sexta-feira, 10 de julho de 2026

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos anteriores da mesma escritora, é-nos dada uma perspetiva dos acontecimentos da história de Portugal (e neste caso, do Brasil de Inglaterra e de França também) a partir da visão dos seus intervenientes, com destaque para D. Maria II. A forma como nos é apresentada, faz-nos ter logo uma certa inclinação para gostarmos desta futura rainha. Recomendo a leitura deste livro depois da leitura de "D. Maria I" pois assim será mais fácil compreender a sociedade portuguesa, bem como os motivos de D. Pedro IV se encontrar no Brasil.

Desde logo, encontramos uma menina de pele branca e olhos azuis, que vive no Rio de Janeiro e que é amada por todos, apesar do seu mau feitio. É filha de D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal), e de D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria. 

D. Pedro torna-se rei após a morte de D. João VI em 1826, mas como havia uma lei que proibia a unificação das coroas, D. Pedro resolve abdicar do trono português no nome da sua filha mais velha, a própria D. Maria da Glória de quem Isabel Stilwell nos dá a conhecer a história neste seu romance. Mais uma vez, diferentes personalidades da época nos vão sendo apresentadas, levando-nos a viajar até ao passado, num livro composto por 156 capítulos - mas não se assustem, na sua maioria, são capítulos curtos.

A imagem da felicidade daquela menina, depressa se transforma, com um pai agressivo e manipulador e uma mãe que aceita os maus tratos e tenta, em vão, competir com as amantes do marido. A mais importante é Domitília de Castro, com quem Pedro tem vários filhos bastardos, alguns herdando o seu próprio nome. 

Maria assiste ao episódio em que o pai empurra a mãe, levando-a a um aborto que, dias mais tarde a leva à morte. Maria da Glória vai tornar-se D. Maria II e vai ser rainha de Portugal com apenas 7 anos, tendo à sua espera na capital o seu tio, D. Miguel, com quem está prometida em casamento. Não sabemos o que teria acontecido se o casamento tivesse acontecido, mas a verdade é que D. Miguel volta atrás na sua palavra e recusa casar-se com a sobrinha. 

Para nos ajudar na compreensão deste enredo, são-nos apresentados relatos, retirados de cartas trocadas entre diferentes pessoas importantes, bem como através de páginas de Diários pessoais. Sem estes documentos, a história ficaria talvez um pouco menos completa. Uma dessas entradas é a de "Maria Francisca de Portugal e Castro, marquesa de Aguiar." Ela é amiga e protetora da Imperatriz Leopoldina, mulher de D. Pedro I.

D. Pedro é um homem agressivo, mas ao mesmo tempo dissimulado nas suas ações. Casado desde 1817, não se coíbe de passear com a sua amante, D. Domitília de Castro, e com os filhos desta. D. Leopoldina está grávida pela oitava vez, pouco tempo depois da morte do filho João Carlos e do filho Miguel. As suas meninas, pelo contrário são "saudáveis" e "grandes", entre as quais "Januária Maria (...) Paula Mariana, (...) Maria da Glória e Francisca Carolina." O único filho homem sobrevivente é Pedro, mas há o receio de ser portador da "epilepsia dos Bragança, de que o Imperador também sofria e que tanto o assustava (...)"

A marquesa de Aguiar é uma portuguesa que tem um papel especial na evolução desta narrativa. É casada com o próprio "tio, Fernando de Portugal e Castro" e entende bem a posição e os receios de D. Maria da Glória prometida em casamento ao seu tio Miguel, como forma de apaziguar a luta entre os dois irmãos e de defender os interesses do pai. D. Pedro, tinha afinal abdicado na própria filha, do direito ao trono português, para se poder tornar Imperador do Brasil.

D. Leopoldina acaba por falecer a 11 de dezembro de 1826 e, poucos dias depois, o Imperador expulsa do Paço, Frei António e a marquesa de Aguiar. Esta fica desolada por se ver afastada da menina que jurara proteger e acaba por pedir guarida numa "chácara (...) próxima da Quinta da Boa Vista."

Como em todos os livros desta coleção, são-nos descritos episódios da vida diária da corte, das reuniões entre figuras decisivas e das viagens realizadas. Portugal vivia neste período uma fase complicada. A D. Maria cabe agora viajar e aceitar o seu destino.

