quarta-feira, 22 de maio de 2024

Hoje é dia do Autor português

Uma data que se celebra desde 1982 e que foi instituída pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), numa iniciativa do maestro Nóbrega e Sousa. No mesmo dia, assinala-se também o aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores. Mas o que é um autor?



..."aquele que cria, causa ou dá origem a alguma coisa, especialmente obra literária, artística ou científica."



Se pensarmos nisto, desta forma, facilmente podemos entender aquilo que Michel Foucault argumentou no ensaio "O que é um autor?" (1969) onde afirmou "que todos os autores são escritores, mas nem todos os escritores são autores." Eu concordo. Só serei autora se aquilo que eu faço for publicado e, sendo publicado deixa de ser só meu, passa a ser do público.


Sabia que já existe uma Base de Dados de Autores Portugueses? Esta base de dados é "da responsabilidade da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas" e "é a maior base de dados biobibliográficos de autores portugueses disponível online, reunindo presentemente mais de 5000 autores."


Em "constante atualização, esta base de dados teve origem no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses que, publicado entre 1983 e 2001, contemplava já mais de 3500 autores nascidos entre o século XII e 1940. Esta base de dados de autores (Escritores) foi posteriormente alargada a ilustradores portugueses (Ilustradores)."


Fontes:


https://imprensanacional.pt/22-de-maio-dia-do-autor-portugues/


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/Autores.aspx


https://pt.wikipedia.org/wiki/Autor


 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Poema "Naquela cidadezinha"

Poema que enviei para um concurso de poesia em que o tema era uma "cidadezinha"...


Espero que gostem.



"Naquela cidadezinha" 


De trás das cortinas espreita

A menina à janela.

Cantam os sinos da igreja,

E toda a cidade, debruçada,

Sonha vestir como ela.

 

De salto e diadema

Desfila pela calçada,

De branco e alfazema,

A noiva tão amada. 


E até as carroças, param,

Curiosas,

Cessam de rodar.

Só para a deixar passar.


Param os moços o trote

Oh. Que linda que vai!

Pela mão do seu pai

Pelas gentes tão amada.


Oh, se enxugam lenços chorosos

De olhos brilhantes, a mãe

Abraça a sua menina

Que antes tão pequenina

É agora uma mulher.

 

As casas se enfeitam por ela

Com fachadas de alva cor,

De flores se engalanaram

As janelas e varandas,

E nas ruas onde correu,

Passa agora a noiva estimada,

A transbordar de tanto amor!


E nesta cidadezinha

Calam-se os cães, param os carros

Ouvem-se fogos estoirar

Que coisa bela se vê!

Oh! Deus, a abençoe

A noiva que vai casar!

 

Elsa Filipe, maio de 2024

sábado, 18 de maio de 2024

"Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil"

Cristóvão Colombo em 1492 leva as embarcações espanholas até ao território que passaria a ser conhecido como o "Novo mundo." Estávamos em pleno Renascimento, onde novas formas de expressão são encontradas, entre elas, a "literatura de viagens" - onde esta carta se inclui - e que não é mais do que guias náuticos ou diários de bordo, elaborados por um grupo que quer detalhar as dimensões da Terra, os monstros horríveis que vão enfrentando, as criaturas nunca vistas que vão sendo desvendadas e as lendas de cidades fantásticas.


Estes relatos vão ajudar a desenvolver áreas do conhecimento como a história natural, a geografia, a astronomia e a antropologia.


A "Carta" remetida por Pêro Vaz de Caminha a Dº. Manuel, é disso um bom exemplo. Escrita a 1 de Maio de 1500 em Porto Seguro, no Brasil, é a primeira notícia de um país e de um povo até então desconhecidos. Na sua versão original, encontra-se guardada na "Torre do Tombo e integra o registo da Memória do Mundo da Unesco desde 29 de Julho de 2005."


Nesta carta, é relatada a "chegada dos navios comandados por Pedro Álvares Cabral ao novo continente," ou seja, sobre o "achamento" daquele que só se saberia depois ser o Brasil - e não a Índia, como estava planeado - com grande rigor, conhecimento e domínio sobre a língua, pelo facto de ser um cronista e não um homem do mar. Mostra a "sabedoria do humanista," uma "nova aptidão de apurado observador, com o fino talento de escritor," numa elaborada "crónica de grande qualidade descritiva," que visa informar "o rei sobre a exuberância e o exotismo do novo mundo e sobre a fisionomia dos nativos."


