terça-feira, 21 de janeiro de 2025

"D. Teresa - Uma Mulher que Não Abriu Mão do Poder"

Posso começar por dizer que esta é uma das escritoras de que eu mais gosto. A forma como escreve prende desde a priemira página e, por muito grande que o livro seja, não me canso, pelo contrário.


Isabel Stilwell tem uma coleção fantástica de romances históricos e este é o de D. Teresa, mãe de Afonso Henriques. Nas aulas de história, aprendemos apenas que houve quezílias entre mãe e filho, mas este livro conta-nos a história de uma mulher de armas, com a qual acabamos por simpatizar e, não apenas, aquela mãe que se opôs ao filho. D. Teresa é filha do casamento entre Ximena Moniz do Bierzo, de quem herdou os olhos verdes e a astúcia, e de Afonso VI de Leão e Castela. Teresa é uma menina feliz que vive com a mãe e com a irmã, na localidade de Bierzo, mas as duas irmãs são levadas pelo pai, Afonso VI, para o reino de Leão onde passariam a ser educadas por um tia, Urraca que, com firmeza, as tenta preparar para o futuro que as espera.


Além da sua irmã, com quem vivia no Bierzo, Teresa tem ainda uma meia-irmã, também ela de nome Urraca. As duas têm uma relação conturbada desde sempre - uma legítima, a outra não - mas ambas se respeitam. Como era comum naquela época, os casamentos arranjados irão ditar que Teresa case ainda muito nova com o Conde D. Henrique de Borgonha, um nobre francês.


"D. Teresa viveu os primeiros anos do seu casamento em Toledo, mudando-se mais tarde para o Condado Portucalense, território que D. Afonso VI havia doado a título hereditário ao casal, que se estabelece em Guimarães."


Aos 25 anos, a jovem fica viúva, mas não deixa que isso a aflija e continua a governar o que lhe pertence com pulso de ferro, lutando para conseguir a "independência e alargamento do território portucalense."  Em documentos datados de 1116, o Papa Pascoal II reconhece-a como Rainha.


Mulher inteligente, ambiciosa e de grande tenacidade toma sem dificuldade a regência do Condado aquando da morte de seu marido, adotando, desde 1117 o título Regina (rainha) assumindo uma soberania inesperada, facto que origina uma relação problemática com D. Afonso VII, rei de Leão e Castela. Apaixona-se por D. Fernão Peres de Trava, um homem casado que abandona a mulher para a ela se juntar, contra a vontade de muitos nobres e do seu próprio filho. "Esta relação dava uma relativa supremacia às políticas de alianças galaico-portucalenses suscitando algum desconforto naqueles que defendiam uma política de efetiva independência face a Leão e Castela."


Confronta a meia-irmã e rival, Rainha Urraca de Castela, o pai, a igreja Católica, os nobres portucalenses e até mesmo o seu próprio filho D. Afonso Henriques, contra quem acaba por lutar na Batalha de São Mamede, pelo governo do Condado Portucalense. Acaba por ter de fugir, derrotada e traída, refugiando-se "na Galiza, onde viria a falecer em 1130 com cerca de 50 anos."


Da infância, mantém a amizade com Alberto. Um escudeiro, que se tornaria monge e escreveria, com verdade, a sua história. Teresa foi desde sempre ostracizada pela nossa história e Isabel Stilwell vem trazer-nos uma nova visão sobre o papel e a luta desta grande mulher, com quem acabei por simpatizar. Neste livro, acabamos por nos embrenhar nas traições e nos acordos que, afinal, foram responsáveis pela Independência do Condado Portucalense e pela constituição de Portugal como país, no século XII. Se concordamos com o que foi feito, não é isso que aqui está em causa...


Fontes:


https://pacodosduques.gov.pt/monumentos/castelo-de-guimaraes/historia/teresa-de-leao/


 

domingo, 12 de janeiro de 2025

"Um homem sem passado"

"Um homem sem passado" foi escrito por Peter May, escocês e ligado durante muitos anos à arte do guionismo e da produção. 