Depois de uma viagem de dois meses, Maria não entra em Portugal e o casamento prometido é desfeito. A comitiva segue então para Inglaterra, onde D. Maria é apresentada ao rei Charles e mais tarde a Vitória, uma menina que cresce "aprisionada" entre a obsessão da mãe pela sua segurança, e que aguarda por também ela vir a ser rainha (neste caso, Rainha de Inglaterra). Maria frequenta a casa dos Palmela, família que tem aqui um papel crucial. Durante este período, Maria conhece Alexandre.

Mais tarde acaba por regressar ao Brasil a pedido do pai, que se vai casar com Amélia. Pelo caminho, faz uma paragem na ilha da Madeira, onde aos 11 anos é aclamada rainha. Como já fiz referência, ao longo do livro são as cartas trocadas entre Maria e a sua congénere Vitória que nos vão dando o fio para seguirmos todo este enredo. Um enredo que na verdade retrata aquela que era a realidade de uma sociedade feita de aparências, de contratos feitos e desfeitos. Politicamente, começamos então a assistir à chegada do Liberalismo a Inglaterra, seguindo o repúdio francês ao absolutismo régio. 

Em abril de 1831, D. Pedro vê-se obrigado a deixar o império brasileiro ao seu filho Pedro, uma vez que o Brasil se recusa a ter no governo um "imperador nascido em Portugal." De certa forma, D. Pedro estava a perder poder e acaba por regressar à Europa deixando para trás todos os seus filhos à exceção de D. Maria. A já rainha passa por Londres, mas é em França - onde fica hospedada em casa das primas de Orleães - que se reencontra com Alexandre. Infelizmente, Alexandre morre pouco tempo depois. Seis meses depois, outra das filhas de D. Pedro, D. Paula Januária, acaba por falecer. 

Dois anos depois, o almirante Napier consegue levar a que "os absolutistas" abandonem Lisboa, o que dá a Maria uma oportunidade de entrar em Lisboa e assumir, finalmente, o seu reinado. A guerra não está ganha e "D. Miguel ainda está em Portugal." D. Leonor acaba mesmo por ser afastada por ordem de D. Pedro dos serviços à rainha, acusada de "traição" e de "ser contra o regime constitucional."

Na segunda parte, depois da morte de D. Pedro, cabe a D. Maria fazer chegar ao Porto o "coração do pai, arrancado do seu peito" como agradecimento por terem estado do seu lado. D. Maria casa com Augusto, um "homem liberal (...)enteado de Napoleão Bonapart (...)". No entanto, não chegam a consumar o casamento, pois D. Augusto adoece e morre.

Aos 17 anos, em 1836, D. Maria espera no Arsenal pelo desembarque do seu novo marido, D. Fernando, primo de Vitória. A sua vida como rainha, no entanto, não lhe está a ser facilitada, em parte pela grave crise económica que o país atravessa devido aos anos de conflitos, em parte devido à oposição política que se vê obrigada a enfrentar. Ao contrário daquilo que muitos lhe pedem que faça, D. Maria não foge e acaba por receber uma "comitiva", perante a qual renuncia à "Carta" e aceita assinar "uma Constituição Republicana, ou quase." Mesmo prisioneira, D. Maria não perde a sua altivez.

Em novembro desse ano, porém, a "Carta" é restaurada o que traz alguma tranquilidade ao reino. D. Maria engravida pouco antes de fazer os 18 anos, dando assim um descendente ao trono de Portugal - D. Pedro - que nasce em setembro de 1837. Em outubro do ano seguinte nasce Luís. O excesso de peso da rainha começa a dar que falar, além da sua impulsividade e pela quebra de protocolos. Em outubro de 1840, a rainha dá à luz uma bebé sem vida a quem chama de "pequenina Maria da Glória." Vitória por seu lado, havia também casado e, apesar de referir nas suas cartas que não desejava ter filhos, a verdade é que os seus filhos nascem saudáveis. Esta troca de correspondência é bastante assídua.

É nesta corte que nasce também uma forma diferente de celebrar o natal, onde é "São Nicolau" que vem distribuir os presentes às crianças, depois da Missa do Galo.

