sábado, 31 de janeiro de 2026

Os concursos em papel...

Estamos em pleno ano de 2026 e ainda encontramos publicitados diversos prémios literários que nos obrigam a enviar as obras impressas em folhas A4 e dentro de envelopes. Bem, se alguém quer entregar uma obra manuscrita, esta também não é aceite, mas para quem escreve no computador tem depois de gastar na impressão de três ou quatro exemplares da sua obra. Fica um pouco tosco na minha modesta opinião. A esses, mesmo que eu quisesse concorrer, muitas vezes, abstenho-me de o fazer.

Não sei se vou conseguir imprimir tudo a tempo, se tenho disponível o valor para a impressão do número de exemplares pretendido e, ainda o que me faz ter mais receio, não sei se haverá alguma intempérie, catástrofe ou greve que impeça a minha obra de chegar a tempo ao seu destino para ser lida. Dir-me-ão os mais esclarecidos que posso registar o envio. Sim, claro que o posso fazer e, sim terei sempre comigo um original que posso reenviar. Mas terei mais despesas, terei de o voltar a imprimir, não uma, mas três ou quatro vezes. Imaginem o custo do envio de uma obra de, digamos, apenas 80 páginas. São um arquivo de 240 páginas A4 para os três exemplares solicitados que têm de ser pesadas e registadas com aviso de receção. 

Felizmente, já encontramos concursos que nos pedem apenas ficheiros em PDF. Podemos bloqueá-los para não serem alterados nem copiados se quisermos e isso traz-nos alguma segurança. E a verdade é que eu até gosto de escrever tudo à mão primeiro, pois dá-me mais certezas e autoridade sobre aquilo que é meu.

Bem, mas passado o desabafo e como existem opções para todos os gostos, aqui vos deixo um link onde podem encontrar vários dos concursos e prémios atualmente a decorrer. A página nem sempre está atualizada, mas vai dando para nos mantermos informados. Existem opções de escrita em prosa e em verso, monografias históricas e até contos infantis.

Escrevam. Arrisquem.

http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/premios/PremiosaDecorrer/Paginas/PremiosaConcurso.aspx

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"Isabel de Aragão - Entre o céu e o inferno"

Acabei de ler mais um dos romances da coleção Rainhas de Portugal de Isabel Stilwell. Este, como outros romances da autora, tem uma excelente qualidade na escrita e na pesquisa que depois conduz por um romance dividido em quatro partes. Este romance leva-nos não só pela história de vida de Isabel, mas também pelas guerras que assolavam a Península, muitas vezes, opondo irmãos contra irmãos, pais contra filhos e primos contra primos.

Na primeira parte, somos levados pela infância de Isabel, nascida (provavelmente) a 11 de fevereiro de 1270. A menina vive com o avô, Jaime I, "O Conquistador", um rei austero e castigador, mas que se mostra doce e paciente para com a neta, a que a chama "a melhor Rosa de Aragão." Conta-lhe histórias - principalmente as suas aventuras e conquistas - respondendo às questões da neta, que desde logo se mostra muito curiosa. Filha de Constança (de Holenstaufen) e de Pedro III (de Aragão e Sicília), Isabel nasce ainda dentro do saco amniótico, o que à luz dos conhecimentos da época, é visto como uma proteção contra todos os males. É neta da Santa Isabel de Hungria (com quem mais tarde acaba por ser várias vezes, confundida, devido aos atos de bondade que vai tendo ao longo da sua vida).

Jaime I é um homem peculiar, rei de Aragão e de Maiorca, conde de Barcelona e rei de Valência, territórios que foi conquistando em batalhas e acordos. Escreveu uma das primeiras "autobiografias" medievais e é através dele e das suas histórias que nos é dada a contextualização histórica inicial deste romance. Fernando Sanches, meio irmão do pai de Isabel e filho bastardo de Jaime I com Blanca (de Antíllon), é mandado matar pelo próprio irmão, que o manda afogar, o que faz com que Jaime I ficasse de relações avessas com o filho. Antes, Jaime I, já havia perdido também outro filho, Afonso, mas este vítima de uma doença.

Quando Isabel nasce, o avô retira-a de casa da mãe e leva-a para a sua corte, separando-a da mãe e irmãos e criando-a até aos seis anos. Isabel fica devastada quando o avô morre, mas é nessa altura que conhece a mãe e os irmãos de quem tanto tinha ouvido falar. Só aquando da morte de Jaime I, Isabel conhece realmente a sua família, com a qual passa então a viver. Isabel admira em particular o seu irmão, também ele Jaime, como o avô. É aqui que Isabel conhece Vataça. Uma jovem que se torna sua ama e que havia sido criada na corte da mãe de Isabel. Esta princesa grega, acaba por se tornar amiga inseparável de Isabel. Apaixona-se pelo seu irmão Jaime, mas na impossibilidade de ficarem juntos, prometem amor eterno. Jaime mantém-se sempre muito próximo de Isabel, correspondendo-se frequentemente com ela (embora seja verdade a correspondência trocada, no final do livro ficamos a saber nas notas finais que esta história de amor é ficcionada).

Mas de volta ao romance... Aos nove anos, Isabel é prometida em casamento a Dinis (de Portugal), que tinha acabado de fazer dezoito anos - e que reinava há menos de um ano, depois da morte do seu pai, o rei D. Afonso III. O marido, D. Dinis, é filho bastardo de Afonso III, com  sua segunda mulher, Beatriz de Castela e não do seu primeiro casamento com Matilde de Borgonha. Dinis e Isabel casam por procuração em 1282 e irão ter dois filhos que conhecemos na segunda parte da narrativa: Constança e Afonso IV. Este casamento arranjado punha nos ombros de Isabel a responsabilidade de aplacar a discórdia entre D. Dinis e D. Afonso, o que faz com que este início de reinado não seja fácil.