No entanto, Pêro Vaz, o escrivão desatacado para elaborar esta missiva, começa desde logo por esclarecer que o que pretende fazer é uma descrição factual sem artimanhas de embelezamento e que não se irá reter em aspetos ligados à navegação propriamente dita.


A expedição parte de Belém a nove de março. A pilotar a nau onde segue Pêro Vaz vai Pêro Escobar e, na carta, é dado conta da perda de uma nau - a de Vasco Ataíde, a 23 de março. Segue-se então a descrição, quase que exaustiva da chegada dos portugueses a um novo território, a que chamam de "Vera Cruz" e do primeiro encontro com os "homens que andavam pela praia", "pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas."


Durante o seu discurso, é explicado que no dia 24 de abril são feitos os primeiros prisioneiros, mas que depois são libertados, "dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos", de "bons narizes, bem feitos", acrescentando com pormenor a forma como "traziam os beiços de baixo furados", como são os cabelos "corredios" ou seja, lisos e "rapados até por cima das orelhas." Descreve também a forma como ele e outros (Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho e Aires Correia) os recebem junto com o capitão do barc e como comunicam com os nativos através de sinais. Explica como surge a sua interpretação de que haveria ouro e prata em terra, "isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos."


Depois, descreve como no dia seguinte, o capitão ordenou que ele acompanhasse Nicolau Coelho, Bartolomeu Dias e Afonso Ribeiro, numa ida a terra para observarem como é que os nativos viviam. Começam por fazer trocas de objetos e, falando aqui Pêro Vaz pela primeira vez nas "moças".


No domingo de Páscoa, é então erguido um "altar mui bem corregido" e Pêro Vaz explica como é então dita a primeira missa pelo "padre Frei Henrique", perante a "bandeira de Cristo" trazida de Belém. A carta continua então a descrever como é que nos dias seguintes, a terra foi sendo explorada e como foram avançando até encontrarem uma povoação com "nove ou dez casas", todas de "madeira" e cobertas "de palha". Em cada uma dessas casas "se recolhiam trinta ou quarenta pessoas." É nesta relação, nestas primeiras trocas e investigações, que começam a impor aos poucos a sua vontade aos nativos, que os seguem sem maldade, tal como é dito aqui: "Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos...", indiciando um outro motivo da expedição, ou seja, a evangelização. Esta evangelização é justificada como tendo sido mesmo ordenada por Deus: "E pois Nosso Senhor... por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa."


Este documento, "chegou a Lisboa semanas depois, a bordo de uma nau que foi mandada regressar a 1 de Maio."


Fontes: 


MARQUES, Carla, SILVA, Inês, "Letras e Companhia, 9º ano", ASA;


https://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2010/11/Carta-de-Pero-Vaz-de-Caminha-transcricao.pdf


https://ensina.rtp.pt/artigo/pero-vaz-de-caminha-um-novo-mundo-para-o-mundo/


 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

"Mensagem"

Fernando Pessoa, um dos maiores poetas portugueses, viu o livro "Mensagem" ser o único livro em português publicado ainda em vida, em 1934. Este pequeno livro de poemas foi até contemplado no mesmo ano com o "Prémio Antero de Quental", na categoria de «poema ou poesia solta», do Secretariado Nacional de Informação. Esta é uma obra lírica que se interliga em vários aspetos com a obra "Os Lusíadas" de Luís de Camões, escrito cerca de 400 anos antes.

Este livro está dividido em três partes - "Brasão", "Mar Português" e "O Encoberto" - e é composto por um total de 44 poemas, onde se contam séculos de história e onde o passado é contemplado de forma saudosista.

Em: "Brasão" são dadas informações sobre a formação da nacionalidade, heróis lendários e históricos.

Já em "Mar Português" são referidas as descobertas de um povo heróico e aventureiro que pelo mar vai à conquista do império. Um povo que mostra ter uma ânsia pelo desconhecido e que demonstra uma grande coragem, no seu esforço heróico da luta contra o mar.

Na última parte, "O Encoberto" é referida a morte do império de Portugal, simbolizada pelo nevoeiro e onde é notória a afirmação do Sebastianismo. Portugal é visto como um país estagnado à espera do ressurgir.

Fernando Pessoa destaca os heróis como Ulisses, Viriato, ou o Infante D. Henrique.

"Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Dá também um papel de destaque aos mitos, como por exemplo, no "Mostrengo", que podemos comparar ao "Adamastor" Camoniano.

"O Mostrengo:

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»"

O poeta destaca a grandiosidade de um povo que, apesar de "pequeno" foi o impulsionador de grandes "feitos." Isto é claramente visível em poemas como "Ascenção de Vasco da Gama" e " Mar Português."

