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Dia Mundial da Língua Portuguesa

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Esta data é celebrada anualmente a 5 de maio, desde 2020, tendo sido este o dia escolhido pela "UNESCO em 2019 e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009, para assinalar a diversidade, a história e a importância global do quarto idioma mais falado do mundo." O Português, passou a ser o  primeiro idioma "no mundo a ter uma data oficial reconhecida" por este órgão. Apesar de Portugal se localizar no hemisfério norte, é na verdade a sul que a língua é mais falada. Atualmente, a discussão prende-se com o uso do "Novo Acordo Ortográfico." Mas o que é isto de Acordo Ortográfico?  De facto trata-se de "uma convenção que estipula regras sobre como escrever."  Já houve outros AO. "A primeira reforma ortográfica, em Portugal, ocorreu em 1911 e, tal como a atual, também sofreu várias contestações. Foi com a reforma ortográfica de 1911 que deixámos de escrever “pharmacia” e passá...

Poesia para dias bonitos...

 Hoje está um dia tão bonito, não está? Um dia alegre, soalheiro, que nos convida a ir para a rua e a apreciar a primavera que já chegou. Mesmo quando a felicidade está oculta por outros problemas e os olhos manifestam o cansaço acumulado, a primavera acaba por nos ajudar a ter esperança. Lá fora... lá fora as balas zunem, mas aqui...aqui olhamos as andorinhas que chegam e que nos trazem a primavera com elas.  É a Primavera a chegar   Na colmeia, em zumbido constante Estão obreiras a trabalhar O frio já ficou a montante Está a Primavera a chegar.   Traz consigo as andorinhas Que depois de muito voar Encontram nas varandinhas Um sítio para descansar.   Ocupam agora com cautela Os ninhos que ali deixaram Por cima da minha janela As andorinhas já chegaram!   (Elsa Filipe, março de 2026)

Ainda sobre a Primavera

 Quando me desafiam, começam a nascer ideias. Boas, más, assim-assim... aqui fica mais um poema sobre a Primavera. A Primavera   A Primavera chega de mansinho E o sol, nos aquece, devagar Canta feliz o passarinho No seu ninho a trabalhar.   Qual arquiteto e senhor Junta os galhos com saber Depois com muito amor Os ovos vai aquecer.   Quando é hora, das casquinhas Saem de bico no ar Sejam melros ou andorinhas Em breve os veremos voar!   É a magia que acontece A cada ano, em cada lugar É tão belo que até parece Que é a Terra a celebrar.   (Elsa Filipe, março de 2026)

Poesia... quando o inverno se vai embora e nos deixa o calor da primavera

O inverno começa a ir-se embora. Parece um pouco relutante... mas acabará por ir. Seguindo o seu caminho, deixar-nos-á dias mais amenos. Estende-se o sol até mais tarde...e escreve-se com a inspiração da beleza da primavera. O Inverno foi-se embora   O inverno, despediu-se Foi-se embora de mansinho. Andou chovendo, Fez seus estragos, Mas já se pôs ao caminho.   Chega agora a Mãe que da Terra Com cuidado, terna e paciente Ajeita a terra que a semente encerra E dela faz algo surpreendente.   Onde havia escuridão, se fez cor E onde a morte passou, Desponta agora em esplendor A vida que da Terra brotou!       (Elsa Filipe, março de 2026)

Primavera em poesia

No âmbito das celebrações  do Dia Mundial da Poesia, Dia Mundial da Árvore e Dia Internacional das Florestas, o  "Mensageiro da Poesia" desafiou os seus sócios a criar poemas sobre o tema "Primavera". Aqui vos deixo um dos poemas escritos especificamente para esta atividade: E era a Primavera   Era um dia, um sol O calor Era a vida, a semente O amor.   E do fundo, da terra se espreguiçava Rasgava, empurrava, crescia, Sentindo o sol que acarinhava, O pequeno caule que da terra subia.   E era o pardal que voava E era um falcão a caçar E era na flor uma abelha, Delicada borboleta a pousar.   E eram os dias quentes, As tardes mornas, e a chuva que secava E era a o Inverno que se ia, Era a Primavera que, por fim, chegava!   (Elsa Filipe, março de 2026) Informação sobre esta atividade, aqui: https://www.cm-seixal.pt/evento/arvores-poeticas    

