avidez um livro que lhe foi oferecido pelo aniversário e sobre o qual já consegue, com alguma orientação, emitir a sua opinião e escrever um breve texto de opinião. Fiquei feliz, muito feliz. Afinal... ainda há esperança!


 


 

domingo, 29 de setembro de 2024

Poesia à Senhora do Cabo

No fim do mês de setembro há uma festa, uma romaria em honra da Senhora do Cabo. O meu jeito para estas coisas não é muito e, a verdade, é que não acredito em nada destas coisas de santas ou milagres. Escrevi este pequeno poema em honra daqueles que mantém as tradições que são tão importantes para nos unir como povo. Às gentes da vila e às gentes do campo que se juntam para fazer a festa do Cabo, a minha singela poesia.



 


Cabo


 


Há um penhasco


E há a vida


O som da batida


Do seu coração


Que junto da ermida


Se recolhe no fundo


Da dor sem perdão.


 


Há um penhasco


Qual escarpa profunda


Onde se espreita o início


Deste nosso mundo


Em que grandes gigantes


Passaram sem pressa


E marcaram-lhe o fundo.


 


Há um penhasco


Um sentir que é preciso


No momento exato


Cair num abraço


Que a vida é mais forte


Mais valente, mais tudo


E se funde num laço.


 


Há uma estrada


Um caminho a percorrer


Vontade de seguir a vida


Com esperança no olhar


Uma família a acontecer


E junto daquela ermida


Há uma mulher a rezar.


 


Há um penhasco


E há uma história


Da pedra da mua


Onde a Senhora subiu


Padroeira da memória


Dizem que foi obra sua


O mar não os engoliu!



Elsa Filipe, setembro de 2024

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Escrita... a chuva

Da janela da sala, as crianças vêem a chuva lá fora. Do interior, sentem o vido fresco, pousando as mãos na janela e, tentando sentir as gotas lá fora. 


De sorriso no rosto, Cecília pede:


- Por favor, podemos ir à chuva?


A educadora pensa um pouco e, olhando para a colega, desafia:


- Vamos?


E assim, todos vestiram o casaco e calçaram as galochas. A chuva não era muita, mas as poças do chão já davam para despertar a atenção das crianças, que felizes, assim que se viram lá fora:


- Tão bom! A chuva é fria!


- Ai, olha o meu salto!


- Olha aqui os salpicos que eu faço a saltar!


E felizes brincaram, livres como todas as crianças devem ser. Pena daqueles meninos que nunca pisam as poças de água, ou que nunca saem da bolha para sentir na cara as gotas de chuva.


Elsa Filipe

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Escrita: A (tão típica) história da Ilha deserta

Ontem, depois de alguns exercícios mais pequenos e simples, chegou-nos o desafio da "Ilha deserta". A sério?


Uma mensagem numa garrafa... o que escolhemos para levar para uma ilha... e, o que escrever se estamos perdidos e encontramos algo para escrever e uma garrafa (um pouco difícil e imaginário, ter papel seco e um lápis ou uma caneta funcional... mas vamos lá imaginar que sim). Já tentaram fazer algo do género? Eu ontem estava mesmo muito cansada e sem vontade de escrever e, como se repara, o tema também não foi do meu agrado.


Vou só colocar um pouquinho... o resto fica à vossa imaginação. 


Se encontrar esta garrafa é porque, eu afinal, cedi à minha vontade de desistir e deitei-a ao mar. Ou, talvez, num último impulso antes de morrer a tenha deixado ir pela água. Se ainda andam à minha procura, coloquei atrás a minha identificação e a minha morada. (...) Passaram-se semanas, meses? Não sei bem. Fui registando ao início e, depois acabei por me perder entre as horas e as noites não dormidas, os dias extenuantes de desespero. (...) Talvez já me tenham esquecido ou lançado balões estúpidos a lamentar a minha morte certa. (...)


(Elsa Filipe, 17.09.2024)

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Escrita... como escrever um texto, partindo de uma só frase

O exercício de ontem (lembram-se do curso de escrita que estou a frequentar?) fez-me pegar numa frase construída na sessão passada e, partindo desta - usando-a como "Título", construir um pequeno texto. Mas o que escrever com uma frase tão declaradamente verdadeira?

