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terça-feira, 5 de maio de 2026

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Esta data é celebrada anualmente a 5 de maio, desde 2020, tendo sido este o dia escolhido pela "UNESCO em 2019 e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009, para assinalar a diversidade, a história e a importância global do quarto idioma mais falado do mundo." O Português, passou a ser o primeiro idioma "no mundo a ter uma data oficial reconhecida" por este órgão.

Apesar de Portugal se localizar no hemisfério norte, é na verdade a sul que a língua é mais falada. Atualmente, a discussão prende-se com o uso do "Novo Acordo Ortográfico." Mas o que é isto de Acordo Ortográfico? De facto trata-se de "uma convenção que estipula regras sobre como escrever." 

Já houve outros AO. "A primeira reforma ortográfica, em Portugal, ocorreu em 1911 e, tal como a atual, também sofreu várias contestações. Foi com a reforma ortográfica de 1911 que deixámos de escrever “pharmacia” e passámos a escrever “farmácia”, por exemplo."

Sabiam que também foi a partir dessa data que se passou a escrever “anedota”, “dano” ou “ditongo”, em vez de "“anecdota”, “damno” e “diphthongo”, respetivamente. O “ y” foi substituído pelo “ i” em palavras como “sintaxe” (que se escrevia “syntaxe”)."

O Novo AO, procura por um lado acabar com as divergências ortográficas entre os diferentes países que o ratificaram (Portugal em 2008, Brasil em 2004, Cabo Verde em 2006, São Tomé e Príncipe em 2006, Guiné Bissau em 2009). As mudanças influenciam a escrita, mas não a leitura nem a pronúncia das palavras como algumas pessoas acham. Assim, não vamos alterar a nossa "forma de falar, nem vamos passar a falar “brasileiro”." 

"O acordo também não retira consoantes pronunciadas, ou seja, em Portugal, facto vai continuar a ser facto e não fato." Por outro lado, a "eliminação de consoantes mudas não vai alterar a pronúncia." Por exemplo: "espectador passa a escrever-se espetador mas continua a pronunciar-se com aberto." 

Foi também a partir da introdução do Novo AO que o nosso alfabeto passou a ter 26 letras em vez das tradicionais 23, incluindo agora o K, Y e o W. Já os usávamos em algumas palavras e cada vez mais fazia sentido que fizessem parte do alfabeto ensinado nas escolas. Passamos também a escrever os "nomes dos meses, dos dias da semana e das estações do ano" com minúsculas em vez de maiúsculas (a esta nova regra confesso que demorei a habituar-me).

E estas são apenas algumas alterações.

Para mim, a língua portuguesa é uma língua viva, um idioma que é falado de formas diferentes em Portugal, no Brasil ou em Cabo Verde, mas em que todos nos entendemos. Aquilo que mais me custa ver, são os erros que se multiplicam e que cada vez mais são visíveis não apenas na internet, mas também em livros. Há traduções cheias de erros, vê-mo-los nas notícias de sites portugueses e brasileiros. Por exemplo, a palavra "vê-mo-los" que aqui escrevi é detetada como erro, quando é apenas a união da primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo ver (Nós vemos) com o pronome pessoal referente à 3.ª pessoa do plural masculino ("os"). Por isso, cuidado com os tradutores e com a IA que, desde já vos aviso, está cheia de erros facilmente detetáveis e não estão associados ao uso do Novo AO. 

E se descobrirem erros nos meus textos, por favor avisem-me. 


sexta-feira, 27 de março de 2026

Poesia para dias bonitos...

 Hoje está um dia tão bonito, não está? Um dia alegre, soalheiro, que nos convida a ir para a rua e a apreciar a primavera que já chegou. Mesmo quando a felicidade está oculta por outros problemas e os olhos manifestam o cansaço acumulado, a primavera acaba por nos ajudar a ter esperança.

Lá fora... lá fora as balas zunem, mas aqui...aqui olhamos as andorinhas que chegam e que nos trazem a primavera com elas. 


É a Primavera a chegar

 

Na colmeia, em zumbido constante

Estão obreiras a trabalhar

O frio já ficou a montante

Está a Primavera a chegar.