Peter May conta-nos a história de um ex-polícia, Fin Macleod, que regressa à ilha onde nasceu, deixando para trás tudo o que o ligava a Edinburgo. Fin começa a restaurar a antiga quinta dos pais, agora abandonada, enquanto se vai reencontrando com as suas antigas amizades, incluindo Marsaili, a grande paixão de Fin durante a juventude.


Quando um corpo é encontrado por entre a turfa da ilha de Lewis, começa o grande mistério. De quem será aquele cadáver que se encontrava bem conservado e que os investigadores vêm depois a descobrir, apresenta hediondos golpes de esfaqueamento e uma tatuagem de Elvis no seu braço direito?


Os testes de ADN vêm adensar o mistério, uma vez que são descobertos laços de sangue entre o corpo e um dos habitantes da ilha: Tornodo MacDonald, o pai de Marsaili. Tormod é um homem atormentado que tem vindo a perder a memória devido a uma doença degenerativa. A mulher já não o aguenta em casa e expulsa-o, obrigando Marsaili a colocar o pai num lar. Tormod Macdonald, que é agora um homem idoso preso nas garras da demência, sempre afirmou ser filho único, sem qualquer familiar próximo.


Fin é um homem atormentado pela dúvida sobre quem lhe atropelou mortalmente o filho, carregando ainda consigo, o resultado da sua própria falta de habilidade na relação com Marsaili, a sua grande paixão, de quem tem um filho.


Uma história repleta de mentiras e reviravoltas que nos dá a conhecer uma ilha, pequena, mas que de pacata, afinal, pouco tem. É um livro interessante que trás com ele várias questões pelas quais as personagens nos vão levando através das suas memórias, as que se lembram e as que lhes contam num entrançado complexo.


 


 

sábado, 4 de janeiro de 2025

Eça de Queiroz a caminho do Panteão Nacional

A Fundação Eça de Queiróz despede-se durante este fim de semana do escritor que se inspirou na idílica Casa de Tormes, em Santa Cruz do Douro, concelho de Baião. Amanhã, "dia 5 de janeiro, a urna contendo os restos mortais de Eça de Queiroz estará em câmara-ardente no átrio principal da Casa de Tormes, perto dos objetos que o rodearam em vida, como a secretária onde escrevia e os livros da sua biblioteca." 


Os restos mortais de Eça de Queiroz vão ser trasladados para o Panteão Nacional na quarta-feira, por decisão tomada no Parlamento" em janeiro de 2021 quando, por unanimidade, foi aprovado "um projeto de resolução do PS para conceder honras de Panteão Nacional aos restos mortais de José Maria Eça de Queiroz, em reconhecimento e homenagem pela obra literária ímpar e determinante na história da literatura portuguesa”. Teve entretanto de ser resolvida uma "contenda judicial com os familiares do escritor que se opunham a esta possibilidade." Depois do processo ir até ao Supremo Tribunal Administrativo, 13 dos "22 bisnetos do escritor," aceitaram "a trasladação para o Panteão Nacional, havendo ainda três abstenções. Também a Fundação Eça de Queiroz se manifestou favorável à trasladação."


"José Maria de Eça de Queiroz nasceu a 25 de novembro de 1845 na Póvoa de Varzim, distrito do Porto, e "foi autor de contos e romances." A sua vida foi bastante conturbada. Ao que se sabe, José Maria, nasceu "no centro da cidade, em casa de um parente da sua mãe, Francisco Augusto Pereira Soromenho," que era "funcionário aduaneiro da Póvoa de Varzim." Uma vez que "os seus pais não serem então casados (considerado indecente naquela época e naquela classe social), este parente" conseguiu que o pequeno fosse batizado "na Igreja Matriz de Vila do Conde, em vez da matriz local, muito próxima da casa, e fosse ocultado o nome da mãe, por instrução do pai Teixeira de Queiroz," nascido no Brasil em 1820.