E o resultado foi este (desculpem alguma deceção, mas escrever à noite, sobre algo "aleatório" e que irá ser lido a um grupo de pessoas que não conheço. torna-se estranho e até inibidor):

"Mãe, magnífica, mulher minha"

Mãe, magnífica mulher minha, mataste meu mundo mortiço. Hoje o dia está escuro. A minha juventude fugiu com a tua ausência, com a inevitável partida do que já nem restava de ti: uma ínfima parte daquilo que eras. Nunca me obrigaste a acreditar em coisas absurdas nem em pais natais ou anjinhos. Fomos sempre tão diretas e tão verdadeiras, tão racionais tanto nas presenças como na perspetiva da ausência. Esperada.

Aquele mundo mortiço em que andávamos, acabou.

Tu pudeste seguir a tua viagem e eu pude pôr um ponto final neste vai que fica, fica que fica e, arregaçar as mangas para tomar, agora eu, conta daquele que foi o teu papel e com o qual me comprometo.


(Elsa Filipe, 16.09.2024)

sábado, 14 de setembro de 2024

Narrativa...

É sexta.


A areia entranha-se por entre os dedos e, aqui e além, conchas partidas picam-me a sola dos pés. O azul das águas hoje não tem a calma dos entardeceres dos dias anteriores, mas, pelo menos, há pouco vento.


Tudo normal à exceção de um grupo de golfinhos que nos veio visitar. Entraram na baía esta manhã, algures entre os estaleiros da Amora e o cais dos barcos do Seixal. Parecem seguir em grupo fazendo o mesmo percurso, para lá e para cá, para cá e para lá, não se aproximando muito das margens.


Olhando com mais atenção, vejo que são quatro que seguem juntos. Um pouco mais atrás, um quinto elemento segue o grupo. O som da brisa da tarde é entrecortado pelo bater das barbatanas caudais dos mamíferos que saltam e nadam mesmo à minha frente. Sento-me na areia, apreciando o espetáculo raro com que sou presenteada. Pelo menos, deixo-me pensar que me vieram visitar e que é para mim que se exibem, embora na praia estejam mais algumas pessoas que os vão fotografando e filmando. Do lado de lá do rio, um grupo de canoístas bate na água a uma cadência certa, pontuando a tranquilidade do rio.


Elsa Filipe, setembro de 2024

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Poesia para o meu jovem adolescente

Faz hoje 14 anos que a minha vida mudou. Daqui a pouco tempo, este jovenzinho será um homem. O crescimento de um filho fica gravado nas pregas da minha mão, nas rugas dos meus olhos, nos cheiro da sua pele quando o beijo. Tudo muda - a postura, a voz, o tamanho das suas mãos - mas há algo que aos olhos de uma mãe nuca poderá mudar. Ele pode ser mais alto do que eu... mas não deixa de ser o meu bebé pequenino.


Espero que um dia, ele leia o que eu lhe escrevi - mesmo que eu saiba que não vai gostar, porque não gosta de ler como eu gosto, nem de escrever como eu escrevo... e nisso somos tão diferentes.


 



Maior tesouro


 


Se te pudesse escolher


Erraria de certeza


Ainda bem que sem saber


Escolheste em mim viver


Ganhei a maior riqueza.


 


Sem querer, eu sei que vieste


Fazer de mim a mulher


Mais feliz e nem percebeste


Que sem ti que em mim cresceste,


Não havia porque viver.


 


Se te pudesse dizer


Por tudo aquilo que passei


Ficarias a conhecer


Que só de te ver nascer


Na hora melhor me tornei.


 


Não há prata nem há ouro


Nem safiras, diamantes


Nunca haverá maior tesouro,


Que nem coroa de louro,


Que sejam tão brilhantes.


 


Eu sei, certezas eu tenho


Que é de tal ordem o amor


Que nos une, é tamanho


Porei na vida o empenho


De cuidar de ti sem temor.


Elsa Filipe, setembro de 2024


sábado, 13 de julho de 2024

Poesia para não esquecer quem se ama

Esta pode ser uma data que a vós não diga nada. Mas para mim é especial. Escrito por mim... para a lembrar, como se fosse possível um dia esquecê-la.


 



Grito ao destino


 


Em ti não acredito, destino frio que levaste


No momento em que deixaste


Os meus braços sem te abraçar.


 


Foste tu que me disseste,


que ao mundo me trouxeste


Mas depois sem ti me deixaste,


Quando de ti precisei


Por ti bem alto gritei


Mas não estavas, me abandonaste.


 


Cobro ao destino e à vida


A tua precoce saída,


O abandono deste lar.