 

Traz consigo as andorinhas

Que depois de muito voar

Encontram nas varandinhas

Um sítio para descansar.

 

Ocupam agora com cautela

Os ninhos que ali deixaram

Por cima da minha janela

As andorinhas já chegaram!

 

(Elsa Filipe, março de 2026)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Ainda sobre a Primavera

 Quando me desafiam, começam a nascer ideias. Boas, más, assim-assim... aqui fica mais um poema sobre a Primavera.


A Primavera

 

A Primavera chega de mansinho

E o sol, nos aquece, devagar

Canta feliz o passarinho

No seu ninho a trabalhar.

 

Qual arquiteto e senhor

Junta os galhos com saber

Depois com muito amor

Os ovos vai aquecer.

 

Quando é hora, das casquinhas

Saem de bico no ar

Sejam melros ou andorinhas

Em breve os veremos voar!

 

É a magia que acontece

A cada ano, em cada lugar

É tão belo que até parece

Que é a Terra a celebrar.

 

(Elsa Filipe, março de 2026)


terça-feira, 24 de março de 2026

Poesia... quando o inverno se vai embora e nos deixa o calor da primavera

O inverno começa a ir-se embora. Parece um pouco relutante... mas acabará por ir. Seguindo o seu caminho, deixar-nos-á dias mais amenos.

Estende-se o sol até mais tarde...e escreve-se com a inspiração da beleza da primavera.


O Inverno foi-se embora

 

O inverno, despediu-se

Foi-se embora de mansinho.

Andou chovendo,

Fez seus estragos,

Mas já se pôs ao caminho.

 

Chega agora a Mãe que da Terra

Com cuidado, terna e paciente

Ajeita a terra que a semente encerra

E dela faz algo surpreendente.

 

Onde havia escuridão, se fez cor

E onde a morte passou,

Desponta agora em esplendor

A vida que da Terra brotou!

 

 

 

(Elsa Filipe, março de 2026)


sexta-feira, 20 de março de 2026

Primavera em poesia

No âmbito das celebrações do Dia Mundial da Poesia, Dia Mundial da Árvore e Dia Internacional das Florestas, o "Mensageiro da Poesia" desafiou os seus sócios a criar poemas sobre o tema "Primavera". Aqui vos deixo um dos poemas escritos especificamente para esta atividade:


E era a Primavera

 

Era um dia, um sol

O calor

Era a vida, a semente

O amor.

 

E do fundo, da terra se espreguiçava

Rasgava, empurrava, crescia,

Sentindo o sol que acarinhava,

O pequeno caule que da terra subia.

 

E era o pardal que voava

E era um falcão a caçar

E era na flor uma abelha,

Delicada borboleta a pousar.

 

E eram os dias quentes,

As tardes mornas, e a chuva que secava

E era a o Inverno que se ia,

Era a Primavera que, por fim, chegava!

 

(Elsa Filipe, março de 2026)


Informação sobre esta atividade, aqui:

https://www.cm-seixal.pt/evento/arvores-poeticas

 

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Cultivar os hábitos de leitura

Numa sociedade cada vez mais ligada às novas tecnologias, em que crianças e adultos passam largas horas, agarradas aos ecrãs, é presiso plantar livros, regar momentos de leitura e cultivar os melhores frutos: de crianças que contatam com livros nascerão melhores leitores.


Ser um bom leitor não é ler muitos livros. Muito menos ler tudo o que aparece. Ou ler o que os outros leram ou porque assim somos obrigados. Não precisamos de ler todos o mesmo porque não gostamos todos das mesmas coisas. Quando a criança se torna leitora, ela já terá tido um primeiro contato com os livros e com as histórias. Já terá escutado uma história, ouvido um poema, repetido uma lengalenga. Antes das primeiras palavras serem lidas, existe um contato físico com o livro que não pode ser medroso, mas sim prazeiroso, simples, natural e repetido. Repetitivo.