Cultivar os hábitos de leitura

Numa sociedade cada vez mais ligada às novas tecnologias, em que crianças e adultos passam largas horas, agarradas aos ecrãs, é presiso plantar livros, regar momentos de leitura e cultivar os melhores frutos: de crianças que contatam com livros nascerão melhores leitores. Ser um bom leitor não é ler muitos livros. Muito menos ler tudo o que aparece. Ou ler o que os outros leram ou porque assim somos obrigados. Não precisamos de ler todos o mesmo porque não gostamos todos das mesmas coisas. Quando a criança se torna leitora, ela já terá tido um primeiro contato com os livros e com as histórias. Já terá escutado uma história, ouvido um poema, repetido uma lengalenga. Antes das primeiras palavras serem lidas, existe um contato físico com o livro que não pode ser medroso, mas sim prazeiroso, simples, natural e repetido. Repetitivo. Tanto como o gesto de pegar num telemóvel e desbloquear o seu ecrã, deveria ser o gesto de abrir e desfolhar um livro. Não devíamos achar normal uma criança est...

Poesia à Senhora do Cabo

No fim do mês de setembro há uma festa, uma romaria em honra da Senhora do Cabo. O meu jeito para estas coisas não é muito e, a verdade, é que não acredito em nada destas coisas de santas ou milagres. Escrevi este pequeno poema em honra daqueles que mantém as tradições que são tão importantes para nos unir como povo. Às gentes da vila e às gentes do campo que se juntam para fazer a festa do Cabo, a minha singela poesia.   Cabo   Há um penhasco E há a vida O som da batida Do seu coração Que junto da ermida Se recolhe no fundo Da dor sem perdão.   Há um penhasco Qual escarpa profunda Onde se espreita o início Deste nosso mundo Em que grandes gigantes Passaram sem pressa E marcaram-lhe o fundo.   Há um penhasco Um sentir que é preciso No momento exato Cair num abraço Que a vida é mais forte Mais valente, mais tudo E se funde num laço.   Há uma estrada Um caminho a percorrer Vontade de seguir a vida Com esperança no olhar Uma família a acontecer E junto daquela ermida Há uma mulher a rezar...

Curso de Escrita - últimos textos

Tenho estado a fazer uma formação online, e têm sido vários os exercícios de escrita que me têm sido pedidos. O bom destas formações é que, além de colocarmos as nossas ideias no papel, percebemos também como funcionam alguns dos processos criativos. Nas últimas aulas, foi pedido que criássemos uma personagem e a caraterizássemos. Depois, dessa personagem nasceu uma estrutura com outras personagens, espaços, ações. Para mim, o processo normalmente funciona ao contrário. Começo a envolver as personagens nas ações e entre si, para só depois as caraterizar amíude. Para mim, certas "personagens" (pessoas) não iriam fazer determinadas ações e, se lhes der antecipadamente aspetos psicológicos (os físicos não me influenciam tanto) acabo por limitar as suas ações e reações. É estranho, não sei explicar, mas é isso que sinto. Ontem, acabou por nascer o seguinte: Mais um dia, mais uma manhã e Pedro sente-se preso. Tem 28 anos e sente que a rotina o prende e que a sua vida não etm senti...

Escrita... a chuva

Da janela da sala, as crianças vêem a chuva lá fora. Do interior, sentem o vido fresco, pousando as mãos na janela e, tentando sentir as gotas lá fora.  De sorriso no rosto, Cecília pede: - Por favor, podemos ir à chuva? A educadora pensa um pouco e, olhando para a colega, desafia: - Vamos? E assim, todos vestiram o casaco e calçaram as galochas. A chuva não era muita, mas as poças do chão já davam para despertar a atenção das crianças, que felizes, assim que se viram lá fora: - Tão bom! A chuva é fria! - Ai, olha o meu salto! - Olha aqui os salpicos que eu faço a saltar! E felizes brincaram, livres como todas as crianças devem ser. Pena daqueles meninos que nunca pisam as poças de água, ou que nunca saem da bolha para sentir na cara as gotas de chuva. Elsa Filipe