Conhecemos também outra figura importante, Costa Cabral, que, politicamente, acaba por ter grande influência nas decisões tomadas por D. Maria II. Em 1846, dá-se a revolta da Maria da Fonte e o que havia começado por uma revolta contra a proibição de enterrarem os seus mortos dentro das igrejas, passa a ser uma rebelião contra a ditadura política e a exploração económica de Costa Cabral. Em 1849 a rainha afasta-se de todos os seus outros filhos uma vez que existe um surto de rubéola que a pode matar ou ao bebé. No entanto, o bebé acaba mesmo por ser um nado-morto. Algum tempo depois, a rainha acaba por adoecer e ao examiná-la, o médico, Drº Kessler, decide ter de a operar o que na época era extremamente perigoso e feito sem qualquer recurso a anestesia. A rainha aguenta mas perde muito sangue.

A família refugia-se em Mafra, na Tapada das Necessidades, onde se tenta afastar um pouco dos problemas da capital. Isso faz com que haja rumores de que a rainha iria abdicar do trono no seu pequeno Pedro. Em setembro de 1850, a rainha recebe a notícia da morte de Leonor da Câmara, marquesa de Ponta Delgada. Pouco tempo depois, recebe a notícia da morte do Duque de Palmela, "D. Pedro de Sousa Holstein", pai de Domingos.

D. Maria II acaba por morrer no seu 9º parto, possivelmente devido ao excesso de peso e a problemas de coração que já tinha vindo a manifestar. No entanto, esta morte precoce não nos deve afastar do facto de que foi sempre uma rainha presente e que se tentou manter sempre na linha da frente das decisões sobre o destino do país, não deixando que ninguém governasse por ela. D. Fernando também teve aqui um papel importante, mostrando sempre o amor à sua esposa, mesmo quando com ela discordava. Apesar deste amor, é perceptível que D. Maria II nutria também alguns sentimentos por Costa Cabral, o que acaba por ser denunciado nas cartas que lhe escreve quando Costa Cabral é deportado para Espanha.

domingo, 28 de junho de 2026

"D. Maria I"

Neste romance da já conhecida Isabel Stilwell continuamos a acompanhar a vida na corte portuguesa, desta vez através da vida de D. Maria I, que como o sub-título deste romance tão bem nos indica, foi uma "rainha atormentada por um segredo que a levou à loucura." Mas sobre o segredo, nada digo, pois têm mesmo de ler o livro de uma ponta à outra. 