Tanto como o gesto de pegar num telemóvel e desbloquear o seu ecrã, deveria ser o gesto de abrir e desfolhar um livro. Não devíamos achar normal uma criança estar durante horas a ver vídeos, refém de rápidas sucessões de imagens, de histórias inacabadas, sem no entanto ter paciência para ler até ao fim de um parágrafo, de terminar uma página ou de querer ficar acordada até tarde para saber o final da história.


Passo por isto diariamente. Poucos são os jovens e as crianças que têm consigo um livro na mochila - e quando têm, só alguns o puseram lá por iniciativa própria - e menos são aqueles que se sentam a ler. Atrasa-se o desenvolvimento da escrita. Diminui o vocabulário que conhecem - é impressionante a quantidade de palavras que um jovem de 12, 13 anos ainda desconhece! 


Interpretar um provérbio? Quantos o conseguem? Ler pausadamente, com entoação, com emoção, muito poucos o fazem. Compreender o que leram, serem críticos, dizer com a verdade a sua opinião sobre um determinado assunto e justificá-la de forma coerente, é para muitos alunos uma tarefa hercúlea! Falta sensibilização aos livros! Faltam visitas às bibliotecas municipais! 


Aceito sugestões! O que é que se pode fazer quando, aos 14 anos, um aluno nos diz que não se lembra qual foi o último livro que leu? Ou quando outro, não se lembra de ter lido um livro até ao fim (sozinho, sem ser lido pelos pais ou por alguém quando eram mais novos...). Assustador.


Mas nem tudo é mau. Ontem, descobri que alguns dos meus alunos andavam a ler "O Diário de Anne Frank" e "O rapaz do Caixote de Madeira"... e que quando se trata de futebol, um dos meus alunos se agarra e "devora" com avidez um livro que lhe foi oferecido pelo aniversário e sobre o qual já consegue, com alguma orientação, emitir a sua opinião e escrever um breve texto de opinião. Fiquei feliz, muito feliz. Afinal... ainda há esperança!


 


 

domingo, 29 de setembro de 2024

Poesia à Senhora do Cabo

No fim do mês de setembro há uma festa, uma romaria em honra da Senhora do Cabo. O meu jeito para estas coisas não é muito e, a verdade, é que não acredito em nada destas coisas de santas ou milagres. Escrevi este pequeno poema em honra daqueles que mantém as tradições que são tão importantes para nos unir como povo. Às gentes da vila e às gentes do campo que se juntam para fazer a festa do Cabo, a minha singela poesia.



 


Cabo


 


Há um penhasco


E há a vida


O som da batida


Do seu coração


Que junto da ermida


Se recolhe no fundo


Da dor sem perdão.


 


Há um penhasco


Qual escarpa profunda


Onde se espreita o início


Deste nosso mundo


Em que grandes gigantes


Passaram sem pressa


E marcaram-lhe o fundo.


 


Há um penhasco


Um sentir que é preciso


No momento exato


Cair num abraço


Que a vida é mais forte


Mais valente, mais tudo


E se funde num laço.


 


Há uma estrada


Um caminho a percorrer


Vontade de seguir a vida


Com esperança no olhar


Uma família a acontecer


E junto daquela ermida


Há uma mulher a rezar.


 


Há um penhasco


E há uma história


Da pedra da mua


Onde a Senhora subiu


Padroeira da memória


Dizem que foi obra sua


O mar não os engoliu!



Elsa Filipe, setembro de 2024

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Curso de Escrita - últimos textos

Tenho estado a fazer uma formação online, e têm sido vários os exercícios de escrita que me têm sido pedidos. O bom destas formações é que, além de colocarmos as nossas ideias no papel, percebemos também como funcionam alguns dos processos criativos. Nas últimas aulas, foi pedido que criássemos uma personagem e a caraterizássemos. Depois, dessa personagem nasceu uma estrutura com outras personagens, espaços, ações. Para mim, o processo normalmente funciona ao contrário. Começo a envolver as personagens nas ações e entre si, para só depois as caraterizar amíude. Para mim, certas "personagens" (pessoas) não iriam fazer determinadas ações e, se lhes der antecipadamente aspetos psicológicos (os físicos não me influenciam tanto) acabo por limitar as suas ações e reações. É estranho, não sei explicar, mas é isso que sinto.