Escrita... no banco do jardim

Na minha rua, há um banco de jardim. Castanho, voltado para o rio que corre mais abaixo, tem na vista a paisagem saudosa dos homens que ali se sentam. De manhã, um morador, de um prédio dos arredores, senta-se só no banco e lembra-se dos que deixou para trás. Está cá a lutar pela sua vida, a cuidar da sua saúde, com poucas notícias dos seus, que deixou em Moçambique. Será rápido o regresso? Não sabe, ninguém lhe consegue dizer. Senta-se a olhar o rio, deixando que a água dos seus olhos espreite e veja que não vale a pena competir, com a força da maré que enche. O sol ainda amorna as manhãs, ainda lhe aquece o corpo e o coração, mas deixa o banco pouco depois para regressar ao lar que por estes dias tornou seu.  Pouco depois, vão chegando, um a um, às vezes em par, outros que usam o banco, apenas para conversar. Agrada-me assim vê-los, sem nada que fazer, na plenitude dos dias, aparecem para se ver. O convívio é diário, discutem quem vai e quem chega. Todos os cumprimentam, confiam na s...

Escrita... como escrever um texto, partindo de uma só frase

O exercício de ontem (lembram-se do curso de escrita que estou a frequentar?) fez-me pegar numa frase construída na sessão passada e, partindo desta - usando-a como "Título", construir um pequeno texto. Mas o que escrever com uma frase tão declaradamente verdadeira? E o resultado foi este (desculpem alguma deceção, mas escrever à noite, sobre algo "aleatório" e que irá ser lido a um grupo de pessoas que não conheço. torna-se estranho e até inibidor): "Mãe, magnífica, mulher minha" Mãe, magnífica mulher minha, mataste meu mundo mortiço. Hoje o dia está escuro. A minha juventude fugiu com a tua ausência, com a inevitável partida do que já nem restava de ti: uma ínfima parte daquilo que eras. Nunca me obrigaste a acreditar em coisas absurdas nem em pais natais ou anjinhos. Fomos sempre tão diretas e tão verdadeiras, tão racionais tanto nas presenças como na perspetiva da ausência. Esperada. Aquele mundo mortiço em que andávamos, acabou. Tu pudeste seguir a tu...

Narrativa...

É sexta. A areia entranha-se por entre os dedos e, aqui e além, conchas partidas picam-me a sola dos pés. O azul das águas hoje não tem a calma dos entardeceres dos dias anteriores, mas, pelo menos, há pouco vento. Tudo normal à exceção de um grupo de golfinhos que nos veio visitar. Entraram na baía esta manhã, algures entre os estaleiros da Amora e o cais dos barcos do Seixal. Parecem seguir em grupo fazendo o mesmo percurso, para lá e para cá, para cá e para lá, não se aproximando muito das margens. Olhando com mais atenção, vejo que são quatro que seguem juntos. Um pouco mais atrás, um quinto elemento segue o grupo. O som da brisa da tarde é entrecortado pelo bater das barbatanas caudais dos mamíferos que saltam e nadam mesmo à minha frente. Sento-me na areia, apreciando o espetáculo raro com que sou presenteada. Pelo menos, deixo-me pensar que me vieram visitar e que é para mim que se exibem, embora na praia estejam mais algumas pessoas que os vão fotografando e filmando. Do lado d...

Curso de Escrita

Iniciei ontem um curso de escrita criativa e, nos próximos dias, andarei mais entretida de volta das palavras e da (des)construção do meu "Eu" criativo. Não que me tenha sentido muito inspirada ultimamente, mas pode ser que as próximas sessões consigam desbloquear aqui alguma coisa. Ontem, um dos exercícios começava por escolhermos três letras. Quaisquer letras, quer nos dissessem alguma coisa, quer fossem apenas escolhas ao acaso. Começou logo ali o problema: o que iríamos fazer com elas? Escolhi duas consoantes e uma vogal, não fosse o "diabo tecê-las":  M, E, V   E daqui saíram três palavras:  Mãe, Elsa, Vida...   ... e depois três frases, em cada uma das quais só podíamos usar essa letra no início de cada palavra: Mãe, magnífica mulher minha. Era eu, Elsa, em errante escrutínio e espírito emotivo. Vida violenta, vi-vos vir, vitoriosa.     E depois enquanto esperava fui treinando mais algumas frases, usando apenas a mesma letra no início de cada palavra: A - A ar...