A edição que li é igual à da imagem que aqui vos deixo e nesta capa estão duas pessoas representadas: D. Maria I, a primeira rainha de Portugal, e Rosa, sua aia e amiga. E é muito importante que Rosa aqui esteja representada, pois ela acaba por ter um importante papel no decorrer deste história, além de representar - neste livro - um grupo de pessoas que foram exploradas e maltratadas ao longo dos tempos. Ao lermos esta obra, iremos perceber que apesar de criados (escravos, na realidade, em muitos dos casos), estas pessoas acabam por ser vistas como raridades, troféus (objetos), quase peças de uma coleção que se quer mostrar. 
Do que conheço de D. Maria, ela ficou conhecida por ter sido a primeira rainha de Portugal (a primeira a verdadeiramente reinar). Isabel Stilwell começa este seu romance com uma pequena citação de Emm Roy (conhecida pelas suas ilustrações alusivas à saúde mental), que nos dá o mote para o encadeamento deste romance. Como os anteriores, também este se divide em várias partes e os capítulos estão bem demarcados cronologicamente.
Na primeira parte, é-nos apresentada uma Maria ainda jovem, que irá assumir o trono depois da morte de D. José, seu pai (1777) e de duas das suas filhas (1776 e 1777), vítimas de um surto de sarampo.
Como primeira numa linha de sucessão composta só por mulheres e casada com D. Pedro III, seu próprio tio, irmão de D. José I, não lhe resta senão erguer-se perante tamanho desafio, num reinado deste logo assombrado por alguns acontecimentos. Se por um lado, D. Pedro III é odiado por Carvalho e Melo, por outro, é o Marquês que desempenha um papel crucial no reerguer do país depois do terramoto de 1755, na expulsão dos jesuítas de Lisboa e no processo que levaria ao suplício dos Távora.
Tudo isto acaba por levar ao descontentamento da população contra a família real que habitava, à época, na Real Barraca da Ajuda, depois de ter sobrevivido ao terramoto por estar alojada na chamada Quinta dos Bichos (hoje Palácio de Belém).
A decisão sobre a condenação dos Távora, acusados de prepararem um atentado contra D. José I (e que nunca se chegaria sequer a realizar) foi mantida até ao leito de morte de D. José I e, por isso, essa teria sido uma das suas "vontades" que deveria ser realizada e à qual D. Maria I, enquanto sua sucessora e apesar de não acreditar na culpa dos condenados, não se conseguiu opor. Consegue, apesar de tudo, demitir Carvalho e Melo, que se exila na vila de Pombal.
A rainha-mãe, D. Mariana Vitória, aconselha D. Maria a apoiar-se em D. José, no neto (e filho de D. Maria) que entretanto se havia casado com a própria tia, Maria Benedita.Mas Maria I não acha prudente dar tanto poder à irmã e este é apenas um dos diversos assuntos em que mãe e filha discordam.
É feita ainda referência a Pina Manique, responsável pela fundação da Real Casa Pia (a partir de um projeto de sua autoria) e das melhorias feitas na iluminação pública em Lisboa, tornando a cidade mais segura com a instalação "se tudo corresse bem" de "770 candeeiros."
Voltando à "anã Rosa", é a ela que cabem alguns dos comentários às práticas sociais da época (quase que funcionando como um bobo das cortes medievais, sem realmente o ser), descrevendo-nos o estilo de vida, sob um diferente ponto de vista.
Será, no entanto, um embaixador estrangeiro a mostrar-nos a vida política. Robert Walpole, embaixador da Grã-Bretanha em Portugal, casa com uma portuguesa de nome Diana de quem vem a ter um filho varão.
Em 1781, morre a rainha-mãe, Mariana Vitória, que apesar do título nunca chegou verdadeiramente a reinar (era uma infanta espanhola) e é só com a partida da mãe que a rainha D. Maria I, pede a revião do processo dos Távora. Vários anos passados da sua morte, são considerados inocentes e a culpa, na opinião de D. Maria I não é de outro senão do "duque de Aveiro" (Marquês de Pombal) e "dos seus cúmplices." As lembranças dos "autos de fé" a que fora obrigada pelo "avô João" a assistir, atormentam-na. 
E aqui conhecemos outra interveniente de peso, Teresa de Melo. Uma mulher que havia vivido e crescido na casa de Mariana Vitória e que se tornaria amiga de D. Maria. Mais tarde, seria nomeada "priora da Estrela". Maria e Teresa trocam ao longo da vida dezenas de cartas nas quais partilham um segredo: as visões de Teresa. Estas visões poderiam levar à condenação de Teresa de Melo e Maria sabe-o tão bem, que quando ela mesma começa a ter visões, as esconde, temendo ser impedida de continuar a governar.

É a Teresa de Melo que cabe a abertura da segunda parte deste romance (que se inicia em 1784), havendo também aqui nova referência ao problema da saúde mental. A família real faz uma viagem em visita ao cabo Espichel, sendo descrita a capelinha da Nossa Senhora do Cabo (da qual cheguei a conhecer os azulejos azuis e brancos que são aqui referidos) e as peregrinações aí realizadas. São ainda referidas as "pegadas" que o povo acreditava tratar-se ser da mula que tinha ajudado "a virgem com o menino ao colo" e que hoje se sabe serem pegadas de dinossauros que ali terão passado muitos milhões de anos antes. Fala-nos do "Círio", das viagens por mar e por terra, da igreja "de duas torres" e do santuário que lhe dá continuidade, não se esquecendo das "barraquinhas armadas" ao seu redor. A festa a que é feita referência seria a Festa em Honra de Nossa Senhora do Cabo e que agora ocorre em finais de setembro. É ainda referida a Nossa Senhora de Arrábida e a capela a ela dedicada em Calhariz.
A filha de D. Maria I, tem agora 16 anos e irá casar com João, de 17 (sendo referida a ponte construída cobre o "Caia" e a "troca" realizada entre as Casas reais espanhola e a portuguesa.
Entretanto, a mulher de Robert acaba por morrer no parto do segundo filho do casal e Robert conhece Sofia Stert ue passa a ser ama dos seus filhos e, posteriormente, sua esposa.
Neste romance, são ainda feitas diversas referências ao Entrudo e à forma como esta festa pagã começa a ser parte integrante das tradições da corte portuguesa.
É ainda durante esta segunda parte que a infanta Mariana* casa com Gabriel, um infante espanhol, enquanto que o irmão irá casar com D. Carlota Joaquina, repetindo-se de certa forma, a troca de princesas realizada anos antes. Carlota é uma criança de 10 anos quando chega a Portugal e é vista como mimada e desobediente. Robert chega a referir que "os espanhóis" querem ver no trono português a infanta Carlota.

