sábado, 24 de fevereiro de 2024

"Os Lusíadas"

Bem, para começar, esclarecer que não estive a ler a obra na íntegra. Já a tinha lido quando era aluna do 3º ciclo. Mas volta não volta, ano após ano, volto a pegar nesta grande epopeia para a trabalhar com os meus alunos durante as explicações de português.


Aquilo que mais me atrai, é que por entre cada estrofe, encontramos aqui e ali referências da nossa própria História, umas vezes bem explícita e, noutras, mais escondida. 


Grande marco da nossa história literária, Camões é "o Poeta" português. Viveu durante o século XVI e escreveu a primeira epopeia portuguesa, publicada em versão impressa (1572), "no período literário do Classicismo, ou Renascimento tardio, três anos após o regresso do autor do Oriente, via Moçambique."


"Os Lusíadas" terão começado a ser escritos provavelmente em 1553, qundo Camões esteve em Goa, Índia. A obra é antropocêntrica, ou seja, valoriza o "ser humano" e a sua "racionalidade." Um outro aspeto importante é que além deste antropocentrismo, Camões acaba por mostrar ao longo de "Os Lusíadas" um povo  "europeu impermeável à cultura do Oriente," e que se mostra de certa forma "incapaz de compreendê-la."


Quanto à métrica e à rima é de um rigor formal que a muitos espanta. O poema é constituído por 10 cantos divididos em 1102 estâncias (estrofes). Cada umas destas estâncias é composta por 8 versos (oitava) perfazendo assim um total de 8816 versos. Cada verso tem 10 sílabas métricas. Uma outra caraterística é que estes versos são predominantemente heróicos, ou seja, têm acentos rítmicos nas 6ª e 10ª sílabas. Encontramos também alguns versos acentuados nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas e por isso são chamados sáficos. A rima apresenta um esquema fixo, com os seis primeiros versos em rima cruzada (ababab) e os dois últimos em emparelhada (cc), que ganha o nome de "rima real" ou "rima camoniana."


Assim começa este poema:



As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;



Logo nestas primeiras linhas, o poeta anuncia que vai contar a história das grandes navegações, destacando desde logo o povo português, como sendo lutador, corajoso, valente e pioneiro.


No que se refere à sua estrutura interna, "Os Lusíadas" dividem-se em quatro planos: "Proposição", "Invocação", "Dedicatória" (os quais ocupam as primeiras dezoito estâncias) e "Narração" (que compõe o corpo do poema propriamente dito). Acrescente-se aqui o Epílogo (estrofes 145 a 156 do Canto X) no qual "o poeta lamenta mais uma vez as injustiças que o Reino lhe terá cometido." No Epílogo, Camões vem reforçar a "dedicatória da obra ao jovem rei D. Sebastião" que já tinha referido no início do poema. Toma aqui a liberdade de "como homem experiente da vida e dos conhecimentos," dar ao jovem rei "alguns conselhos: que se aconselhe com os melhores, governe com justiça," e que "premeie apenas e sempre quem merece." Ao rei pede também que "lute com bravura e inteligência para expandir Portugal e a fé cristã."


Nestes planos encontramos quatro temas. A "Viagem" onde se encontra a ação central da epopeia propriamente dita, o "Plano Mitológico", em que "são descritas as influências e as intervenções dos deuses da mitologia greco-romana na ação dos heróis", a "História de Portugal" e, por fim as consideraçõs do poeta onde Camões apresenta a sua reflexão pessoal, referindo-se a "si mesmo enquanto poeta admirador do povo e dos heróis portugueses."


Podemos de facto afirmar que no que se refere ao enquadramento da "Viagem" esta nos conta a ida da Armada portuguesa comandada por Vasco da Gama até à Índia, sendo que esta viagem vem representar todas as viagens feitas pelos portugueses. A partida de Lisboa é referida no Canto V numa analepse, uma vez que a narração propriamente dita começa pela passagem da armada pelo Oceano Índico. Podemos assim dizer que a "narrativa começa in medias res (ou seja, parte do meio da ação para então inserir todos os acontecimentos)." É "Vasco da Gama" o narrador desta parte da epopeia, contando a sua ida à Índia "ao rei de Melinde." Se considerarmos "Os Lusíadas" como uma obra renascentista, não é de estranhar que este siga "a estética grega que dava particular importância ao número de ouro. Assim, o clímax da narrativa, a chegada à Índia, foi colocada no ponto que divide a obra na proporção áurea (início do Canto VII)."


As ações secundárias são encaixadas na ação central, como são os versos onde se referem outros aspetos da História ou as referências feitas a outras epopeias.