Poesia para o meu jovem adolescente

Faz hoje 14 anos que a minha vida mudou. Daqui a pouco tempo, este jovenzinho será um homem. O crescimento de um filho fica gravado nas pregas da minha mão, nas rugas dos meus olhos, nos cheiro da sua pele quando o beijo. Tudo muda - a postura, a voz, o tamanho das suas mãos - mas há algo que aos olhos de uma mãe nuca poderá mudar. Ele pode ser mais alto do que eu... mas não deixa de ser o meu bebé pequenino. Espero que um dia, ele leia o que eu lhe escrevi - mesmo que eu saiba que não vai gostar, porque não gosta de ler como eu gosto, nem de escrever como eu escrevo... e nisso somos tão diferentes.   Maior tesouro   Se te pudesse escolher Erraria de certeza Ainda bem que sem saber Escolheste em mim viver Ganhei a maior riqueza.   Sem querer, eu sei que vieste Fazer de mim a mulher Mais feliz e nem percebeste Que sem ti que em mim cresceste, Não havia porque viver.   Se te pudesse dizer Por tudo aquilo que passei Ficarias a conhecer Que só de te ver nascer Na hora melhor me tornei.   N...

Poesia... desabafos

Hoje, partilho convosco esta poesia que escrevi há algum tempo, mas que poderia ter sido escrita hoje. É um desabafo... num dia em que me sinto um pouco incompreendida. Uma forma de mostrar que o caminho que escolhemos, apesar das dificuldades, se torna muitas vezes no caminho certo e que não devemos desistir mesmo que a esquina seja escura e as opções não sejam animadoras.  Tantas vezes este é um caminho solitário, incompreendido. Só nosso.   Esta dor que é só minha   Um lamento baixinho No silêncio do meu quarto, Choro já pouco, que o caminho É só meu, não o reparto.   Parece um sorriso aquilo Que coloco no meu rosto Saio de casa tranquilo A dor está cá não a mostro.   Sigo em passos constantes, Doloridos, hesitante, Sou eu quem manda, não és tu! Dói, mas sem ser pedante Ergo a cabeça, embirrante Sou mais forte do que tu!   Esta dor que é só minha Não define quem eu sou Nem presto conta à vizinha Das noites que passo sozinha À janela, a ver quem passou.   Esta dor que me impede De se...

Poesia para a criança-soldado

Nestes dias não posso deixar de escrever sobre as crianças que estão na guerra. Que combatem de armas na mão... que matam e ferem sem terem brincado aos polícias e ladrões. Crianças que em vez de irem para a escola, foram obrigadas a combater. Sem o colo da mãe ou o abraço do pai. Este poema estava guardado, mas hoje resolvi publicá-lo aqui, para que estes meninos não sejam esquecidos. Criança-soldado   Nascido sem linho nem contas Que lhe pesasse o destino Vendem-no quando a fome aperta Escolhendo o mais forte menino.   Em casa mais uma boca Ali mais um soldado Tem na pele o medo à solta E um olhar desconfiado. A arma pesa-lhe tanto Mas depressa vai aprender Que não será o seu pranto A salvá-lo de morrer. Limpa as lágrimas, teimosas E ajeita a arma brilhante E das suas mãos ansiosas, Sai o disparo, fulminante. Cai por terra, um rapaz A ele igual, o guerreiro, Só diferente por incapaz De ter disparado primeiro. Foge para o meio do cerrado, Sofre por matar um irmão Sabe apenas ...