A terceira parte começa em 1787 com uma interessante conversa entre o embaixador, Robert Walpole, e o recém chegado representante da corte francesa, o "marquês de Bombelles". Mais uma vez, o encadeamento entre a realidade histórica e os diálogos criados, demonstra o brilhantismo da escritora.
Há referências também a Beckford, um inglês de renome, mas que é acusado de ser abusador de crianças e que teria combinado "com uma criatura pouco escrupulosa", levar a sua casa um jovem seminarista com quem terá mantido relações sexuais.
Um outro facto aqui apresentado é a controversa abolição do "imposto sobre o bacalhau", mas é sobretudo sobre a varíola que a discussão se vai reacender.
A "variolização" (como era conhecida a inoculação do vírus da varíola) é já algo normal na Grã-Bretanha, mas enquanto que D. Maria - mais ligada à Academia de Ciências - achava que se devia seguir a regra inglesa, Teresa de Melo - mais ligada às ideias da igreja - defendia que podia ser perigoso. Pouco depois, o infante D. José acaba por morrer com apenas 27 anos, vítima de varíola e sem deixar sucessão. É a D. João, príncipe do Brasil, que como único homem restante, cabe assumir o trono de Portugal.
O ano de 1788 é, de facto, negro. A infanta Mariana dá à luz o seu segundo filho, mas acaba por morrer (ao que se sabe também devido ao surto de varíola). Dias depois, morre o seu bebé recém-nascido e o pai Gabriel. Fica vivo o pequeno Pedro Carlos que D. Maria I teme que tenha um mau destino por ser português e não ter ninguém que o proteja. É neste ano que D. Maria I começa a sucumbir à loucura, embora ela se tivesse manifestado anteriormente em episódios pontuais.
Apoiando-se na amiga de longa data, Teresa de Melo, trava uma luta contra si mesma e contra as "vozes" que a atormentam e que se agravam com a morte de Frei Inácio, a 29 de novembro do mesmo ano.

Na quarta parte é referida a "armadilha" montada para que D. Maria seguisse as "vontades" do seu prior, mas Teresa de Melo acaba por lhe mentir e dá-lhe o nome de D. José Maria de Melo (seu sobrinho e bispo do Algarve) para sucessor de Frei Inácio, cujo pedido havia sido outro. 

* Quando tentamos seguir a Cronologia apresentada no inicio do livro, constatamos que tendo nascido em 1768, Mariana faria 18 anos quando em 1786 escreve à mãe sobre o seu medo do parto. Adiante, aquando do nascimento do seu segundo filho em 1787, já na 3ª parte do romance, a rainha D. Maria refere que a filha tem 18 anos "quase dezanove" o que passa a estar correto se pensarmos que ela nasceu em 1768.






sábado, 23 de maio de 2026

"O Mestre de Dachau"

Escrito por Sarah Freethy, "O Mestre de Dachau" conta-nos a história de uma mulher que procura pela verdade escondida na família e que ninguém lhe quer contar. Ela tem apenas uma figura feita de porcelana b ranca, mas sabe que existem outras e sabe também que se as descobrir, irá estar mais perto de saber a sua verdadeira história.

"Por baixo, onde estaria o pelo macio da barriga, a porcelana é lisa e esconde a marca do fabricante; com a palavra Allach estampada num tipo de letra angular que evoca bierkellers, florestas de pinheiros e pousadas alpinas. Por cima, em pinceladas pretas e planas, dois relâmpagos."


A história começa em 1993, à
 "porta da Casa de Leilões Forsythe." em Cincinnati. "Clara Vogel" procura por outras figuras de porcelana semelhantes à que tem em seu poder. Ela sabe que naquelas figuras e na sua história está a sua verdadeira identidade.

Max, um arquiteto judeu formado pela Bauhaus, está apaixonado por Bettina, uma pintora que foge ao que dela esperam e se aventura em criar arte divergente daquilo que é considerado "aceitável" para uma jovem de boas famílias. Os dois acabam por se separar quando Max é apanhado e levado para um campo de concentração, acabando por ir parar a uma fábrica de porcelana na cidade de Dauchau, na Alemanha.