 


Lutaste, eu sei, sou sincera


Mas se o teu destino era,


A mim cá me deixar


Largaste-me sem esperança


Construí a recordar


Toda a vida, insatisfeita,


Voltar? Sei que não vinhas,


Mas não queria de mim lembrança


De ser menos que perfeita.



Elsa Filipe, julho de 2024

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Poesia... desabafos

Hoje, partilho convosco esta poesia que escrevi há algum tempo, mas que poderia ter sido escrita hoje. É um desabafo... num dia em que me sinto um pouco incompreendida. Uma forma de mostrar que o caminho que escolhemos, apesar das dificuldades, se torna muitas vezes no caminho certo e que não devemos desistir mesmo que a esquina seja escura e as opções não sejam animadoras. 


Tantas vezes este é um caminho solitário, incompreendido. Só nosso.


 



Esta dor que é só minha


 


Um lamento baixinho


No silêncio do meu quarto,


Choro já pouco, que o caminho


É só meu, não o reparto.


 


Parece um sorriso aquilo


Que coloco no meu rosto


Saio de casa tranquilo


A dor está cá não a mostro.


 


Sigo em passos constantes,


Doloridos, hesitante,


Sou eu quem manda, não és tu!


Dói, mas sem ser pedante


Ergo a cabeça, embirrante


Sou mais forte do que tu!


 


Esta dor que é só minha


Não define quem eu sou


Nem presto conta à vizinha


Das noites que passo sozinha


À janela, a ver quem passou.


 


Esta dor que me impede


De ser totalmente quem quis


É a vencê-la que me impele


A cada dia ser mais feliz!


 


O que fui já se acabou,


Outra vida, construí


Agora aquele que sou


É sobre o vencer da dor


Que a caminhar consegui.


Elsa Filipe, 2024


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Poesia para a criança-soldado

Nestes dias não posso deixar de escrever sobre as crianças que estão na guerra. Que combatem de armas na mão... que matam e ferem sem terem brincado aos polícias e ladrões. Crianças que em vez de irem para a escola, foram obrigadas a combater. Sem o colo da mãe ou o abraço do pai. Este poema estava guardado, mas hoje resolvi publicá-lo aqui, para que estes meninos não sejam esquecidos.



Criança-soldado 


Nascido sem linho nem contas

Que lhe pesasse o destino

Vendem-no quando a fome aperta

Escolhendo o mais forte menino.

 

Em casa mais uma boca

Ali mais um soldado

Tem na pele o medo à solta

E um olhar desconfiado.


A arma pesa-lhe tanto

Mas depressa vai aprender

Que não será o seu pranto

A salvá-lo de morrer.


Limpa as lágrimas, teimosas

E ajeita a arma brilhante

E das suas mãos ansiosas,

Sai o disparo, fulminante.


Cai por terra, um rapaz

A ele igual, o guerreiro,

Só diferente por incapaz

De ter disparado primeiro.


Foge para o meio do cerrado,

Sofre por matar um irmão

Sabe apenas que esteve errado

É o que lhe sai do coração.


O seu corpo baloiça,

As mãos trémulas em perdão,

Mas sem haver quem o oiça

Cai de rastos no chão.


Frémito silêncio, engole

O seu choro, mal entendido

Porque ali não há quem console

Um menino arrependido.


Devia estar a brincar,

Ou a rir com os irmãos,

Em casa havia fome

Mas sem armas nas mãos.


Soldado desde cedo

Dali em diante matou

Tantos, que aquele mancebo

Depressa se habituou.


Mas quando no mato à noite

O silêncio se ergue devagar

Volta a chorar o menino

Sem ninguém o abraçar.


Nem o pai que já morreu

Nem os irmãos, compreende,

Nem a mãe que o vendeu

Já nem a esperança se acende.


Um dia, zunem balas ali

Atacam a sua posição,

Abre os braços e caminha

Para a morte ou rendição.

Elsa Filipe, junho de 2024

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Poesia... naufragar, fugir

Parab lembrar aqueles que seguem por esse mar em busca de uma vida melhor e que fundo acabam por deixar naufragar os seus sonhos...


 



Fugido


 


Vindo de terra distante


Sem casa, sem gente, sem nada


Chega sem fé o migrante


Com vida, esperança acabada.


 


Venceu o mar, impiedoso,


Transpôs os mitos da morte


Mas sem nada, desgostoso,


Que será da sua sorte?


 


Feita a viagem morreram


Companheiros, filhos e pais


Daquilo que viu não queria


Nem viver nunca mais!


 


Fugido da guerra distante


Que lhe matou o futuro


Deixou nas mãos de um tratante


A travessia no escuro.


