Depois de ter lido "Segredos de Amor e Sangue" resolvi continuar pelas obras de Francisco Moita Flores, desta vez com "Os Cães de Salazar," um livro que retrata o Portugal da década de trinta do século XX e, em que nos é relatado através de diferentes pontos de vista o atentado cometido contra Salazar.
A 4 de julho de 1937, um grupo de homens faz explodir uma bomba na Avenida Barbosa du Bocage, com o objetivo de assassinar Salazar que, tal como noutros domingos, ali chegava no seu Buick para ir à missa. Mas o ato de rebelião corre mal, a bomba deixa uma cratera no chão e uma grande nuvem de pó. Um dos perpretadores acaba por se ferir, mas todos conseguem então fugir. Só que a lei, naquela época, não se coíbe de prender inocentes nem de os torturar para obter confissões. É neste contexto que um grupo de homens, provenientes das classes mais baixas e vindos do Alto do Pina, acaba por ser detido. As confissões vão sendo arrancadas à laia de pancada e de tortura.
"Suspeitando de militantes comunistas apoiados pelo próprio Partido Comunista Português e financiados pelo Komintern, segue-se a prisão de dezenas de indivíduos e a apressada conclusão do caso. Porém, entre felicitações dos chefes de estado de outros regimes autoritários europeus e os níveis de prestígio e respeito nunca antes atingidos pela polícia política, nasce a dúvida sobre a forma como a PVDE desenvolveu o seu caso e se aqueles que foram detidos são os verdadeiros culpados do atentado." Salazar, que não interfere diretamente no caso, é fonte de admiração dos seus seguidores, que fazem de tudo para agradar ao Presidente do Conselho e, claro, fonte de revolta e de desprezo escondido, da parte daqueles que sofrem na pele a opressão de uma Ditadura.
Este é mais um romance, baseado em factos reais e fundamentado por alguns documentos, em redor dos quais vai crescendo a intriga e se vai revestindo cada uma das personagens que fazem parte da história. Para o escrever, Francisco Moita Flores baseou-se no processo de investigação escrito pelo Director da Polícia de Investigação Criminal, o juiz Alvez Monteiro, que seia designado na época para investigar o processo criminal conduzido pela PVDE, quando se soube que os seus membros tinham acusado, falsamente, vários inocentes, de serem os responsáveis pelo atentado mesmo tendo já detidos os verdadeiros e confessos culpados.
Num livro em que surgem outras histórias em paralelo, algumas necessárias para contextualizar a vida das pessoas nesta época e a situação política em que o país se encontrava, não serão de estranhar também algumas referências à guerra civil espanhola. São várias as descrições daquilo que se passa dentro das paredes da PVDE na António Maria Cardoso. A censura é aqui também um dos pontos a que Francisco Moita Flores deita mão, mostrando-nos que este era um país onde se vivia de aparências. Um país onde nenhum membro da PVDE se suicida e em que a pedofilia, mesmo quando do conhecimento das altas patentes, não existe, porque não dá jeito que exista.
Um livro que veio mesmo na altura certa do ano e que me fez mais uma vez embrenhar pelos mais macabros e terrivéis episódios da história de um Portugal pobre, que vivia cheio de fome e que estava constantemente triste. De um povo sem direitos. Sem liberdade.
Fontes:
https://www.almedina.net/os-c-es-de-salazar-1593511350.html
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