Este livro conta-nos a vida de Max e de Bettina, levando-nos pelos negros anos do Terceiro Reich, mas também nos trazem de volta à atualidade e à busca da verdade. É um livro que em alguns momentos nos leva a parar e a respirar fundo, de tão embrenhados que estamos na sua essência. Quase que nos consegue transportar para lá, revelando-nos os cheiros e as texturas dos quadros de Bettina e das figuras de porcelana de Dachau em que Max trabalha. 

No fim, acabamos por descobrir a verdade, mas não sem antes a história nos levar a desacreditar deste amor e de assistirmos ao seu triunfo.

Recomendo a sua leitura.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Encontrei o amor..."

 Encontrei o Amor onde menos esperava" é um livro de Fátima Lopes, que n os conduz através de uma história de amor, uma história de vida, ou ambas. É um livro que parece ser leve mas que nos traz uma mensagem muito profunda se estivermos dispostos a aceitá-la: há esperança para o amor.

Começamos por encontrar uma mulher que se encontra marcada por relações falhadas. Sofia, a personagem principal, tem amigos e uma família que a ama, mas a perda da mãe fá-la querer regressar às origens e, por isso, mete-se no carro e vai até ao Alentejo onde planeia reconstruir a casa que tinha pertencido aos avós. Mas não é só a casa que se vai reconstruir. 

Existe um amor latente, quase que hibernado, à espera de uma oportunidade para despontar... 

Não me lembro de ter lido algo de Fátima Lopes antes, mas este livro chegou para me prender. É uma leitura leve, mas que traz em si uma grande maturidade. Trás através dela, outras histórias, muitas vivências e, mesmo que não tenhamos a idade de Sofia, ou que não tenhamos uma casa no Alentejo à espera de ser reconstruída, quantos de nós nunca pensaram em atirar tudo para trás das costas e sair à descoberta, não do mundo, mas de nós mesmos?

Adorei o livro e foi importante para me ajudar entre "histórias", que é como quem diz, entre viagens e decisões que tive de tomar, praticamente sozinha e com medo de errar. Mas assim, se não for para arriscar, nunca saberemos se vale a pena, não é? E quem sabe, algum dia, também eu descubra o amor.

domingo, 10 de maio de 2026

"Não levo saudade!"

Esta história foi lida em Ebook durante as viagens de comboio, no meu telemóvel, tentando-me distrair da falta de vontade em ir para Lisboa e das dores. 

O narrador fala no seu pai e apresenta-nos a certa altura uma frase que eu penso resumir o livro no seu todo: 

"Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas."

E na verdade, não conseguimos perceber o que é verdade ou ilusão nesta narrativa, o que é fruto da imaginação de um pai com Alzheimer ou de um filho que procura a verdade sobre o pai e sobre as suas próprias origens, ao mesmo tempo que, ele próprio parece ir perdendo a memória e enlouquecendo. 

A história começa no cemitério dos Prazeres onde o personagem principal encontra uma pedra tumular com uma estranha inscrição. 

Ao tentar saber mais sobre o morto a quem essa pedra faz jus, começa a descobrir a história de um homem que terá dito algumas verdades, mas muitas mais mentiras, acerca da sua vida.

Parece que quanto mais se aproxima da verdade, mais a loucura toma conta dele e, entretanto, vamo-nos perdendo entre histórias mais ou menos mirabolantes e personagens improváveis, mas que poderiam muito bem ser reais. 

Um livro estranho, incerto e confuso, escrito por P. Barbosa, autor sobre quem, pouco ou nada consigo encontrar a não ser, outros livros do mesmo género.


terça-feira, 5 de maio de 2026

Dia Mundial da Língua Portuguesa

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Esta data é celebrada anualmente a 5 de maio, desde 2020, tendo sido este o dia escolhido pela "UNESCO em 2019 e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009, para assinalar a diversidade, a história e a importância global do quarto idioma mais falado do mundo." O Português, passou a ser o primeiro idioma "no mundo a ter uma data oficial reconhecida" por este órgão.

Apesar de Portugal se localizar no hemisfério norte, é na verdade a sul que a língua é mais falada. Atualmente, a discussão prende-se com o uso do "Novo Acordo Ortográfico." Mas o que é isto de Acordo Ortográfico? De facto trata-se de "uma convenção que estipula regras sobre como escrever." 