Hoje é dia do Autor português

Uma data que se celebra desde 1982 e que  foi instituída pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), numa iniciativa do maestro Nóbrega e Sousa. No mesmo dia, assinala-se também  o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores. Mas o que é um autor? ..."aquele que cria, causa ou dá origem a alguma coisa, especialmente obra literária, artística ou científica." Se pensarmos nisto, desta forma, facilmente podemos entender aquilo que  Michel Foucault argumentou no ensaio "O que é um autor?" (1969) onde afirmou "que todos os autores são escritores, mas nem todos os escritores são autores." Eu concordo. Só serei autora se aquilo que eu faço for publicado e, sendo publicado deixa de ser só meu, passa a ser do público. Sabia que já existe uma Base de Dados de Autores Portugueses? Esta base de dados é "da responsabilidade da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas" e "é a maior base de dados biobibliográficos de autores portugueses d...

O papel da leitura na melhoria da escrita

A questão que hoje coloco é: ler mais, pode ter interferência nos resultados escolares?  Diariamente, o meu trabalho é com crianças e uma das coisas que tenho vindo a reparar é na baixa expansão vocabular dos alunos. Excetuando alguns casos, que infelizmente cada vez são menos, os alunos não mostram interesse em ler, não conhecem provérbios populares, nem lengalengas ou travalínguas...  A minha preocupação aumenta quando, alunos de 7º ou 8º ano, que têm disciplinas como matemática, história e geografia, não sabem o que significam palavras como "extensão", ou me dizem que o antónimo de "independente" é "coletivo". Estes são apenas pequenos exemplos que me levam a refletir sobre o rumo que a educação está a levar e se estamos mesmo no caminho certo. De facto, podemos constatar que hoje em dia as crianças têm um acesso muito mais facilitado aos livros mas não lêem. Na minha opinião, ler é uma das habilidades fundamentais que devem ser adquiridas no 1º ano e c...

Poesia... naufragar, fugir

Parab lembrar aqueles que seguem por esse mar em busca de uma vida melhor e que fundo acabam por deixar naufragar os seus sonhos...   Fugido   Vindo de terra distante Sem casa, sem gente, sem nada Chega sem fé o migrante Com vida, esperança acabada.   Venceu o mar, impiedoso, Transpôs os mitos da morte Mas sem nada, desgostoso, Que será da sua sorte?   Feita a viagem morreram Companheiros, filhos e pais Daquilo que viu não queria Nem viver nunca mais!   Fugido da guerra distante Que lhe matou o futuro Deixou nas mãos de um tratante A travessia no escuro.   Nasce o dia e a claridade, Fá-lo olhar o céu aberto Não conhece a cidade, Nem tem destino certo.   Mas as balas, não as descobre Nem caiem bombas no chão Se teto ainda não o cobre Espera só uma refeição.   Nem todos o vão entender Nem sequer o aceitar Se alguns se podem esquecer Ele isso não vai deixar.   É refugiado, sim. Não precisam de o aceitar Só qu’ ao mar não o devolvam Não quer à sua pátria voltar. Elsa Filipe, fevereiro de 2...

Narrativa...

Os ramos da velha árvore curvavam-se para cima da casa, quase como se a abraçasse. O peso dos anos iria fazer com que um dia viessem a cair sobre a moradia, mas até agora era apenas uma ameaça de que todos tinham consciência. Do lado direito, uma parede incompleta mostrava sinais de ter sido atingida pelo fogo que no ano anterior tinha consumido a serra. Não havia portão, mas as silvas que a rodeavam eram tão altas que impediam a passagem afoita de quem ali tentasse entrar. Havia um caminho, um pequeno carreiro nas traseiras que deixava com que se penetrasse naquele matagal e se chegasse à casa, mas nunca sem trazer as pernas cheias de picos. Ele tinha-o conseguido. Estava agora sentado nos degraus da frente, num alpendre apodrecido mas que ainda mantinha o seu aspeto original. Tinha subido a serra o mais rápido que as suas pernas o permitiam, e agora, ali, estava sozinho, mas sentindo-se mais seguro. A noite estava prestes a deixar tudo escuro e ele esperava que a neve que caía disfar...