sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"Inês de Castro"

Procurei por este livro desde logo porque percebi que aqui era dada continuidade à história de Isabel de Aragão, que tinha acabado de ler apenas uns dias antes. Sabia (acho que todos sabemos) que este romance teria um desfecho trágico, mas posso desde já adiantar que este não é um romance baseado na tragédia, mas sim no amor e, é claro, na história de Portugal.

A curiosidade conduziu-me numa leitura atenta deste romance de Isabel Stilwell, que nos apresenta uma outra grande senhora: Teresa Sanchez, senhora de Albuquerque, esposa de Afonso Sanchez, que era filho ilegítimo de D. Dinis. E se agora conto um pouco deste romance, é porque sendo um romance histórico, facilmente seguimos o seu enredo. Aqui, não é o fim de Inês que está em causa, pois esse todos sabemos qual será, não tivesse virado lenda, não tivesse sido cantada por Camões nos seus versos e por outros já não tivesse sido contada a sua história. Este livro é acima de tudo uma viagem às cortes de Portugal e de Castela.

Inês é apenas uma menina de seis anos que vive com Teresa e com o seu marido, Afonso Sanchez, e, Albuquerque. Foi-lhes dada a criar, trazida por Vataça (personagem que também entra no romance de Isabel de Aragão), ainda bebé. Aqui importa perceber que Teresa ainda é prima de Pedro Fernandez de Castro e da rainha D. Beatriz, e que Inês seria filha ilegítima deste seu primo. 

Bem, mas a história é longa e estes laços familiares começam a ser uma confusão. No entanto, Isabel Stilwell conduz-nos com perspicácia por este emaranhado de famílias, ajudando-nos a perceber de forma bem clara, quem é quem. Uma das caraterísticas é a repetição de nomes, tantos Pedros, tantos Afonsos... que nos poderíamos confundir. Mas foi mesmo assim que aconteceu. E tantos casamentos, tantos amantes, tantos acordos celebrados e tantas tramas.

Pela leitura de "Isabel de Aragão", já conhecia um pouco da história de Afonso Sanchez. Ele era meio irmão de Afonso IV (marido de Beatriz, filha de Maria de Molina e irmã de D. Fernando). Durante largos anos, os dois irmãos lutaram entre si, disputando as terras que lhes tinham sido deixadas em herança. Mas agora D. Afonso Sanchez está muito doente, tendo o seu meio irmão, aproveitado para atacar o "grande castelo de Albuquerque," não "deixando ninguém vivo," exceto os membros da família real e alguns dos seus criados e aias que se refugiaram, para escapar ao extermínio.

João Afonso, que nos é apresentado logo no início deste volume, têm então vinte anos e será assassinado pelo seu meio irmão, Afonso IV, que o acusa de traição e o ter tentado envenenar. Teresa pede a Afonso Sanchez que a deixe ir a Portugal, tentar o apoio de D. Isabel, mas nem isso vai resultar Aqui neste volume é explicado de outro ponto de vista a acusação e morte de João Afonso, havendo uma encruzilhada de enredos que, no fundo, se vão complementando de forma sábia. Será senta ida a Portugal, que Inês ficará a conhecer Pedro, também ele aqui um menino de seis anos, que sofre às mãos do pai, Afonso IV que já conhecemos pela sua maldade.

Vataça, que já nos havia aparecido no livro anterior, irá depois revelar quem é a mãe de Inês e contar-nos-á um pouco sobre a relação de Aldonça e o pai de Inês, bem como iremos ficar a saber aquele que supostamente teria sido o motivo do seu abandono.

Ao longo deste romance encontramos dois registos que acabam por torná-lo um pouco diferente do habitual. Uma parte é narrada na terceira pessoa, enquanto a outra composta de pequenas intervenções, é narrada na primeira pessoa pela rainha D. Teresa. É entre estes dois registos que navegamos entre um e outro lado da história. Na primeira parte do romance, as ações praticamente ocorrem em paralelo com a história do livro anterior, em dez anos muito conturbados. Assistimos à morte de D. João e ao repúdio a D. Constança Manuel, que foi aos dez anos rainha de Castela. Enquanto isso, em Inglaterra, a situação não está mais calma. Preso, Edward II assiste ao seu reino a ser governado pela sua mulher e pelo respetivo amante. Constança fica presa em Alcácer e é com a sua curiosidade e perspicácia que Inês vai fazendo perguntas sobre o que se passa, acompanhando as desavenças do reino.