Porventura devido ao seu comportamento pouco obediente, José Maria acabaria por ser "entregue a uma ama, aos cuidados de quem ficou até passar para a casa de Verdemilho em Aradas, Aveiro, a casa da sua avó paterna. Nessa altura, foi internado no Colégio da Lapa, no Porto, de onde saiu em 1861, com dezasseis anos, para a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito." Foi nesta universidade que conheceu figuras importantes "como Antero de Quental e Teófilo Braga," com os quais viria a integrar a famosa "Geração de 70”.


Em 1866, Eça "licenciou-se em Direito e iniciou uma breve carreira como advogado, mas foi no jornalismo e na literatura que encontrou a sua verdadeira vocação." Os seus primeiros trabalhos foram publicados na revista "Gazeta de Portugal" e, mais tarde, agrupados num livro que seria "publicado postumamente com o título Prosas Bárbaras."


Junto com "Ramalho Ortigão, colaborou em O Mistério da Estrada de Sintra e em As Farpas, criticando a sociedade da época com ironia e acutilância." 


Eça de Queirós foi "director do periódico O Distrito de Évora e colaborou em publicações periódicas como a Renascença (1878-1879?), A Imprensa (1885–1891), Ribaltas e gambiarras (1881) e postumamente na Revista de turismo, iniciada em 1916, e na Feira da Ladra (1929-1943). Porém, continuaria a colaborar esporadicamente em jornais e revistas ocasionalmente durante toda a vida. Mais tarde fundaria a Revista de Portugal."


Santa Cruz do Douro, viria a ser o "cenário" inspirador para um dos seus mais conhecidos romances “A Cidade e as Serras”, que tal como A Relíquia (1887) e A Ilustre Casa de Ramires, só seria publicado postumamente. Mas a sua obra literária é muito vasta. Destaque-se "O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878) e Os Maias (1888), onde expôs com crueza os vícios e hipocrisias da sociedade portuguesa." Escreveu também Correspondência de Fradique Mendes e A Capital, obra cuja elaboração foi concluída pelo filho e publicada, postumamente, em 1925. Fradique Mendes, aventureiro fictício imaginado por Eça e Ramalho Ortigão, aparece também no Mistério da Estrada de Sintra."


Em 1870, Eça "ingressou na Administração Pública, sendo nomeado administrador do concelho de Leiria." Seria depois cônsul de Portugal em "Havana, Newcastle, Bristol e, finalmente, em Paris."


Casou com com "Emília de Castro" em 1886 e teve quatro filhos. Faleceu em Paris, "a 16 de agosto de 1900." O seu corpo foi trazido para Lisboa, onde foi sepultado, mas, em 1989, "os seus restos mortais foram transportados do Cemitério do Alto de São João, na capital, para um jazigo de família, no cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião."


No Panteão Nacional, para onde seguirão na próxima quarta-feira os restos mortais de Eça de Queirós, encontram-se já "algumas das mais importantes personalidades da história e cultura portuguesa de todos os tempos." No seu interior, podem ser visitados "os Presidentes da República Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, os escritores Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus, a artista Amália Rodrigues, o Marechal Humberto Delgado e Aristides de Sousa Mendes."


Para quem quer ler ou reler algumas das obras queirosianas, dois links que podem visitar e onde as podem encontrar em PDF ou EPUB:


https://aeaveiro.pt/biblioteca/index.php?page=3&id=4


https://esqm.pt/index.php?pg=3&spg=30&sspg=80&id=207


 


Fontes:


https://jornal-renovacao.pt/2025/01/fundacao-eca-queiroz-homenageia-escritor-da-trasladacao-panteao-nacional/


https://feq.pt/eca-de-queiroz/vida-e-obra/


https://www.panteaonacional.gov.pt/171-2/personalidades-2/


https://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queiroz

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

"A Filha desaparecida"

Acabei de o ler ontem ao fim da tarde, depois de um chocolate quente, numa esplanada na baía do Seixal. E quando o terminava, pensava que, realmente aquilo que queremos ver nem sempre é o que está mesmo à frente dos nossos olhos. Mais do que uma história de desaparecimento, este livro conta-nos a história de uma mulher que, além do seu trabalho é também mãe de três adolescentes. Uma rapariga, boa aluna, bem comportada e educada, que além da escola participa num grupo de teatro. E dois rapazes, gémeos.