Ontem, acabou por nascer o seguinte:


Mais um dia, mais uma manhã e Pedro sente-se preso. Tem 28 anos e sente que a rotina o prende e que a sua vida não etm sentido. Concluiu o curso com mérito mas não está, de todo, a tirar proveito da vida que tinha imaginado. A verdade, é que aquela empresa já lhe pareceu mais desafiante.


Sai de casa à pressa e quase tropeça no carteiro que, especado à sua porta, lhe pede que assine o registo de entrega de uma carta registada. Assina, à pressa, sem sequer olhar para o remetente e enfia a carta dentro da mala, misturando-a com outros papéis e documentos. 


O trânsito (...) um acidente na ponte mantém-no parado por desesperantes minutos. (...)


(Elsa Filipe, 26.09.2024)


O texto continua... mas não está bom para partilhar e sei que não interessa a ninguém o que se pasou com este personagem. Apenas deixo aqui uma pista. A carta traz uma notícia triste e irá levá-lo numa aventura. O destino será algures entre o Egipto, Israel e a Palestina... também pensei no Sudão, confesso, pois queria falar sobre guerra, sobre limites ultrapassados, mas apesar de ter estruturado uma ideia, ela ainda nem sequer faz sentido e talvez nunca venha a representar um verdadeiro texto. O mal, é que eu me ponho a fazer pesquisas.. sou muito mais de factos do que de criatividade. Se escrever algo, será mais um romance histórico ou uma história que tenha um fundo de verdade e de investigação. O que me limita num curso de escrita criativa...


 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Escrita... a chuva

Da janela da sala, as crianças vêem a chuva lá fora. Do interior, sentem o vido fresco, pousando as mãos na janela e, tentando sentir as gotas lá fora. 


De sorriso no rosto, Cecília pede:


- Por favor, podemos ir à chuva?


A educadora pensa um pouco e, olhando para a colega, desafia:


- Vamos?


E assim, todos vestiram o casaco e calçaram as galochas. A chuva não era muita, mas as poças do chão já davam para despertar a atenção das crianças, que felizes, assim que se viram lá fora:


- Tão bom! A chuva é fria!


- Ai, olha o meu salto!


- Olha aqui os salpicos que eu faço a saltar!


E felizes brincaram, livres como todas as crianças devem ser. Pena daqueles meninos que nunca pisam as poças de água, ou que nunca saem da bolha para sentir na cara as gotas de chuva.


Elsa Filipe

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Escrita... no banco do jardim

Na minha rua, há um banco de jardim. Castanho, voltado para o rio que corre mais abaixo, tem na vista a paisagem saudosa dos homens que ali se sentam.


De manhã, um morador, de um prédio dos arredores, senta-se só no banco e lembra-se dos que deixou para trás. Está cá a lutar pela sua vida, a cuidar da sua saúde, com poucas notícias dos seus, que deixou em Moçambique. Será rápido o regresso? Não sabe, ninguém lhe consegue dizer. Senta-se a olhar o rio, deixando que a água dos seus olhos espreite e veja que não vale a pena competir, com a força da maré que enche. O sol ainda amorna as manhãs, ainda lhe aquece o corpo e o coração, mas deixa o banco pouco depois para regressar ao lar que por estes dias tornou seu. 


Pouco depois, vão chegando, um a um, às vezes em par, outros que usam o banco, apenas para conversar. Agrada-me assim vê-los, sem nada que fazer, na plenitude dos dias, aparecem para se ver. O convívio é diário, discutem quem vai e quem chega. Todos os cumprimentam, confiam na sua presença que é assídua e estranham até, se algum deles faltar, havendo logo conversa para saber o que se passou. Vêm os miúdos a correr da escola para casa, relembram os seus tempos de juventude, quando tinham grão debaixo da asa. E a zona era diferente, os prédios não existiam.