"Mar português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

A busca por uma "Índia nova" é aqui afirmada tal como nos "Lusíadas" de Camões, não como uma forma de conquistar um novo Império terreno, mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, a que chama "o Quinto Império."

"Grécia, Roma, Cristandade,

Europa - os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?"


D. Sebastião está de facto presente em vários dos poemas que compõem a "Mensagem", como o "Encoberto" ou "Nevoeiro".

"Nevoeiro:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!"

 

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-mar-portugues/


https://ensina.rtp.pt/artigo/nevoeiro-de-fernando-pessoa/


https://ensina.rtp.pt/artigo/fernando-pessoa-o-mostrengo/


 


 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

"O quarto protocolo"

"O Quarto Protocolo" é uma história de traições, suspense e conspirações que nos leva ao tempo da Guerra Fria. Um erro, poderia ter despoletado uma nova guerra, com o receio de uma nova bomba nuclear a pairar sobre os estados europeus. Para mim, um livro que apesar de ter sido escrito em 1987, ainda me fez arrepiar pela sua atualidade e por me lembrar constantemente que sabemos muito pouco sobre as movimentações e acordos que são feitos atrás das cortinas. Este acordo, chamado de Quarto Protocolo, refere-se à assinatura de um documento concensual, entre os dois grandes blocos saído da Segunda Guerra Mundial e que estipulava a proibição do uso de armas nucleares. 


Mas o enredo começa com um ladrão de jóias. Um ladrão que assalta uma casa e, rouba os famosos diamantes "Glen". Para os transportar, agarra numa bolsa que se encontrava na casa assaltada. Ao longo da narrativa, os diamantes acabam por passar para um papel secundário, pois é na bolsa que reside a informação principal. Dissimulada, está informação secreta importante, que mostra que existem fugas de informação ou, possivelmente, ações de contra-espionagem dentro dos serviços secretos.


O Plano Aurora, elaborado em segredo pelos soviéticos, vem dar a Valeri Petrofsky, uma arriscada tarefa: fazer detonar uma bomba nuclear norte-americana numa base aérea britânica, utilizada pela NATO, mais propriamente, na Escócia. O plano pretende simular um acidente e colocar o povo britânico, contra os seus aliados da NATO, dando assim força ao bloco ocidental.


Para o conseguir, todos os elementos que compõe o engenho têm de ser dissimulados e transportados para o Reino Unido, o que se revela uma tarefa meticulosa e de grande criatividade.


Nesta corrida contra o tempo para evitar um novo desastre nuclear, John Preston, investigador do MI5 - Serviço de Segurança Britânico - poderá ser o único a conseguir travá-lo, mas a sua tarefa começa a ser dificultada desde logo pelos seus superiores. John Preston está em Inglaterra por motivo de ter sido despromovido, depois de expor um homem que roubava segredos da NATO para os sul-africanos, sem saber que eles iam parar ao KGB. Esta parte da história, que possivelmente serve para nos dar a conhecer um pouco mais a fundo as personagens e as suas interligações, foge um pouco da temática inicial e leva o leitor até África, relatando aqui, também, as interferências da URSS e da NATO, em alguns estados africanos.


Preston, fica então com a função de supervisionar portos e aeroportos e, é nessas funções, que começa a perceber movimentações estranhas, como a chegada de falsos marinheiros, e a apreensão de um disco de polónio. Sob a protecção do director do MI5, Sir Nigel Irvine, Preston vai iniciar uma investigação, que o leva a Petrofsky.


Um autêntico thriller que pelas suas descrições detalhadas, me prendeu do principio ao fim, apesar de ter sido muitas vezes complicado perceber os meandros desta bem elaborada intriga ao mais alto nível de espionagem, que opõem os países ocidentais à própria URSS, na Era da Guerra Fria. 


Frederick Forsyth é um autêntico mestre a interligar as suas personagens num denso enredo sem que se perca a vontade de continuar a ler. A dimensão do livro, poderá assustar alguns, mas no meu caso, demorei muito mais tempo que o normal a terminá-lo porque, por várias vezes, me vi impelida a ir pesquisar sobre a realidade dos factos. Uma das coisas que acho imprescindível que, ao lermos esta obra, tenhamos presente, é que a Guerra Fria é real. "Os EUA lideraram o Bloco Ocidental e a URSS o Bloco de Leste, criando organizações de âmbito politico, militar e económico para prolongar a sua influência.  Foi neste quadro que surgiram o Plano Marshall e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) no primeiro bloco, ou o Plano Molotov e o Pacto de Varsóvia no segundo."


