quinta-feira, 25 de julho de 2024

"A Descoberta da América pelos Turcos"

Jorge Amado escreveu este romance em 1992 (em palavras do próprio "romancinho") para responder a uma solicitação de uma empresa italiana para assinalar os quinhentos anos da "descobrimento da América." A ideia inicial era criar um livro com três romances escritos por três autores originários do continente americano (um de língua inglesa, um de língua espanhola e outro de língua portuguesa). O projeto não se chegou a concretizar mas Jorge Amado, com a sua parte pronta, acaba por avançar com a publicação em francês e, no ano seguinte, em turco. Só em 1994 saiu a primeira edição brasileira desta obra.


O romance escrito de uma forma divertida mas também acutilante, conta uma sequência de episódios que acontecem numa pequena comunidade em que diversas culturas e crenças se misturam e convivem. As personagens, um pouco caricaturantes, representam os "turcos" (como eram chamadas as pessoas que descendiam dos primeiros árabes a vir trabalhar da "civilização do cacau").


Entre as personagens, temos entre outros, um libanês, Raduan Murad, um sírio, Jamil Bichara - que chegaram no mesmo barco à Baía em 1903 - e o muçulmano, Raduan. O enredo, conta a história de um casamento arranjado. Ibrahim Jafet, viúvo e pai de três mulheres (Samira, Jamile e Fárida), quer casar uma das suas filhas. Mas Adma é, além de muito pouco atraente, uma mulher severa. Àquele que desposar a sua filha, Jafet oferece sociedade no "Barateiro", a loja familiar que começa a perder clientes por má gestão e pelo pouco interesse demonstrado pelo próprio depois da morte da mulher (mãe das suas filhas, que era, afinal, quem punha "ordem na casa").


Para mim, foi um livro divertido e que se lê muito rapidamente, mas que nem por isso deixa de conter assuntos profundos. De certa forma, o autor "brinca" com a chamada descoberta (de um continente e dos seus habitantes que já existiam) transpondo para o início do século XX essa mesma "descoberta" e referindo-se à influência das outras culturas na comunidade local.

sábado, 13 de julho de 2024

Poesia para não esquecer quem se ama

Esta pode ser uma data que a vós não diga nada. Mas para mim é especial. Escrito por mim... para a lembrar, como se fosse possível um dia esquecê-la.


 



Grito ao destino


 


Em ti não acredito, destino frio que levaste


No momento em que deixaste


Os meus braços sem te abraçar.


 


Foste tu que me disseste,


que ao mundo me trouxeste


Mas depois sem ti me deixaste,


Quando de ti precisei


Por ti bem alto gritei


Mas não estavas, me abandonaste.


 


Cobro ao destino e à vida


A tua precoce saída,


O abandono deste lar.


 


Lutaste, eu sei, sou sincera


Mas se o teu destino era,


A mim cá me deixar


Largaste-me sem esperança


Construí a recordar


Toda a vida, insatisfeita,


Voltar? Sei que não vinhas,


Mas não queria de mim lembrança


De ser menos que perfeita.



Elsa Filipe, julho de 2024

quinta-feira, 11 de julho de 2024

"A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água"

Apesar de já ter ouvido falar do escritor e de conhecer alguns excertos da sua obra, confesso que este foi o primeiro livro de Jorge Amado que li na totalidade. A obra, considerada como um clássico da literatura brasileira, foi publicada pela primeira vez em 1959, mas é a versão revista pela filha do escritor que chega até mim. 


Neste livro, é contada a história de Joaquim Soares da Cunha, um respeitável cidadão, funcionário público, com uma vida tranquila, casado e com filhos, que um determinado dia resolve mudar de vida. Sai de casa e abandona a família, passando a viver como um vagabundo, entregando-se à bebida. Acaba por receber a alcunha de Quincas Berro D'água.