D. Afonso Sanches morre no cerco de Escalona em 1328, para grande desgosto de Inês, que amava a seu tio mais do que a seu pai. Inês viaja depois para Ciudad Rodrigo acompanhando João Afonso (cujo nome, é o mesmo do seu tio, mandado assassinar por Afonso IV). Cai nas boas graças de Leonor e segue na sua comitiva que se desloca para o Sabugal a fim de preparar o casamento da futura rainha de Aragão. Vataça acompanha-a também nesta viagem e, será através da correspondência trocada entre esta e D. Teresa que ficamos a conhecer quem é Aldonça, mãe de Inês.

Em 1336, na ida ao casamento entre Constança Manuel (agora com 18 anos) e Pedro, Inês acaba por ter de sair de forma sorrateira, arrastada pelo primo João Afonso, do castelo de Garcimuñoz, e que antecede a segunda parte deste livro e que deixa para trás a criança Inês e nos apresenta uma jovem mais madura e aventureira. Zulema, tal como o faz Vataça, vai acompanhar esta Inês, percebendo os riscos que ela corre e, sabendo não poder evitar o pior, ajudando-a com os seus conhecimentos a defender-se. Inês acaba por ir para o castelo de Juromenha, onde reencontra Pedro, e onde também fica a conhecer a sua irmã mais nova, Leonor, já prometida em casamento. Aos 20 anos, Inês está ciente de que a paixão que nutre por Pedro, não se pode concretizar uma vez que o mesmo tinha já casado, com Constança, filha de Juan Manuel. Inês é aia de Maria, irmã de Pedro e rainha, e vê o nascimento dos seus filhos sem que estes sejam abençoados uma vez que o casamento entre os dois primos não havia sido aceite pelo Papa.

A descoberta do amor entre Inês e Pedro, leva a que D. Afonso IV a mande exilar, expulsando-a de Santarém. Ela sai do reino com a companhia de Aisha, uma jovem que a acompanha até Albuquerque.

Na terceira parte, que começa em maio de 1344 em Albuquerque, voltamos a ter a interferência de João Afonso, que no fundo se vai aproveitando de Inês para ser sua espia, ordenando-lhe que se volte a corresponder com Pedro. E os dois trocam muitas e muitas cartas e, Pedro, acaba por usar a desculpa de ir caçar, para se instalar no castelo de Ouguela, onde fica mais perto de Inês. Quando algum tempo depois, (18 de março de 1345), Inês fica a saber por D. Teresa que Constança se encontra novamente grávida, um eclipse cobre tudo de sombras e o povo na sua ignorância pensa ser um castigo e entre em pânico.

Depois do nascimento do filho varão de Pedro e Constança, Inês não entende a razão para que Pedro não venha à sua procura, tal como pensara que ele faria. Afinal, tinha cumprido a sua obrigação e deixado um herdeiro para o trono. Só em maio de 1347, João Afonso a vem buscar para a levar ao encontro do seu amado.

Entretanto, a rainha de Aragão morre e o rei casa-se rapidamente com Leonor de Portugal. Fernando, é desde logo prometido em casamento à filha do rei de Aragão, selando-se assim a aliança entre "Portugal e Aragão."

No final da terceira parte, Constança acaba por não resistir e morre durante o parto. E aqui, sabemos que o maior entrave para a relação entre Inês e Pedro estaria ultrapassado, mas a verdade é que as coisas acabam por se complicar. Não nos podemos esquecer que estamos em pleno século XIV e que as relações entre membros da realeza e mulheres fora do séquito real são permitidas, desde que estas não aspirem ao casamento. 

Na quarta parte, D. Pedro I (este Pedro, primo de Inês), sobe ao trono de Castela, após a morte de "Alfonso de Castela, vítima da peste no arraial de Gibraltar." Entretanto, uma personagem de quem não falei ainda mas que terá um impacto importante nesta narrativa, Leonor de Gúzman, é presa. Os seus filhos, fortes opositores do jovem rei Pedro I, tentam a todo o custo desafiá-lo no seu poder.