Já houve outros AO. "A primeira reforma ortográfica, em Portugal, ocorreu em 1911 e, tal como a atual, também sofreu várias contestações. Foi com a reforma ortográfica de 1911 que deixámos de escrever “pharmacia” e passámos a escrever “farmácia”, por exemplo."

Sabiam que também foi a partir dessa data que se passou a escrever “anedota”, “dano” ou “ditongo”, em vez de "“anecdota”, “damno” e “diphthongo”, respetivamente. O “ y” foi substituído pelo “ i” em palavras como “sintaxe” (que se escrevia “syntaxe”)."

O Novo AO, procura por um lado acabar com as divergências ortográficas entre os diferentes países que o ratificaram (Portugal em 2008, Brasil em 2004, Cabo Verde em 2006, São Tomé e Príncipe em 2006, Guiné Bissau em 2009). As mudanças influenciam a escrita, mas não a leitura nem a pronúncia das palavras como algumas pessoas acham. Assim, não vamos alterar a nossa "forma de falar, nem vamos passar a falar “brasileiro”." 

"O acordo também não retira consoantes pronunciadas, ou seja, em Portugal, facto vai continuar a ser facto e não fato." Por outro lado, a "eliminação de consoantes mudas não vai alterar a pronúncia." Por exemplo: "espectador passa a escrever-se espetador mas continua a pronunciar-se com aberto." 

Foi também a partir da introdução do Novo AO que o nosso alfabeto passou a ter 26 letras em vez das tradicionais 23, incluindo agora o K, Y e o W. Já os usávamos em algumas palavras e cada vez mais fazia sentido que fizessem parte do alfabeto ensinado nas escolas. Passamos também a escrever os "nomes dos meses, dos dias da semana e das estações do ano" com minúsculas em vez de maiúsculas (a esta nova regra confesso que demorei a habituar-me).

E estas são apenas algumas alterações.

Para mim, a língua portuguesa é uma língua viva, um idioma que é falado de formas diferentes em Portugal, no Brasil ou em Cabo Verde, mas em que todos nos entendemos. Aquilo que mais me custa ver, são os erros que se multiplicam e que cada vez mais são visíveis não apenas na internet, mas também em livros. Há traduções cheias de erros, vê-mo-los nas notícias de sites portugueses e brasileiros. Por exemplo, a palavra "vê-mo-los" que aqui escrevi é detetada como erro, quando é apenas a união da primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo ver (Nós vemos) com o pronome pessoal referente à 3.ª pessoa do plural masculino ("os"). Por isso, cuidado com os tradutores e com a IA que, desde já vos aviso, está cheia de erros facilmente detetáveis e não estão associados ao uso do Novo AO. 

E se descobrirem erros nos meus textos, por favor avisem-me. 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quem foi Orwell?

O nome George Orwell é o pseudónimo de Eric Artur Blair, nascido em 1903 numa região que na época pertencia à Índia britânica. Eric viria a viver em Inglaterra para onde se mudou ainda na infância com a família.

Foi uma figura incontornável do jornalismo, e uma dos mais influentes escritores do século XX. Eric "combateu na Guerra Civil de Espanha, experimentou o colonialismo inglês na Birmânia como polícia imperial," e chegou a ser também correspondente de guerra. Todas estas experiências moldaram, não só o homem, mas o escritor em que se tornou.

Da sua obra fazem parte obras como "Dias Birmaneses (1934) e Homenagem à Catalunha (1938)", embora as mais conhecidas tenham sido "Quinta dos Animais (1945) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949)." Orwell morreu de tuberculose em 1950, com apenas 47 anos, mas a sua obra continuou a vencer barreiras. Na sua obra, encontramos patente a crítica ao autoritarismo, à censura e à manipulação da verdade. 

Os seus livros acabaram censurados pela maioria dos governos autoritários (caso da União Soviética, da China e até de Portugal). Na atual Rússia, Putin proibiu a palavra "guerra" e, se já leu "1984", isso pode fazê-lo lembrar-se de algumas passagens, como a expressão "a guerra é a paz".

Durante o Regime Salazarista, obras como "O triunfo dos porcos" (uma sátira política dirigida ao regime soviético saído da revolução bolchevique) e "1984" foram censurados em Portugal. 

Fontes:

https://www.wook.pt/autor/george-orwell/4729963

https://observador.pt/opiniao/george-orwell-tem-mais-uma-vez-razao/

https://ensina.rtp.pt/artigo/o-big-brother-de-george-orwell/


"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...