Relembram os namoros, as esposas, as traquinices dos filhos... mas se uns estão felizes, outros há preocupados... ou por vezes revoltados, com o abandono, com a tristeza de não os virem ver, ou ligar para conversar. Então, ali juntos, desabafam as suas mágoas, levando para casa o coração mais leve e o peito mais animado. Amanhã cá voltarão a estar, estranho seria não os vermos. 


Elsa Filipe

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Escrita... como escrever um texto, partindo de uma só frase

O exercício de ontem (lembram-se do curso de escrita que estou a frequentar?) fez-me pegar numa frase construída na sessão passada e, partindo desta - usando-a como "Título", construir um pequeno texto. Mas o que escrever com uma frase tão declaradamente verdadeira?

E o resultado foi este (desculpem alguma deceção, mas escrever à noite, sobre algo "aleatório" e que irá ser lido a um grupo de pessoas que não conheço. torna-se estranho e até inibidor):

"Mãe, magnífica, mulher minha"

Mãe, magnífica mulher minha, mataste meu mundo mortiço. Hoje o dia está escuro. A minha juventude fugiu com a tua ausência, com a inevitável partida do que já nem restava de ti: uma ínfima parte daquilo que eras. Nunca me obrigaste a acreditar em coisas absurdas nem em pais natais ou anjinhos. Fomos sempre tão diretas e tão verdadeiras, tão racionais tanto nas presenças como na perspetiva da ausência. Esperada.

Aquele mundo mortiço em que andávamos, acabou.

Tu pudeste seguir a tua viagem e eu pude pôr um ponto final neste vai que fica, fica que fica e, arregaçar as mangas para tomar, agora eu, conta daquele que foi o teu papel e com o qual me comprometo.


(Elsa Filipe, 16.09.2024)

sábado, 14 de setembro de 2024

Narrativa...

É sexta.


A areia entranha-se por entre os dedos e, aqui e além, conchas partidas picam-me a sola dos pés. O azul das águas hoje não tem a calma dos entardeceres dos dias anteriores, mas, pelo menos, há pouco vento.


Tudo normal à exceção de um grupo de golfinhos que nos veio visitar. Entraram na baía esta manhã, algures entre os estaleiros da Amora e o cais dos barcos do Seixal. Parecem seguir em grupo fazendo o mesmo percurso, para lá e para cá, para cá e para lá, não se aproximando muito das margens.


Olhando com mais atenção, vejo que são quatro que seguem juntos. Um pouco mais atrás, um quinto elemento segue o grupo. O som da brisa da tarde é entrecortado pelo bater das barbatanas caudais dos mamíferos que saltam e nadam mesmo à minha frente. Sento-me na areia, apreciando o espetáculo raro com que sou presenteada. Pelo menos, deixo-me pensar que me vieram visitar e que é para mim que se exibem, embora na praia estejam mais algumas pessoas que os vão fotografando e filmando. Do lado de lá do rio, um grupo de canoístas bate na água a uma cadência certa, pontuando a tranquilidade do rio.


Elsa Filipe, setembro de 2024

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Curso de Escrita

Iniciei ontem um curso de escrita criativa e, nos próximos dias, andarei mais entretida de volta das palavras e da (des)construção do meu "Eu" criativo. Não que me tenha sentido muito inspirada ultimamente, mas pode ser que as próximas sessões consigam desbloquear aqui alguma coisa.


Ontem, um dos exercícios começava por escolhermos três letras. Quaisquer letras, quer nos dissessem alguma coisa, quer fossem apenas escolhas ao acaso. Começou logo ali o problema: o que iríamos fazer com elas? Escolhi duas consoantes e uma vogal, não fosse o "diabo tecê-las":


 M, E, V


 


E daqui saíram três palavras: 


Mãe, Elsa, Vida...


 


... e depois três frases, em cada uma das quais só podíamos usar essa letra no início de cada palavra:


Mãe, magnífica mulher minha.


Era eu, Elsa, em errante escrutínio e espírito emotivo.


Vida violenta, vi-vos vir, vitoriosa.


 


 


E depois enquanto esperava fui treinando mais algumas frases, usando apenas a mesma letra no início de cada palavra:


A - A aranha alerta as amigas apressadas!


