Isabel Stillwell é, sem sombra de dúvida, uma das minhas escritoras favoritas, aquela cujos livros me fazem ficar horas agarrados às histórias, mesmo quando se trata de enormes romances!
Da mesma colação de "D. Teresa", que já aqui referi e que me apaixonou do princípio ao fim, li agora esta magnífica obra que nos conta a vida de Phillipa, neta de Eduardo III, uma menina que nasceu princesa e que foi dotada de uma força imensa que lhe permitiu governar um país que nem era o seu. Refletindo uma pesquisa profunda, à qual já nos habituou, Isabel Stillwell, descreve-nos a vida entre cortes, as relações atribuladas de John of Gaunt que, desejava para as suas filhas aquilo que não conseguiu para si, governar. A sua primogénita, filha de Blanche, foi Philipa. De Phillipa of Lancaster vamos conhecer ao longo do livro a sua infância, passada em Inglaterra, a corte do século XIV e as viagens que o pai faz em busca de mais prestígio, mas também um pouco do percurso das famílias envolvidas e dos laços que se foram criando, mudando os destinos de ambas as nações. Por exemplo, João de Gante, casaria depois a filha Catarina de Lencastre, filha de Constança, de Castela, com Henrique III de Castela, de forma a tentar evitar a invasão por parte deste.
Depois da morte da mãe, vítima da terrível peste negra, Philipa é criada por Katherine, a sua percetora que se torna amante de seu pai - enquanto ele se casa entretanto em segundas núpcias com Constança (herdeira do rei Pedro I de Castela), assegurando assim a aliança necessária com Castela. Katherine tem um papel preponderante na personalidade e na educação de Philipa e é a grande história de amor que se desenrola, paralelamente à da jovem princesa.
Philipa cresce com os filhos de Katherine, com os seus irmãos legítimos e com os ilegítimos, ajudando desde cedo a organizar a casa. Apaixonada por astronomia e geografia, aprende desde logo a ler cartas e mapas, além de ter sido "educada à maneira nobre e aristocrática," ou seja, de ter aprendido latim, francês, inglês e português.
Com 29 anos, Philipa deixa "para trás a sua querida Inglaterra para se casar com D. João I de Portugal," mestre de Avis, qiue precisave de reconhecimento europeu depois de ter sido proclamado rei nas cortes de Coimbra, depois de ter liderado "uma revolta contra a regente Leonor Teles, rainha viúva."
O casamento viria a ser uma aliança com Inglaterra e, no dia "11 de Fevereiro de 1387", o povo acorreu às "ruas da cidade do Porto para aclamar carinhosamente D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal." Tinha sido posto um ponto final na "crise da independência, morrera Leonor Teles, a rainha de má memória. Era tempo de celebrar e de acreditar nos novos tempos que o casal real prometia," principalmente porque ficaria ali vincada a Aliança entre Portugal e Inglaterra, contra o eixo Franco-castelhano.
Juntos tiveram 8 filhos, dos quais "Branca de Portugal (13 de julho de 1388 – 6 de março de 1389), que morreu antes de completar um ano de idade," "Afonso de Portugal (1390 – 1400), "Duarte I de Portugal (1391 – 1438), sucessor do pai no trono português, poeta e escritor," "Pedro, 1.º Duque de Coimbra (1392 – 1449), que recebeu o nome de seu avô paterno, o rei Pedro I de Portugal" e que acabou por ser considerdo como "um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo, tendo sido regente durante a menoridade do seu sobrinho, o futuro rei D. Afonso V," "Henrique, Duque de Viseu, O Navegador (1394 – 1460), que recebeu esse nome em homenagem ao bisavô, Henrique de Grosmont, ou ao tio materno, o rei Henrique IV da Inglaterra" e que terá investido "a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia," uma das grandes paixões de Philipa. Destaque-se ainda a infanta "Isabel (1397 – 1471), que se casou com Filipe III, Duque da Borgonha," "João, Infante de Portugal (1400 – 1442), condestável de Portugal," que se viria a tornar" avô de Isabel de Castela" - este nome "foi escolhido em honra de seu pai e de seu avô, João de Gante, e por último "Fernando, o Infante Santo (1402 – 1443), que morreu no cativeiro, em Fez," e cujo nome terá sido "uma homenagem ao tio paterno, o rei Fernando I de Portugal."
Ao longo da vida, D. Philipa conseguiu manter as tréguas com Castela, onde a sua intervenção junto da irmã se revelou fundamental, tendo sido responsável pela assinatura do Tratado de paz em 1411. É destacado ainda no livro, o papel de Nuno Álvares Pereira - Condestável de Portugal - no auxílio à regência do Reino.
Dez dias após a sua morte, aos 55 anos, "partiam de Lisboa 240 embarcações e um exército de 20 mil homens, entre os quais D. Duarte, o Infante D. Henrique e D. Pedro. A Praça de Ceuta caía cerca de um mês depois. D. Filipa não esperaria outra coisa dos seus filhos," que se tornariam a "Ínclita Geração" (Camões, em "Os Lusíadas"). Fernando Pessoa chamar-lhe-ia a “Princesa do Santo Graal/ Humano ventre do Império/ Madrinha de Portugal”.
Pronta para iniciar mais um grande romance, desta feita, sobre "Catarina", da mesma autora.
Fontes:
https://ensina.rtp.pt/artigo/filipa-de-lencastre-a-rainha-mae-da-inclita-geracao/
https://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=4098
https://pt.wikipedia.org/wiki/Filipa_de_Lencastre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_I_de_Portugal