Não sabemos se houve um plano destes, nem se a haver se chamou Aurora, mas existe em São Petersburgo, na Rússia, um navio com uma grande história e importância para os soviéticos. O "Cruzador Aurora", que é um dos símbolos da Revolução de outubro de 1917, participou também em "três guerras – as duas guerras mundiais e a Guerra Russo-Japonesa."


No livro, Forsyth descreve também de forma bem detalhada a situação política britânica, com a iminência de eleições. No horizonte, está Margaret Tatcher, opositora dos movimentos operários. Tatcher defende aquilo que se viria a chamar neoliberalismo. "Coube a Margaret Thatcher liderar a reação da direita, dotá-la de um novo programa para a acumulação capitalista e romper o cerco que parecia condenar o imperialismo à decadência." Ao longo desta narrativa, vamos também tendo acesso a algumas das movimentações nos bastidores ingleses. Somos levados aos meandros da política, mas sem muito aprofundamento da questão. 


Fontes:


https://ensina.rtp.pt/artigo/a-guerra-fria-as-razoes-do-antagonismo-entre-as-superpotencias/


https://existeumlugarnomundo.com.br/cruzador-aurora-uma-lenda-russa/


https://operamundi.uol.com.br/opiniao/margaret-thatcher-foi-a-grande-apostola-da-guerra-fria/


 


 

terça-feira, 14 de maio de 2024

"História da Gata Borralheira"

Sempre admirei Sophia de Melo Breyner como escritora e descobri há pouco tempo este conto que nos fala de uma Gata Borralheira dos tempos modernos. Publicado em 1984, este conto remete-nos para uma história muito mais antiga do que poderíamos supor. "Uma das primeiras variantes da história surgiu na China, em 860 a.C. Depois, na Grécia Antiga, Strabo (63 a.C. - 24 d.C.) escreveu sobre uma escrava forçada a casar com o rei do Egito." Foi passando de geração em geração, de boca em boca e, acaba por chegar a Itália durante o "século XVII." Embora apresentando algumas diferenças, este conto popular é bastante semelhante ao que "parece ter inspirado a versão publicada por Giambattista Basile em 1634." Mas será Charles Perrault, um francês que foi considerado o "pai da literatura infantil", quem acaba por escrever "a variante que se tornou mais conhecida entre o público."


É "no século XIX," que "os incomparáveis irmãos Grimm, verdadeiras autoridades em matéria de contos de fadas," escrevem e publicam a sua versão que, como sabemos, é bem "mais sombria."


Tal como no original, podemos dizer que se trata de uma história de "amor à primeira vista, que também de temas complexos como a negligência e o abuso familiar." No entanto, nesta versão de Sophia, destaca-se um outro sentimento importante, a inveja e a vaidade. Lúcia, a personagem principal deste conto, é uma jovem que perdeu a mãe e que vive com o pai, "os dois irmãos" e "as velhas criadas faladoras." Lúcia frequenta um colégio e, chegando a data de uma importante festa, ela vê-se obrigada a ir usando um velho vestido que já tinha pertencido à sua madrinha e uns sapatos mal arranjados, que lhe caíam dos pés. Esta madrinha representa para Lúcia uma figura maternal, que a apoia e que, até a convida para com ela ir viver.


Está triste e desconfortável, e isso acaba por ser notado por algumas raparigas que falam sobre ela e riem da sua figura.


Na festa, uma dessas raparigas aproxima-se dela, aconselhando-a a não se olhar num determinado espelho. Mais tarde, Lúcia conhece um rapaz que a convida para dançar, mas os elogios que ele lhe faz, não chegam a ser suficientes para apagar o momento em que um dos seus sapatos lhe cai do pé. A vergonha é tanta que ela continua a dançar sem sequer dizer que o sapato é seu.


Perdida na sua dor e tristeza, ela começa a recordar as palavras da madrinha que a tinha convidado para sua casa, onde talvez viesse a ter uma vida um pouco mais desafogada. Cresce e casa-se com um homem rico. Passados vários anos, Lúcia acaba por regressar àquela mesma casa onde, anos antes, a festa tinha acontecido e onde ela se sentira tão triste, envergonhada e exposta.Desta vez, no entanto, ela aparece com um belo vestido de gala, uma postura tranquila e um par de sapatos forrados a diamantes que causam inveja a todos os que a admiram.


Feliz, Lúcia volta a entrar na sala onde anos antes se tinha sentido mal ao olhar para os espelhos que forravam as paredes. Só que desta vez, em lugar de refletirem a sua imagem real e atual, surge a sua imagem juvenil, com o mesmo vestido lilás de há anos antes. Naquele momento, um homem entra e pede-lhe um dos seus sapatos de diamantes, oferendo-lhe em troca o velho "sapato de farrapos" que, anos antes, ela tinha perdido na festa.