 


Nasce o dia e a claridade,


Fá-lo olhar o céu aberto


Não conhece a cidade,


Nem tem destino certo.


 


Mas as balas, não as descobre


Nem caiem bombas no chão


Se teto ainda não o cobre


Espera só uma refeição.


 


Nem todos o vão entender


Nem sequer o aceitar


Se alguns se podem esquecer


Ele isso não vai deixar.


 


É refugiado, sim.


Não precisam de o aceitar


Só qu’ ao mar não o devolvam


Não quer à sua pátria voltar.



Elsa Filipe, fevereiro de 2024

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A complexidade da aquisição da leitura

Ler é uma capacidade fundamental e a sua aquisição começa muitos anos antes da primeira palavra lida. 


A primeira aquisição que a criança faz ao nível da leitura é na perceção que os livros têm histórias e que as histórias estão escritas com símbolos, de várias formas e de vários tamanhos que dizem alguma coisa. Ou será que até começa bem antes disso, quando a criança começa a inventar as suas próprias histórias, lendo e interpretando as imagens que aparecem num livro? 


Para ler é preciso aprender as palavras. Sim, mas é muito mais do que juntar várias figurinhas estranhas, que conforme as dispomos em posições diferentes, fazem sons diferentes e querem dizer coisas diferentes. Ler precisa de entoação, precisa de compreensão e por isso faz parte da aprendizagem da leitura, ouvir ler, ouvir entoar, brincar com os sons e com as palavras que se lêem.


Antes de ler, muito antes, é preciso brincar com os sons, brincar com as palavras, treinar aquele que é o aparelho fonador, que nos permite falar, treinar a respiração, a pausa, o ritmo... para depois brincar com as palavras, com as sílabas, com as letras. Desenhar muito, muito, muito, com as mãos, com os dedos, com pincéis, com lápis, giz, canetas... adquirir a noção de corpo, espaço e movimento, centralidade e lateralidade, de cima e baixo, dentro e fora! E por tudo isto, a aquisição da capacidade de ler não começa no 1º ano! 


Ler é um processo muito difícil. Bem, para mim parece que foi algo natural, não me lembro de quando não sabia ler. Como foi comigo aprender, não me recordo. Mas passei pelos mesmos processos pelos quais passam todas as crianças. O primeiro passo acho que foi a necessidade. Havia livros em casa e eu queria pegar e ler sozinha sem ninguém a interferir. Eram a minha companhia.


Mas a leitura pode não acontecer de forma tão natural. Pode ser um processo muito difícil para a criança. Muitas vezes, quando os pais se apercebem destas dificuldades, tendem a mostrar ansiedade e acabam por transmiti-la para a criança. E às vezes, é preciso alterar as estratégias a usar, descomplicar e simplificar adequando novas formas de abordar a leitura. Não se pode pedir a uma criança que não tem noções básicas sobre o seu esquema corporal e sobre a lateralidade, ou que nunca desfolhou um livro inventando as suas próprias histórias, ou a quem nunca contaram histórias, muitas histórias, nem leram livros, tantos e tão diferentes, que um dia se sente numa secretária e de forma natural aprenda a ler.


Ler não pode ser visto como uma capacidade inata, tem de ser aprendida e trabalhada. Quando a criança se desmotiva, a aprendizagem fica desde logo muito condicionada e quando tornamos esta aprendizagem em algo negativo que pode transtornar a criança, trazendo-lhe momentos negativos, momentos de ansiedade e medo, o processo fica logo muito limitado e um livro começa a ser um papão em vez de ser um prazer.


Não conseguir ler não é hoje motivo de retenção no primeiro ano como era há muitos anos atrás. Mas pelo terceiro ano, já quase que não é comportável que a criança não leia. O que está errado aqui, é não se aceitar que as dificuldades de aprendizagem são uma condição como outra qualquer. Existem muitas causas para a limitação da aquisição das competências essenciais à leitura e antes de se atribuir um rótulo à criança, temos de estar abertos à exploração de todas as questões que possam estar a condicionar esta aprendizagem.


Ler é fantástico, para mim, mas pode não o ser para o outro. E às vezes, não entendemos isso. Andar e correr é fantástico. Uma criança com apraxia motora pode não o fazer e não há problema com isso, porque compreendemos que é a função muscular que está afetada. Então, porque é que não compreendemos quando é o músculo da leitura o que está afetado?