C - Com casca castanha, construiu cada castelo com cuidadosa confiança.


 


E hoje, os exercícios vão continuar.


E vocês? Gostam de escrever? Quem tentar?


 


 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Poesia para o meu jovem adolescente

Faz hoje 14 anos que a minha vida mudou. Daqui a pouco tempo, este jovenzinho será um homem. O crescimento de um filho fica gravado nas pregas da minha mão, nas rugas dos meus olhos, nos cheiro da sua pele quando o beijo. Tudo muda - a postura, a voz, o tamanho das suas mãos - mas há algo que aos olhos de uma mãe nuca poderá mudar. Ele pode ser mais alto do que eu... mas não deixa de ser o meu bebé pequenino.


Espero que um dia, ele leia o que eu lhe escrevi - mesmo que eu saiba que não vai gostar, porque não gosta de ler como eu gosto, nem de escrever como eu escrevo... e nisso somos tão diferentes.


 



Maior tesouro


 


Se te pudesse escolher


Erraria de certeza


Ainda bem que sem saber


Escolheste em mim viver


Ganhei a maior riqueza.


 


Sem querer, eu sei que vieste


Fazer de mim a mulher


Mais feliz e nem percebeste


Que sem ti que em mim cresceste,


Não havia porque viver.


 


Se te pudesse dizer


Por tudo aquilo que passei


Ficarias a conhecer


Que só de te ver nascer


Na hora melhor me tornei.


 


Não há prata nem há ouro


Nem safiras, diamantes


Nunca haverá maior tesouro,


Que nem coroa de louro,


Que sejam tão brilhantes.


 


Eu sei, certezas eu tenho


Que é de tal ordem o amor


Que nos une, é tamanho


Porei na vida o empenho


De cuidar de ti sem temor.


Elsa Filipe, setembro de 2024


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Poesia... desabafos

Hoje, partilho convosco esta poesia que escrevi há algum tempo, mas que poderia ter sido escrita hoje. É um desabafo... num dia em que me sinto um pouco incompreendida. Uma forma de mostrar que o caminho que escolhemos, apesar das dificuldades, se torna muitas vezes no caminho certo e que não devemos desistir mesmo que a esquina seja escura e as opções não sejam animadoras. 


Tantas vezes este é um caminho solitário, incompreendido. Só nosso.


 



Esta dor que é só minha


 


Um lamento baixinho


No silêncio do meu quarto,


Choro já pouco, que o caminho


É só meu, não o reparto.


 


Parece um sorriso aquilo


Que coloco no meu rosto


Saio de casa tranquilo


A dor está cá não a mostro.


 


Sigo em passos constantes,


Doloridos, hesitante,


Sou eu quem manda, não és tu!


Dói, mas sem ser pedante


Ergo a cabeça, embirrante


Sou mais forte do que tu!


 


Esta dor que é só minha


Não define quem eu sou


Nem presto conta à vizinha


Das noites que passo sozinha


À janela, a ver quem passou.


 


Esta dor que me impede


De ser totalmente quem quis


É a vencê-la que me impele


A cada dia ser mais feliz!


 


O que fui já se acabou,


Outra vida, construí


Agora aquele que sou


É sobre o vencer da dor


Que a caminhar consegui.


Elsa Filipe, 2024


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Poesia para a criança-soldado

Nestes dias não posso deixar de escrever sobre as crianças que estão na guerra. Que combatem de armas na mão... que matam e ferem sem terem brincado aos polícias e ladrões. Crianças que em vez de irem para a escola, foram obrigadas a combater. Sem o colo da mãe ou o abraço do pai. Este poema estava guardado, mas hoje resolvi publicá-lo aqui, para que estes meninos não sejam esquecidos.



Criança-soldado 


Nascido sem linho nem contas

Que lhe pesasse o destino

Vendem-no quando a fome aperta

Escolhendo o mais forte menino.

 

Em casa mais uma boca

Ali mais um soldado

Tem na pele o medo à solta

E um olhar desconfiado.


A arma pesa-lhe tanto

Mas depressa vai aprender

Que não será o seu pranto

A salvá-lo de morrer.


