terça-feira, 15 de abril de 2025

"Segredos de Amor e Sangue"

Da autoria de um autor português que muito admiro, "Segredos de Amor e Sangue" leva-nos numa viagem a uma Lisboa acabada de entrar num liberalismo emergente. Em pleno século XIX, as ruas da capital estavam marcadas pela pobreza e pela violência.


O narrador é "Manuel Alcanhões", um homem simples que herdou de seu pai uma taberna em Alfama. Manuel tem duas paixões: as letras e a sua Isabel. As várias classes sociais são aqui representadas através de diversas personagens. O "padre Sales" que tem como função confessar os criminosos do Limoeiro e do Aljube, antes de irem para a forca, encontra na taberna de Alcanhões um lugar em que, entre um e outro copo, pode conversar e pregar o catolicismo. Miguelista de convições, é este padre que vai ajudar Manuel Alcanhões na viagem pela aprendizagem da leitura e da escrita e que o vai introduzir na Língua Portuguesa, ajudando-o a concretizar o seu maior sonho.



"Isto só lá vai com instrução pública. A ignorância é a maior inimiga da nossa vontade."



Mas naquela taberna, tal como em muitas tabernas da Lisboa pobre do século XIX, param também fadista e bandidos, muitos deles considerados como a escória da sociedade. Um deles é "Pancada", cujo nome era na verdade Diogo Alves. Apesar de muita gente acreditar que o que se passava no Aqueduto das Águas Livres eram suicídios de gente que já não encontrava motivos para continuar a viver, Manuel Alcanhões perceber que o que ali se está a passar é a ação de um assassino que, depois de roubar as suas vítimas, as atira sem dó nem piedade, do alto do Aqueduto. O culpado é Diogo Alves, mas Manuel tem de manter as suas suspeitas em segredo, sob pena de pôr a sua vida e a da sua amada Isabel em risco. Diogo Alves vive maritalmente com "Parreirinha," de quem tem uma filha. A menina, acompanha-o muitas vezes nos crimes funcionando como isco e, acabaria por ser ela a, mais tarde, acusar o assassino descrevendo como ocorriam os crimes.


Um dia, um crime está a ser preparado mesmo à frente do seu nariz e Manuel acaba por se aperceber que a verdade pode ser salvadora e matá-lo ao mesmo tempo. O medo de morrer corre-lhe nas veias e acaba por calá-lo, o que resulta na morte de uma família, assassinada de forma brutal às mãos de alguns conhecidos seus. Entre eles estão outros bandidos da praça que respondem pelas algunhas de "Pé de Dança", "Palhares", "Enterrador" e "Beiço Rachado." Este último é, de facto, amigo e protegido de Manuel Alcanhões e, ao saber do crime que ele os restantes do grupo haviam cometido na Rua das Flores, aconselha-o a entregar-se e a denunciar os seus companheiros, tentando assim salvar o amigo da forca e, ao mesmo tempo, espiar a sua pópria culpa, por saber do que se estava a planear e nada ter dito com medo de represálias.


Outros nomes da época passam também por este livro, alguns deles, visitadores da taberna de Alcanhões: João de Deus, Joaquim António de Aguiar ou Almeida Garrett, são referidos. Neste romance de Francisco Moita Flores há um Portugal verdadeiro, um Portugal que vive um período conturbado, onde está presente a corrupção política, a criminalidade bárbara e o analfabetismo. Retrata aqui o autor uma época em que a justiça se fazia sem provas e com recurso à tortura e em que o povo trabalhador, sofria muitas vezes fome e encontrava no álcool e na vida boémia, o elixir para aguentar uma vida de luta contra os poderosos e contra bandidos, assassinos e meliantes. 



"Dia após dia, explodia um tumulto político, duques contra duques, generais contra generais, liberais contra miguelistas, padres contra maçons, cartistas contra vintistas, e pelas ruas fedorentas, atapetadas pelos excrementos de cavalos, de porcos e de galinhas, cresciam os assaltos, os assassínios, e organizavam-se quadrilhas onde se misturavam soldados e civis, numa balbúrdia tal que não se sabia onde terminava a rixa política e começava o crime."


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