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Poesia para imaginar um país sem guerra

Faz hoje um mês que dezenas de pessoas foram assassinadas em Israel. Outras acabaram raptadas e delas quase nada se sabe ainda... crianças, homens, mulheres... pais e filhos, irmãos, namorados, amantes...

Um poema, não é muito, mas do pouco que posso fazer, aqui fica. 

Pelo menos, que as palavras possam dar algum ânimo (mesmo eu sabendo que estas nunca vão chegar aos verdadeiros destinatários) que seriam todos aqueles pais que os seus filhos perderam nos ataques do Hamas em Israel e que ainda não os têm de volta em seus braços.


Como seria?

Como seria se a música

Se pudesse ver no ar

Como seria se as mãos

Soubessem só abraçar?


Como seria se o vento,

Molhasse as ondas do mar,

E a lua fosse quente

E a pudesses segurar?


Como seria se os canhões

Cuspissem cores e estrelas

E no chão aos trambolhões

Ríssemos a saltar sobre elas?

 

Como seria se o céu

Fosse de noite claridade

E toda a escuridão de breu

Nunca invadisse a cidade?


Seria assim tão diferente

Neste sonho perdido

Acordar, estar ciente

Neste mundo incompreendido.



Elsa Filipe, 2023

domingo, 15 de outubro de 2023

Poesia para colos vazios

Hoje assinala-se o Dia Internacional da Consciencialização da Perda Gestacional e Morte Neonatal e, para todas as mães de colo vazio, aqui fica a minha dedicatória. 




É triste a condição


Quem não sofre não entende


Não percebem porque choram


Se não chegou a ser gente.


 


É imaginar nas mãos


O toque do seu cacheado


Que antes sonhávamos ter


No colo aconchegado.


 


É deixar ir na amargura,


As baladas que cantava


É o vazio e a loucura


Que se torna em capa dura


Sobre a vida que aguardava.


 


Abandonar a dor ao grito


Num desespero profundo


Não há coração mais aflito


Nem maior dor no mundo


De que tanta gente padece


Que a mãe que sem saber


Já não há reza nem prece


Nem coração a bater.


 


Se um colo fica vazio,


Deixa-se um coração frio,


Mata-se a mãe que nascia


Não sabendo que podia


Tudo ali então perder


A vontade de viver


Não parece haver norte


Que triste a sina e a sorte.


 


E sem que se deixe de amar


Quem nunca sairá da lembrança


Pode de novo criar


Ali uma nova esperança.


Que a vida que em vós crescia


Nunca seja esquecida.


Pode não ter visto o dia


Mas estará para sempre na vossa vida.



Elsa Filipe, outubro de 2023

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Poesia, sobre a infância

Este poema foi escrito por mim e fala de uma coisa que marcou a minha infância e que me lembra a casa dos meus avós, o cheiro do doce a borbulhar na panela e o sabor do doce de figo numa carcaça.


 



Figos doces da infância


 


Quero ir fruta apanhar


Subir acima dos ramos


Ficar com as mãos a pegar


Do mel doce que derrama


 


A fruta que sabe melhor


É aquela que os pardais


Picam, sem qualquer temor


Quando espreitam os quintais.


 


Não é apenas a cor


É o sol que a adoça


O tempo lhe dá sabor


E a chuva lhe dá força.


 


Quero os meus figos do tempo


Eu que subia às árvores do monte


Ficava com as pernas esfoladas


E lavava os pés na fonte!


 


Não há figos tão doces


Como aqueles da minha infância


Que na frescura dos montes


Havia em tanta abundância.



Elsa Filipe, 2023

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Poesia que nos faz pensar...

Nem todas as crianças, têm direito a brincar. Este poema que escrevi poderia contar a história de um menino nascido nos anos quarenta ou cinquenta... mas  pode ser tão atual ainda, não pode?



Trabalho infantil



De saco na mão

Um pero e um pão

Lá vai o menino.

 

Atravessa campos

Sonhando acordado

Salteia riachos e chega ao destino.


Nos pés gelados

Feridos e marcados

Pela dor do frio,


Calça as botas,

Põe a bata e segue,

Trabalha com brio.


Come o pão e o pero,

No final da jorna

Aquece as mãos,


Trabalha até tarde

Para levar para casa

Sopa para os irmãos.

 

Dez anos apenas

Estudar ou brincar

Não sabe o que é,


Quanto mais escrever

Sabe lá ele ler

Mas sabe contar


As horas que faltam

Para ir para casa

Enfim descansar.


Elsa Filipe, 2023

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...