Limpa as lágrimas, teimosas

E ajeita a arma brilhante

E das suas mãos ansiosas,

Sai o disparo, fulminante.


Cai por terra, um rapaz

A ele igual, o guerreiro,

Só diferente por incapaz

De ter disparado primeiro.


Foge para o meio do cerrado,

Sofre por matar um irmão

Sabe apenas que esteve errado

É o que lhe sai do coração.


O seu corpo baloiça,

As mãos trémulas em perdão,

Mas sem haver quem o oiça

Cai de rastos no chão.


Frémito silêncio, engole

O seu choro, mal entendido

Porque ali não há quem console

Um menino arrependido.


Devia estar a brincar,

Ou a rir com os irmãos,

Em casa havia fome

Mas sem armas nas mãos.


Soldado desde cedo

Dali em diante matou

Tantos, que aquele mancebo

Depressa se habituou.


Mas quando no mato à noite

O silêncio se ergue devagar

Volta a chorar o menino

Sem ninguém o abraçar.


Nem o pai que já morreu

Nem os irmãos, compreende,

Nem a mãe que o vendeu

Já nem a esperança se acende.


Um dia, zunem balas ali

Atacam a sua posição,

Abre os braços e caminha

Para a morte ou rendição.

Elsa Filipe, junho de 2024

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Hoje é dia do Autor português

Uma data que se celebra desde 1982 e que foi instituída pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), numa iniciativa do maestro Nóbrega e Sousa. No mesmo dia, assinala-se também o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores. Mas o que é um autor?



..."aquele que cria, causa ou dá origem a alguma coisa, especialmente obra literária, artística ou científica."



Se pensarmos nisto, desta forma, facilmente podemos entender aquilo que Michel Foucault argumentou no ensaio "O que é um autor?" (1969) onde afirmou "que todos os autores são escritores, mas nem todos os escritores são autores." Eu concordo. Só serei autora se aquilo que eu faço for publicado e, sendo publicado deixa de ser só meu, passa a ser do público.


Sabia que já existe uma Base de Dados de Autores Portugueses? Esta base de dados é "da responsabilidade da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas" e "é a maior base de dados biobibliográficos de autores portugueses disponível online, reunindo presentemente mais de 5000 autores."


Em "constante atualização, esta base de dados teve origem no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses que, publicado entre 1983 e 2001, contemplava já mais de 3500 autores nascidos entre o século XII e 1940. Esta base de dados de autores (Escritores) foi posteriormente alargada a ilustradores portugueses (Ilustradores)."


Fontes:


https://imprensanacional.pt/22-de-maio-dia-do-autor-portugues/


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/Autores.aspx


https://pt.wikipedia.org/wiki/Autor


 

segunda-feira, 11 de março de 2024

O papel da leitura na melhoria da escrita

A questão que hoje coloco é: ler mais, pode ter interferência nos resultados escolares? 


Diariamente, o meu trabalho é com crianças e uma das coisas que tenho vindo a reparar é na baixa expansão vocabular dos alunos. Excetuando alguns casos, que infelizmente cada vez são menos, os alunos não mostram interesse em ler, não conhecem provérbios populares, nem lengalengas ou travalínguas... 


A minha preocupação aumenta quando, alunos de 7º ou 8º ano, que têm disciplinas como matemática, história e geografia, não sabem o que significam palavras como "extensão", ou me dizem que o antónimo de "independente" é "coletivo". Estes são apenas pequenos exemplos que me levam a refletir sobre o rumo que a educação está a levar e se estamos mesmo no caminho certo.


De facto, podemos constatar que hoje em dia as crianças têm um acesso muito mais facilitado aos livros mas não lêem. Na minha opinião, ler é uma das habilidades fundamentais que devem ser adquiridas no 1º ano e consolidadas durante o 1º ciclo (não estou a incluir aqui alunos com NEE). O problema é que chegam ao 2º ciclo alunos que, apesar de não terem nenhum diagnóstico, não conseguem compreender e interpretar um texto simples. Outro problema, são os estrangeirismos, que apesar de sempre terem sido utilizados - eu usei e uso claro, faz parte da própria construção e evolução da língua - são de facto usados pelos jovens sem conhecerem o seu significado e a sua origem. Compreender e interpretar é necessário no dia a dia, faz parte não apenas da aprendizagem do português, como das outras disciplinas. O treino destas capacidades é tão importante como outros treinos que fazemos. Mas claro que nem todos gostamos do mesmo!


