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Narrativa...

Os ramos da velha árvore curvavam-se para cima da casa, quase como se a abraçasse. O peso dos anos iria fazer com que um dia viessem a cair sobre a moradia, mas até agora era apenas uma ameaça de que todos tinham consciência. Do lado direito, uma parede incompleta mostrava sinais de ter sido atingida pelo fogo que no ano anterior tinha consumido a serra. Não havia portão, mas as silvas que a rodeavam eram tão altas que impediam a passagem afoita de quem ali tentasse entrar. Havia um caminho, um pequeno carreiro nas traseiras que deixava com que se penetrasse naquele matagal e se chegasse à casa, mas nunca sem trazer as pernas cheias de picos. Ele tinha-o conseguido. Estava agora sentado nos degraus da frente, num alpendre apodrecido mas que ainda mantinha o seu aspeto original. Tinha subido a serra o mais rápido que as suas pernas o permitiam, e agora, ali, estava sozinho, mas sentindo-se mais seguro. A noite estava prestes a deixar tudo escuro e ele esperava que a neve que caía disfar...

Escrita...

Dias de caminho tinham-no trazido até aqui. E aqui, esperava ficar pelas próximas horas. Pelo menos encontrava-se numa terra perto do mar, o que lhe fazia lembrar as suas origens. Sempre tinha sido um aventureiro, um navegante, armador e capitão, mas agora era apenas um fugitivo. A areia afundava-se debaixo dos seus pés enquanto caminhava junto ao mar. Ao fundo da praia, umas rochas pareciam ser o sítio ideal para pernoitar. A maré estava a começar a vazar, por isso, onde ficasse não precisava de se preocupar com a subida das águas durante a maior parte da noite e só teria de sair de madrugada. A viagem tinha sido dura, mas algures junto da Mimosa tinha conseguido despistar os PIDE que o perseguiam. Eram dois, num carro vermelho. Ele tinha fugido a pé uma parte do caminho, escondido na calada da noite, mas rapidamente se apercebeu que se conseguisse entrar em alguma carrinha, ou talvez, num autocarro, a sorte poderia mudar. Quando se aperceberam da sua fuga e encetaram uma caça ao home...

Escrita...

A chuva batia no carro, e os meus pensamentos estavam em todo o lado menos ali. Automaticamente, virava à esquerda, acelerava, pisava o travão, virava à direita, seguia sem ver o caminho, mas repetindo os gestos de dias e dias a fazer o mesmo percurso. Para lá carregando novas ideias, uma vontade imensa de hoje fazer melhor e uma pressão que vai aumentando sobre os meus ombros enquanto estaciono junto à porta principal. Normalmente, a ida ao café antes serve para me recentrar, concentrar, convencer. Tenho de entrar, de tentar, mais uma vez... ser aceite... conseguir, conquistar. Mas de regresso é o pior. Na minha cabeça, as ideias saltam entre "vou desistir disto tudo" e "fui eu que quis mudar de vida". Não posso mudar nem desistir. É a minha carga porque eu assim quis e não vou agora desistir, nem mostrar que sou fraca e que não aguento. Considero-me sempre culpada do que corre mal, uma imbecil, desqualificada. O caminho é quase sempre feito em silêncio, quase semp...

Escrita... e se hoje?

Se as luzes se apagassem hoje, e as ruas ficassem escuras, continuaria a ser natal?  Porque festejamos algo que nem sabemos que existiu? Porque se vende uma imagem de um pai natal que cruza os céus de todo o mundo, quando há crianças que neste momento morrem de fome? É natal... mas só para alguns. Nós que sortudos somos. Temos casa e comida na mesa. Andamos atarefados a comprar presentes, buzinamos nas longas filas da cidade. As luzes aqui estão acesas e iluminam a noite refletindo as gotas de chuva que caem. Está frio, mas é normal aqui porque é natal. Camisolas, casacos, gorro e cachecol e, ao nosso lado, ali bem no chão, junto ao banco de um jardim, um homem dorme em cima de um cartão. Aproveita algum do calor que sobe pela ventilação do metro. Mas nem abrimos a janela do carro, porque está frio quando é natal. A música toca no rádio e as notícias chateiam quando bate a hora certa. Mudamos o posto para não ouvirmos falar de guerra, nem de mais ataques. Procuramos uma nova emisso...

Escrita... divagações

Havia na praia algo de diferente que ela não sabia como explicar, mas era ali que se sentia mais completa, menos só. Talvez fosse o calor que a areia expelia em dias em que o sol se fazia refletir, queimando-lhe a sola dos pés. Ou talvez fosse o som das ondas a ir e voltar, o mar como que inspirando e expirando. Costumava tentar acertar a sua respiração com o mar, num jogo em que perdia na maioria das vezes.  Gostava de estar sozinha na praia - ou de se imaginar sozinha, mesmo rodeada de gente. Fechava os olhos e o barulho das vozes à sua volta começava a ficar cada vez mais distante. Não adormecia. Ficava consciente de si, concentrando-se no barulho do mar, sentindo-se quase que embalada pelas ondas, como se estivesse à deriva. Hoje, especialmente, não havia por ali ninguém e Amélia apreciava daquele silêncio quase absoluto. Hoje era mesmo disso que ela precisava. Estar ali, sozinha, com apenas os seus pensamentos como companhia. Chorar fazia quase sempre parte deste ritual, mas a...