sábado, 23 de novembro de 2024

"O comboio dos órfãos"

Duas histórias de vida... e tanto em comum entre duas mulheres de gerações diferentes. 


Vivian era Niahm, uma pequena emigrante irlandesa de 9 anos que em 1929 foi parar a Nova Iorque com a sua família. Tinha um lar onde, apesar de toda a pobreza, vivia com a sua família. Mas um devastador incêndio destrói tudo o que conhece e deixa-a sozinha no mundo. Niahm passa a ser apenas mais uma entre as centenas de crianças abandonadas em Nova Iorque e que acabam forçadas a embarcar no "Comboio dos Órfãos," um comboio que transporte crianças de cidade em cidade para que sejam adotadas. As que o são, passam a ter uma casa onde morar, mas são muitas vezes vítimas de trabalhos forçados e de escravatura, passam fome, frio e são maltratadas fisica e psicologicamente. Foi nesta situação que Niahm passou a maior parte da sua infância e juventude, tornando-se Dorothy e, mais tarde Vivian.


Molly Ayer é uma jovem que vive revoltada, inserida num sistema que não a consegue ajudar a integrar-se numa família que verdadeiramente a ame e a acolha, conhecendo apenas a rejeição das famílias de acolhimento por onde passa. Os livros são para ela um escape e numa atitude impensada, acaba por roubar um livro de uma biblioteca o que a leva a uma complicada situação, da qual sabe que ninguém a defenderá. Mas talvez esse erro lhe venha a abrir uma nova porta e a sua vida esteja prestes a mudar. Castigada com cinquenta horas de trabalho comunitário, Molly acaba por ir para a casa de Vivian, uma idosa que precisa libertar-se dos seus fantasmas e das lembranças que a assombram, uma tarefa na qual a Molly irá ter um papel preponderante.


Posso-vos dizer que foi um dos melhores livros que li até agora e recomendo a que o leiam. Além da maravilhosa história de amizade entre duas mulheres que poderiam ser avó e neta, é sem dúvida um livro que nos leva até uma época em que tantos procuraram o sonho americano e acabaram por fracassar. Para quem gosta de romances históricos, neste encontramos relatos adaptados de acontecimentos entre os finais do século XIX e meados do século XX, incluindo o envolvimento dos EUA na 2ª Guerra Mundial. É excelente a forma como a autora interliga duas realidades tão diferentes e de épocas tão distantes.


No final do livro encontramos também alguns esclarecimentos sobre a Associação que na época era responsável por estas crianças e por estas adoções, a Children Aid (a qual foi fundada em 1853 por Charles Loring Brace). O último comboio terá feito a sua derradeira viagem carregado de crianças para adoção em 1929.

sábado, 16 de novembro de 2024

"A fuga de Auschwitz"

Este livro foi escrito por Joel C. Rosenberg e conta a forma como um grupo de prisioneiros organizou e pôs em prática uma das mais importantes fugas aos horrores de Auschwitz. A história é inspirada em relatos reais de presos e deportados e nas histórias dos poucos que conseguiram escapar a este genocídio. Talvez por eu gostar de saber o como e o porquê de determinados momentos da história, este livro me tenha desde logo agarrado às primeiras páginas.


Começamos por conhecer as principais personagens e a forma como cada uma delas acabou dentro destes campos de extermínio e ficamos logo a perceber que não foram apenas judeus a ir parar a estes campos, embora estes fossem de facto a grande maioria. Um plano para deter um dos comboios que transporta prisioneiros para Auschwitz acaba por correr mal, mas é dentro dos campos que se tornaa realmente visível a chocante realidade. 


Este livro permite-nos entrar (tal como aconteceu na "Bibliotecária de Auschwitz") nos horrores escondidos por trás dos muros dos campos de concentração, e compreender como é que aqueles homens e mulheres se empenhavam numa luta desigual para sobreviver. Mostra-nos a coragem daqueles que tentaram escapar aos nazis e denunciar aquilo que se passava nos campos de concentração e que estava escondido dos olhos do mundo.


Foram precisas várias tentativas e muitas provas para que finalmente alguém abrisse os olhos e compreendesse que aqueles não eram apenas campos de trabalho e que milhares estavam a ser mortos de forma brutal e indiscriminada. Um livro que aconselho a quem gosta de ler sobre este tema, mas também a quem se encontre a estudar a 2ª Guerra Mundial e o Genocídio. Um choque brutal de realidade e de certeza de que não podemos deixar que nada que se pareça mesmo que de longe com isto, se venha um dia a repetir.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

"A Bibliotecária de Auschwitz"

Procurei este livro por me ter sido recomendado num grupo de leitura e a verdade é que me surpreendeu pela positiva, superando as minhas expetativas. Auschwitz foi um dos campos que a Alemanha nazi construiu entre 1933 e 1945. Estas construções tinham várias finalidades, desde a detenção à escravatura. Mas o que se acabaram por revelar, foram campos para o extermínio em massa. Milhares e milhares de pessoas morreram nestes campos. 


Este livro conta-nos a história de uma das milhares de meninas cuja infância foi interrompida e que se viram presas num lugar imundo, sem nenhumas condições de saúde, habitabilidade ou salubridade, a passar fome e a ver os que a rodeiam morrer. No meio da desgraça em que a sua vida se tornou, esta menina cresce e torna-se uma jovem que, apesar de todo o mal que a rodeia, mantém o seu foco nos outros em especial na sua família que, como ela, estão presos em Auschwitz.


No meio da desgraça e da lama imunda deste lugar, um homem conseguiu erguer algo que se assemelha a uma escola e que dá às crianças alguma distração e esperança, lhes permite continuar a seguir uma rotina mais parecida com o normal. Naquele lugar podem aprender e podem ouvir histórias contadas por "livros vivos". Mas são os livros verdadeiros, com páginas rasgadas e muito manuseados que vão devolver a esperança a Edita. Livros esses que devem ser escondidos, pois a sua presença não é permitida pelos nazis, mas também protegidos, pois naquele lugar são um tesouro raro. A jovem e corajosa Edita esconde debaixo do seu vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu.


Este livro mostra-nos que até no meio da maior desgraça que terá um dia acontecido à humanidade, esta mesma humanidade pode continuar a existir enquanto houverem pessoas corajosas como estes professores, como Edita e como tantos outros que, de uma forma ou de outra reagiram. Os livros, objetos proibidos, podiam ser a sua morte, mas morreriam mais depressa se deixassem que a desumanidade daquele lugar os impedisse de ser quem eram - mesmo que esse fosse o objetivo principal do campo, a sua anulação como pessoas.

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...