Mas também não posso deixar de dizer que há exceções e que tenho também alguns alunos que gostam de ler e que levam atrás de si alguns livros para "ler nas horas vagas". Sem obrigação e que até reclamam porque "a mãe não deixou comprar" um determinado livro porque o tema ainda não era para a sua idade. Estes alunos, têm mais facilidade em fazer a interpretação de um texto, são mais rápidos a encontrar as respostas que procuram no manual e, até dão menos erros ortográficos. Normalmente, são alunos que apresentam menos dúvidas quando têm de fazer exercícios que tenham a ver com a sintaxe e a morfologia. Se é regra? Não. Não o é de todo, mas... será que este treino da leitura não terá aqui um papel fundamental?


Na minha opinião, a leitura é uma das maiores ajudas para melhorar a escrita, sim, disso não tenho dúvidas! Se são melhores alunos? Não será apenas por isso e é claro que o rendimento escolar passa por muitos outros fatores que não estou aqui a apontar, mas sem dúvida que o hábito de leitura os ajuda também a serem capazes de escrever mais e melhor, de conseguirem construir respostas mais completas e fundamentadas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Poesia... naufragar, fugir

Parab lembrar aqueles que seguem por esse mar em busca de uma vida melhor e que fundo acabam por deixar naufragar os seus sonhos...


 



Fugido


 


Vindo de terra distante


Sem casa, sem gente, sem nada


Chega sem fé o migrante


Com vida, esperança acabada.


 


Venceu o mar, impiedoso,


Transpôs os mitos da morte


Mas sem nada, desgostoso,


Que será da sua sorte?


 


Feita a viagem morreram


Companheiros, filhos e pais


Daquilo que viu não queria


Nem viver nunca mais!


 


Fugido da guerra distante


Que lhe matou o futuro


Deixou nas mãos de um tratante


A travessia no escuro.


 


Nasce o dia e a claridade,


Fá-lo olhar o céu aberto


Não conhece a cidade,


Nem tem destino certo.


 


Mas as balas, não as descobre


Nem caiem bombas no chão


Se teto ainda não o cobre


Espera só uma refeição.


 


Nem todos o vão entender


Nem sequer o aceitar


Se alguns se podem esquecer


Ele isso não vai deixar.


 


É refugiado, sim.


Não precisam de o aceitar


Só qu’ ao mar não o devolvam


Não quer à sua pátria voltar.



Elsa Filipe, fevereiro de 2024

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Narrativa...

Os ramos da velha árvore curvavam-se para cima da casa, quase como se a abraçasse. O peso dos anos iria fazer com que um dia viessem a cair sobre a moradia, mas até agora era apenas uma ameaça de que todos tinham consciência. Do lado direito, uma parede incompleta mostrava sinais de ter sido atingida pelo fogo que no ano anterior tinha consumido a serra. Não havia portão, mas as silvas que a rodeavam eram tão altas que impediam a passagem afoita de quem ali tentasse entrar. Havia um caminho, um pequeno carreiro nas traseiras que deixava com que se penetrasse naquele matagal e se chegasse à casa, mas nunca sem trazer as pernas cheias de picos.


Ele tinha-o conseguido. Estava agora sentado nos degraus da frente, num alpendre apodrecido mas que ainda mantinha o seu aspeto original. Tinha subido a serra o mais rápido que as suas pernas o permitiam, e agora, ali, estava sozinho, mas sentindo-se mais seguro. A noite estava prestes a deixar tudo escuro e ele esperava que a neve que caía disfarçasse as suas pegadas. Seria fácil descobri-lo ali, mas pelo menos esta noite ia arriscar. 


Elsa Filipe

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...