Num final triste, mas que é caraterística dos antigos contos de fadas (os reais, não os da Disney), Lúcia é então encontrada morta na varanda, na manhã seguinte. Num pé, tem um sapato de diamantes e, no outro, um velho sapato de "aspeto miserável, roto e coberto de manchas esbranquiçadas de bolor!"


Aconselho a leitura deste e de outros contos de Sophia de Melo Breyner e, claro a pesquisarem mais sobre os contos de fadas, como estes evoluíram e chegaram aos nossos dias, adaptando-se à realidade cultural dos locais e épocas por onde foram passando.


Fontes:


https://www.culturagenial.com/cinderela/


 

sábado, 11 de maio de 2024

"Civilização"

Escrito por Eça de Queirós e recontado por Luísa Ducla Soares, este pequeno conto fala-nos do aborrecido Jacinto que, apesar de viver rodeado de todos os luxos e modernidades que existem, não é feliz. Jacinto é um homen culto, mas vive muito entediado. Até que resolve passar uma temporada longe da civilização, num velho solar em Torges. Para a viagem, manda todas as suas comodidades e modernidades, mas nada chega ao seu destino, pois os seus bens acabam por se perder. Em vez dos vários talheres a que está acostumado tem um garfo de ferro, em vez dos copos limpos e coloridos que adornavam a sua vasta mesa, Jacinto tem agora um copo velho e manchado de vinho. Mas afinal, até gosta da comida e até o vinho é do seu agrado.


Jacinto, nas palavras do narrador que como se nota em toda a narrativa, o acompanha nesta sua ida, fica muito desmoralizado. No entanto, como refere então o narrador na visita que lhe faz tempos depois, acaba por se render à beleza e à simplicidade da vida do campo, que acabam por transformá-lo. O solar, foi agora arranjado com alguns elementos mais citadinos, como a colocação de novas janelas, mas não perdeu a sua beleza rústica.


Este conto foi publicado, primeiramente, "pelo jornal de Notícias do Rio de Janeiro, em 1892, e serviu como base para a posterior redação do romance A Cidade e as Serras em que Eça de Queirós começaria a trabalhar em 1893 e que receberia versão final apenas em 1901, após a morte do escritor."


Fontes:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_(conto)


 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

"O gato que salvava livros"

Este é um gato muito especial, que aparece numa pequena loja de livros antigos (a Livros Natsuki), cuidada por um jovem adolescente, que vê a sua vida alterada, depois da perda do avô com quem vivia. Enigmático e divertido, o gato irá levar o rapaz a usar a sua argúcia e sabedoria para debater temas importantes com as mais excentricas personalidades.


Bertrand.pt - O Gato que Salvava Livros


A abertura da parede final da loja permite a passagem para um novo mundo, que pode ser entendido como um mundo interior, ou como uma passagem para uma outra dimensão. Rintaro, terá a ajuda da sua amiga e delegada de turma, que nutre por ele uma paixão juvenil.


O autor nipónico, Sosuke Natsukawa, consegue transportar-nos através da magia das palavras, tocando em assuntos sensíveis, como o luto, enquanto nos conduz numa viagem para salvar os livros. Ao longo desta história, vão sendo também chamados ao foco principal grandes autores e as suas obras.


Um livro que recomendo para todos e que se encontra no Plano Nacional de Leitura.




 



 

domingo, 5 de maio de 2024

Dia Mundial da Lingua Portuguesa

O Dia da Língua Portuguesa é assinalado pela CPLP desde 5 de Maio de 2010 e desde 2019 que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) proclamou esta data como Dia Mundial da Língua Portuguesa. A data é assinalada em vários pontos do globo.


A CPLP, como organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica, promove junto das suas comunidades diversas atividades de leitura, declamação de poesia, apresentação de livros, entre outras.


Dia Mundial da Língua Portuguesa 2024 - Camões - Instituto da Cooperação e  da Língua


"A língua portuguesa é não só uma das línguas mais difundidas no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, como é também a língua mais falada no hemisfério sul. O português continua a ser, hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, destinada a aumentar."


Fontes:


https://nuoi.missaoportugal.mne.gov.pt/pt/a-miss%C3%A3o/noticias/dia-mundial-da-l%C3%ADngua-portuguesa-unesco


https://www.instituto-camoes.pt/sobre/comunicacao/noticias/dia-mundial-da-lingua-portuguesa-2024


 

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...