Também é percetível que o destino dos "Heróis" no Oriente está a ser discutido pelos deuses, sendo "convocado o Consílio dos Deuses (estrofes 20 a 41) para decidir se os portugueses devem ou não conseguir alcançar o seu destino." Júpiter defende que devem proteger os Lusitanos, mostrando-se contra os "mouros, castelhanos e romanos", enquanto Baco acha que os seus próprios feitos no Oriente podem ser esquecidos, mostrando "ciúme e inveja," pelos portugueses e acaba por ser o "responsável, direta ou indiretamente, por todas as ciladas" que os heróis vão enfrentando. Na discussão entre os deuses, Vénus compara o povo português aos romanos na "coragem" e sabe que este sempre celebrarão os deuses por onde quer que passem. "Camões era um homem de paixões, que também celebrava o amor na sua lírica, e talvez por isso tivesse escolhido a deusa romana desse sentimento para patrona do seu povo." 


O povo português, marinheiro e herói destemido, acaba por ser "protegido por determinados deuses e perseguido por outros até que, por conta de sua valentia, coragem e persistência, supera as armadilhas e consegue chegar à terra distante, onde funda novo reino." Isto não vem de todo retirar do poema a defesa de "uma fé única no Deus cristão" que é defendida ao longo da obra.


Espero que tenham gostado. Obrigada pela vossa leitura!


Fontes:


https://notapositiva.com/os-lusiadas/#


https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Lus%C3%ADadas


AIDAR, Laura, https://www.culturagenial.com/os-lusiadas-de-camoes/


 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Poesia... naufragar, fugir

Parab lembrar aqueles que seguem por esse mar em busca de uma vida melhor e que fundo acabam por deixar naufragar os seus sonhos...


 



Fugido


 


Vindo de terra distante


Sem casa, sem gente, sem nada


Chega sem fé o migrante


Com vida, esperança acabada.


 


Venceu o mar, impiedoso,


Transpôs os mitos da morte


Mas sem nada, desgostoso,


Que será da sua sorte?


 


Feita a viagem morreram


Companheiros, filhos e pais


Daquilo que viu não queria


Nem viver nunca mais!


 


Fugido da guerra distante


Que lhe matou o futuro


Deixou nas mãos de um tratante


A travessia no escuro.


 


Nasce o dia e a claridade,


Fá-lo olhar o céu aberto


Não conhece a cidade,


Nem tem destino certo.


 


Mas as balas, não as descobre


Nem caiem bombas no chão


Se teto ainda não o cobre


Espera só uma refeição.


 


Nem todos o vão entender


Nem sequer o aceitar


Se alguns se podem esquecer


Ele isso não vai deixar.


 


É refugiado, sim.


Não precisam de o aceitar


Só qu’ ao mar não o devolvam


Não quer à sua pátria voltar.



Elsa Filipe, fevereiro de 2024

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

"A Mensagem na garrafa"

Quando vou à biblioteca, raramente vou com a ideia sobre o que vou trazer e normalmente gosto de dar uma volta, especialmente pelos destaques e ir folheando alguns livros. Desta vez, calhou-me este livro de um autor para mim ainda desconhecido: Jussi Adler-Olsen. 


"A mensagem na garrafa" é um policial que encerra em si uma história dramática. O criminoso é um homem sem escrúpulos que se aproxima de seitas religiosas e que, aproveitando-se da confiança que ganha nessas comunidades, se liga com uma das famílias e lhes rapta dois dos filhos. Um é morto e o outro fica vivo com a mensagem que estarão sempre a ser vigiados. A família, sob ameaça e em luto com a morte de um dos filhos, acaba por continuar em segredo e em silêncio anos a fio. Duas dessas crianças, tinham sido raptadas e enclausuradas num barracão, mas a inteligência de um dos meninos, portador de asperger, leva-o a encetar uma forma de comunicar com o exterior. Mas só vários anos depois, a mensagem que tinha sido escrita com o seu sangue e enviada dentro de uma garrafa, é finalmente encontrada e serão precisos muitos esforços para a decifrar. 


Uma investigação que segue a par com outras em que a polícia dinamarquesa está envolvida. Ao mesmo tempo, Carl, inspetor da polícia que recebe esta garrafa, está também numa situação difícil, traumatizado com a morte de um dos seus parceiros e com um outro colega, que ficou tetraplégico, na mesma ocorrência fatal, a viver na sua casa. Aqui está outro mistério por desvendar, mas não foi durante este livro que se descobriu tudo. Ficam muitas pontas soltas quanto se acaba de ler, mas a história apesar do drama, das várias mortes, das descrições dos maus tratos infantis e da violência domêstica que encerra, acaba com uma frase reveladora que no meio do caos, ainda pode existir amor e empatia.