Quando D. Pedro I adoece, Inês recorre aos serviços de Zulema, que na sua arte e conhecimento consegue salvar o primo de Inês. No entanto, perante a sua morte iminente, os seus opositores acabam por pôr as garras de fora, deixando com que todos ficassem a saber com quem é que Pedro I poderia contar ou quem deveria ser afastado da sua corte. 

Em 1351, Inês dá à luz Dinis. É só nesta altura que Zulema a leva a conhecer a mãe, Aldonça. A imagem do olhar vazio e perdido da mãe não vai mais sair da cabeça de Inês. A quinta parte tem início a 1 de janeiro de 1353 com Inês a preparar-se para oficializar o seu matrimónio com Pedro. Este "casamento" é presenciado apenas por mestre Gil, "deão da Guarda" e pelo "oficial Estêvão Lobato". Faltava Álvar, Ferran de Castro e Juana de Castro, que eram esperados por Inês como testemunhas. A pedido de Pedro, o casamento mantém-se secreto.

Em junho do mesmo ano, Pedro I de Castela, casa com Blanche de Bourbon, de apenas 16 anos. Quando Inês vai ao casamento de Pedro e de Blanche, acompanhando Teresa, está de novo grávida. Uma outra personagem importante neste enredo é a amante de Pedro I, Maria de Padilla, com quem Pedro tinha tido há pouco tempo uma filha, a quem dera o nome de Beatriz. A história de Maria de Padilla seria muito semelhante à de Inês de Castro, não fosse a mesma ter desencadeado uma guerra civil. Acabado de casar com Blanche, Pedro foge de imediato para junto de Padilla, deixando o matrimónio por consumar. Pedro I acabaria por se tornar um homem "cruel e sem escrúpulos", hostilizando os franceses e aliando-se aos mesmos ingleses "que lhe tinham afundado a frota."

Em Portugal, Maria (filha de Pedro de Portugal e de Constança) com apenas 12 anos, casa com o filho de Leonor de Castela. Neste casamento, Inês acompanha novamente Teresa e, a pedido de Pedro, não se mostra ainda como sua esposa. Inês acaba por se ver envolvida numa conspiração arquitetada por Álvar e por João Afonso, e que pretende colocar Pedro I de Castela no trono de Portugal e de Castela.

Em abril de 1354, sabe-se que afinal o rei de Castela havia casado com Juana de Castro (irmã de Inês), conseguindo a anulação do casamento com Blanche. Juana era agora rainha de Castela, mas isso não fez com que o rei não a abandonasse mesmo sabendo que Juana se encontrava grávida, para, mais uma vez regressar aos braços de Maria Padilla. Apesar de ter apenas 17 anos, Padilla acabaria por lhe dar nesse ano a sua segunda filha.

João Afonso, alia-se aos filhos de Leonor de Guzman e entra em guerra contra Castela. Pedro I de Castela acaba por prender a própria mãe, em Tordesilhas e envenena (ou manda envenenar) João Afonso. Este, antes de sucumbir, exige que o continuem a levar em batalha até que "Pedro de Castela fosse vencido." E os seus homens cumprem essa promessa, levando o seu ataúde em ombros. 

Em janeiro de 1355, Pedro sai para a caça deixando Inês e os seus filhos. Enquanto faz um pequeno passeio, perto da fonte onde no início tinham jurado o seu amor, ela é confrontada por Afonso IV que, ali mesmo, a condena à morte. Dois anos depois, Afonso IV morre, e Pedro sobe finalmente ao trono. Manda matar Diogo Lopes Pacheco, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, por terem sido os carrascos de Inês. Destes só Diogo Pacheco conseguiu escapar, fugindo para França. A defunta Inês é, seis anos depois, mandada coroar rainha, quando Pedro pede a Frei Vicente que finalmente, lhes faça válido o casamento professado às escondidas alguns anos antes. 

Beatriz de Castela, rainha de Portugal e mãe de Pedro, acaba por falecer em 1359, mas não sem antes ter legitimado os netos, filhos de Pedro e de Inês, a par dos filhos de Pedro e Constança Manuel.

A história de Portugal está recheada de histórias e enredos. E eu cada vez me sinto mais maravilhada e apaixonada. Obrigada Isabel por me ajudar através da sua escrita a estudar e a embrenhar-me cada vez mais na vida (nas multiplicidades de vidas) do meu (nosso) país.

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