Mas como esta mãe irá descobrir, os seus meninos são muito diferentes do que ela imagina. Estão a caminho da idade adulta, têm os seus próprios gostos, os seus objetivos pessoais, os seus próprios problemas, a sua vida. E nem sempre uma mãe é capaz de acompanhar estas mudanças. Quando a filha, Naomi, não regressa a casa depois da última atuação da peça de teatro em que participava, Jenny fica preocupada e zangada. 


O pai, neurocirurgião, também esconde os seus segredos, mas em ambos os casos, é naquilo que está mesmo diante dos seus olhos e que ambos escolhem, de certa forma, ignorar, que estão os sinais que os vão levar a descobrir o que se passou realmente com a sua menina.


Não vos dou mais pormenores, mas acreditem que valerá a pena a leitura. Não espreitem o final, por favor, é nas últimas palavras que se revela a verdade - ou, pelo menos, parte dela. Este livro é da escritora Jane Shemilt, a qual ainda não conhecia. Gostei imenso da sua forma de escrever e de entrelaçar o enredo, fazendo-nos sempre desdejar seguir para o próximo capítulo, quando vemos que o presente está a terminar. Ficamos com água na boca.


Agora, nova visita à biblioteca, a primeira do ano, à procura das próximas leituras. Sugestões?

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Revéillon ou passagem de ano, o que importa é que nos traga muita paz e saúde!

Um ano muito feliz a todos vós!

Sabem de onde vem o termo "Revéillon" que usamos para nos referirmos à noite de passagem de ano?

Na França, no século XVII, o termo réveillon era usado para designar as festas da nobreza, que tinham como caraterística durar a noite inteira.

A palavra "tem origem no termo réveiller, ou seja, "acordar", "deixar de dormir", que por sua vez vem do verbo latino velare, "fazer vigília", de vigilare, "velar, cuidar, não dormir".

Como outras palavras que fomos adotando, aqui em Portugal, o termo acabou por ficar popular,servindo para fazer referência à grande noite de festa em que celebramos a mudança de ano.

No Brasil, o uso deste termo vem do tempo de D. Pedro II, para identificar eventos populares entre os nobres do século XVII, grandes festas que duravam até ao nascer do dia seguinte, "como jantares e coquetéis — que costumavam acontecer na véspera de datas importantes."


Atualmente, as festividades são repletas de rituais simbólicos, onde as pessoas se vestem de branco que significa paz e pureza, ou usam peças de roupa interior de diferentes cores de acordo com aquilo que desejam. Algumas celebram com a família à volta de uma mesa farta, outras vão para a rua e assistem a concertos - na maioria das vezes oferecidos pelas autarquias e a que se seguem na maioria dos casos grandes espetáculos de fogos de artifício. Para que uns festejem outros continuarão inevitavelmente a trabalhar noite dentro.


De entre os meus desejos pessoais para este ano, vem, inevitavelmente, saúde para que possa continuar a trabalhar e que isso me ajude a melhorar a minha vida e a do meu filho. Penso que é um desejo igual ao de muita gente. Não quero pedir muito mais, o resto são apenas objetivos que vão depender principalmente de mim. A vida só nos dá aquilo que nós ajudamos a construir e pelo qual lutamos.


Feliz Ano de2025!
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9spera_de_ano-novo
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/12/06/reveillon-ou-ano-novo-entenda-a-diferenca-e-o-que-significa-a-palavra-de-origem-francesa.ghtml

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