Um dia, uma amiga a quem ele tinha prometido umas ervas, passa pelo seu quarto para as ir buscar e encontra Quincas já sem vida. Depois de confirmada a morte, os seus familiares resolvem fazer um velório com o mínimo de dignidade mas sem gastar muito e, durante algumas horas tentam esquecer o passado vergonhoso do familiar defunto. De acordo com a família, ao morrer, Quincas deixara de ser um vagabundo e voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família e um funcionário exemplar. No entanto, são surpreendidos por um curioso grupo que entra para velar o morto e que se dizem amigos de Quincas. Estranhamente, o morto apresenta um insondável sorriso e, quando se vêem a sós com ele, tamanha é a bebedeira que o tomam como ainda estando vivo. O grupo, despe a fatiota ao morto e volta a vestir-lhe os andrajosos trajes que usava à data da morte e leva-o a passear pelas ruas, festejando o seu aniversário. A certa altura, entre tantas boas ideias, decidem usar um barco para dar um passeio, levando o defundo com eles para bordo. Mas a noite piora e uma tempestade atinge a embarcação, acabando por lançar o corpo borda fora, dando a Quincas a sua "segunda" morte, mas desta vez, como ele desejava - a navegar.


Um livro engraçado, quase caricaturizando a sociedade da Baía, que nos aponta as diferenças entre duas classes sociais que de certa forma se opõem, em que uma vive de aparências, subjugando-se à opinião dos outros, em oposição a outra que vive do momento e da amizade verdadeira, sem se importar tanto com as consequências das suas ações nem do que quer que os outros vão pensar. 


Tenho outras obras do autor à espera de leitura. Jorge Amado nasceu e cresceu no Brasil, tendo deixado uma grande obra literária.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

"Sob um céu de Mármore Branco"

Neste livro de John Shors encontramos um Hindustão imperial, subjugado a duros valores e regras cruéis. Shah Jahan, imperador do Hindustão, perde em 1862 a sua amada esposa, Mumtaz Mahal. Consumido pela intensa dor que a partida do seu braço direito lhe provoca, ordena a edificação de um grande mausoléu que simbolizasse a grandeza do amor entre os dois e a beleza da sua mulher. 


Uma das suas filhas, a princesa Jahanara, conta na posteridade às suas netas a extraordinária história da edificação do Taj Mahal, descrevendo como foi a sua própria vida, contando as peripécias que teve de enfrentar e de como se apaixonou pelo responsável pela construção do Taj Mahal, apesar de ter casado com um homem que lhe foi imposto. Jahanara, não sendo pretendente ao trono, vê-se no meio da tentativa de Aurangzeb, seu irmão, de chegar ao trono. Aurangzeb é um homem cruel e que usa como principal arma o terror, mandando matar todos os que se coloquem no seu caminho.


Para sobreviver mas, principalmente para ajudar o pai e um dos irmãos, Jahanara tem de fazer, ao longo da sua vida, escolhas praticamente impossíveis e é através delas que descobre o verdadeiro significado de ser filha de quem é.


Neste livro, é contada a verdade secreta por trás do grandioso Taj Mahal. O monumento, fica situado em Agra, na Índia foi considerado em 1993, património Mundial da Humanidade pela Unesco e, desde 2007, é também considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Sobreviveu aos tempos e a várias guerras, mas está agora ameaçado pela poluição. Tal como contado no livro de Shors, a edificação deste monumento junto ao rio Yamuna, em Agra, aconteceu "entre 1632 e 1653 com a força de cerca de 20 mil homens, trazidos de várias cidades do Oriente." Numa época em que a guerra era uma constante diária, Shah Jahan manda erguer este mausoléu em honra da sua "esposa favorita, Aryumand Banu Begam, a quem chamava de Mumtaz Mahal" - que significa "A joia do palácio" e que morreu no parto do seu 14º filho. (Na época, era normal que o Imperador tivesse várias mulheres e que estas se relacionassem e convivessem umas com as outras).


É um livro que, apesar de se basear numa lenda, caba por trazer até nós, a dura realidade de uma sociedade cruel, em que toda uma família pode ser morta se um dos seus membros cometer um crime, em que se recorre a castigos corporais implacáveis e em que a mulher deve ser submissa, mas onde apesar de todas as dificuldades, o verdadeiro amor pode acontecer. Mesmo sabendo que Jahanara sobrevive - uma vez que é ela mesma a contar a sua história - são vários os desenlaces surpreendentes.


Fontes:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Taj_Mahal


 

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