Adorei a escrita de Adler-Olsen. Este de facto é o terceiro livro de uma série chamada "Departamento Q" e, claro que agora fiquei com vontade de ir procurar os dois anteriores e saber se além destes, ele já escreveu outros romances. Agora tenho de o ir devolver à biblioteca e preparar-me para iniciar uma nova leitura. Desta vez, um português...

sábado, 10 de fevereiro de 2024

"O conto da Ilha Desconhecida"

Este é um dos livros de José Saramago que podemos encontrar no Plano Nacional de Leitura, para o 8º ano. A narrativa situa-se num tempo e local indeterminado e conta a história de um "homenzinho" que queria para si um barco com o qual pudesse ir à procura de uma "ilha desconhecida". 


É esse o pedido que ele vai fazer ao Rei, mas a primeira dificuldade é conseguir que o Rei o oiça. Logo ali, de forma um pouco metafória vão surgindo outras personagens que são como que muros intransponíveis para quem não é "tão importante" e que dificilmente iria conseguir alcançar o seu objetivo. Saramago introduz logo aqui nas suas primeiras linhas uma crítica à burocracia, em que a "empregada" representa o poder que alguns funcionários, sem o ter, fazem por se fazer valer da sua posição para impedir que os outros consigam alcançar os seus objetivos. Mas a sua obstinação traz frutos e a sua viagem finalmente pode começar. 


Neste livro encontramos um Saramago que escreve para os mais novos, mas que ao mesmo tempo não deixa de lá colocar entrelinhas missivas para os mais velhos e mais entendidos em decifrar a sua escrita. Na forma como redige os diálogos, levanta alguma confusão durante a leitura, tornando mais complicado a alguns alunos ou leitores menos atentos, perceber onde termina e acaba a fala de cada personagem. É preciso aprender a ler Saramago.


Este livro foi publicado pela primeira vez em 1997, um ano antes de Saramago ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Metaforicamente, Saramago escreve aqui o seu "mundo", a sua visão do ser humano e das suas ambições e frustrações, não deixando também de fazer uma dura crítica social. A personagem principal representa todos os homens que vão à procura dos seus sonhos, lutando por conquistar os seus objetivos apesar das dificuldades com que se possam deparar nessa caminhada.


Para os alunos que ainda não conhecem Saramago, aconselho a começarem por este conto, antes de avançarem para outros mais complexos e que tentem encontrar aqui as linhas mestras da sua escrita, o que os auxiliará depois na leitura de outros livros do escritor. Saramago pode ser um génio, mas sem dúvida, não é um génio fácil de ser compreendido por todos.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

"O Deus das Pequenas Coisas"

A história passa-se nos anos sessenta, setenta do século passado em Ayemenem, Kerala, no sul da Índia. Ammu vive com os filhos gémeos, Rahel e Estha de sete anos. A avó das crianças (matriarca desta família), o tio e a tia-avó vivem na mesma casa e gerem uma fábrica de conservas, numa época em que os "tocáveis" e os "não-tocáveis" não tinham os mesmos direitos.


A história começa com o regresso de Rahel a uma casa vazia, sem mobília e com um velho carro estacionado à porta. As três gerações desta família estão de facto espalhadas pelo mundo e é aquela casa o seu ponto de encontro. Dentro de casa, está ainda a sua tia-avó, Baby Kochamma. Rahel vem de visita ao irmão, Estha, e começa desde logo por referir algumas situações sobre as quais, mais tarde, iremos entender como aconteceram e a importância que tiveram no desfecho da história.


De seguida, passamos a saber que os gémeos teriam sido separados e que isso teria tido algo a ver com a morte de uma menina, prima dos gémeos, cujo velório é descrito com muito detalhe. Sophie Mol, era prima dos gémeos e tinha vindo visitar a família. De facto, a narrativa é construída através de vários saltos temporais, que nos levam do presente ao passado, de forma a que cada episódio atual é depois explicado pelos atos do passado, consoante Rahel vai percorrendo os diversos locais da sua infância. Para mim, estas idas e vindas temporais tornam a história mais confusa, sendo que alguns episódios vão sendo repetidamente descritos, umas vezes da perspetiva infantil do passado, noutras através de uma descrição mais sólida dos factos e das suas consequências. Há também a história de Vellutha, um "não-tocável" que de certa forma é aceite pela família e que vive com o pai e com um irmão paraplégico num casebre num terreno anexo à casa principal, perto do rio. O rio que terá um papel fundamental na história e que será, ao mesmo tempo, um ponto de amor e de morte.


Arundhati Roy , em "O Deus das Pequenas Coisas" mistura drama e humor, vida e morte, passado e presente, como dois opostos que se complementam e que não existem um sem o outro, tal como os dois gémeos que, mesmo separados, continuam a ser apenas "um" e não entendem o conceito de ser "outro."

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...