Como presente de casamento, o avô Jaime havia-lhe deixado reservado um presente (confiado a Pedro Coronel, seu "velho mordomo-mor"), nada menos do que a coroa da sua "tia-bisavó Constança." Como muitas meninas daquele tempo, Isabel casaria ainda criança, sendo ensinada pelas mulheres mais velhas de que deveria ser submissa ao marido e a aceitá-lo para que dele engravidasse, "continuando o seu nome" e "assegurando a paz no reino." A 11 de fevereiro de 1282, recitou "...dou o meu corpo como legítima esposa do senhor Dinis, pela graça de Deus rei de Portugal e Algarve," ficando casada ainda antes de conhecer pessoalmente o marido.

Ao longo do romance, vão-se cruzando outras histórias que nos levam pelos outros ramos desta complexa árvore genealógica, tão bem explorada pela autora. O irmão de D. Dinis, D. Afonso casa-se com a prima de Isabel, Violante Manuel, filha de Manuel de Castela. Manuel de Castela, havia sido o culpado da seta que quase havia morto o avô de Isabel, uns anos antes. Este casamento precisaria de uma dispensa papal por haver consanguinidade, mas uma vez que o reino de Portugal estava excomungado pelo Papa, essa licença seria muito difícil de obter.

Na segunda parte, que decorre entre 1284 e 1313, decorrem dois grandes acontecimentos que irão alterar toda a história. Um é a morte de D. Pedro III em 1285. Sucede-lhe o filho Afonso, que herda Aragão, enquanto Jaime herda o reino da Sicília. No entanto, quando Jaime se dirige ao Papa para oferecer a "sua obediência", a resposta foi de excomunhão para este e para Dª Constança, sua mãe (e mãe de Isabel de Aragão), privando-os dos santos "sacramentos." Em 1285, Jaime recebe a coroa da Sicília, por morte do pai. Em 1291, o irmão mais velho de Isabel morre, pouco tempo antes de se casar com a princesa Leonor (de Inglaterra), tendo reinado apenas durante seis anos e Jaime recebe também a coroa de Aragão. Jaime II declara então como indissolúvel a união entre os reinos de Aragão, Catalunha e Valência.

O segundo acontecimento acaba mesmo por ser o casamento dos filhos de Isabel e Dinis, com os seus primos, os filhos de Maria de Molina. Constança, unir-se-á a D. Fernando de Castela e, Afonso, casará então com Beatriz de Castela, irmã de Fernando. O rei D. Dinis terá, como sempre foi apanágio, outros filhos nascidos fora do casamento. Estas crianças sempre foram acolhidas e bem tratadas pelo rei, apesar de serem bastardas. 

Constança acaba então por ficar aos cuidados da rainha de Castela, para onde vai viver acompanhada pela sua ama, Vataça. Também Beatriz, de apenas 4 anos, filha de Maria de Molina, vem para Portugal para ser criada e educada na corte portuguesa, pela rainha Isabel. Estes casamentos foram a solução encontrada para manter as boas relações entre os dois reinos. Beatriz é mais tarde apresentada ao futuro marido, Afonso IV. Além de madrinha e ama de Constança, Vataça é uma personagem fundamental, sendo alguém da confiança de Isabel de Aragão. Casaria com Martim Anes de Soverosa, de quem nunca chega a ter filhos, e de quem herda uma fortuna pela qual tem de lutar ao longo da sua vida (e como já referi anteriormente, continua a mnter-se próxima de Jaime II, descrevendo aqui a autora uma história de amor que é mais ou menos correspondida - mas que é apenas ficção).

Em setembro de 1307, Isabel é avó pela primeira vez e a menina recebe o nome de Leonor (esta Leonor, viria a ser mais tarde, a rainha de Aragão). A segunda neta de Isabel (Constança como a mãe), nasce em 1309 e viria a falecer dois anos depois, no mesmo dia em que Constança dava à luz o pequenino Afonso, ainda antes de terminado o tempo devido. Afonso de Castela, filho varão. No entanto, Fernando não obstante a felicidade do nascimento de um herdeiro, está a tornar-se cada vez mais agressivo, ao mesmo tempo que a doença começa a tomar conta do seu corpo.

Perante a eminência da morte de Fernando IV, marido de Constança, a filha destes, Leonor, acaba por ser criada em Aragão. Com a morte do pai em setembro de 1313, o pequenino Afonso, torna-se D. Afonso XI de Castela. Nesta altura, a situação no reino fica muito complicada, pois Constança acabara de ficar viúva com apenas 22 anos e a sua sogra, Maria de Molina, tenta agora mover as peças a seu favor. Vencida pela dor de perder a filha e o marido, e de a afastarem dos outros dois filhos, Constança acaba por morrer, em 1313.

Entretanto, com 18 anos, D. Afonso casa com Beatriz de Castela, com 16 anos e criada desde os quatro na corte portuguesa, dando então como confirmado o Tratado entre os dois reinos (Tratado de Alcanizes).

Em 1310, Branca de Anjou, rainha de Aragão e esposa de Jaime, irmão da rainha D. Isabel, morre ao dar à luz a infanta Violante, deixando Jaime viúvo e dez filhos legítimos. Vataça, que desde menina sempre estivera apaixonada por Jaime, fica surpreendida com a decisão de Jaime de se voltar a casar, desta vez com uma princesa do reino do Chipre.

A terceira parte inicia-se em 1317 com uma conversa entre Vataça e Isabel, em que nos põe a par da evolução dos acontecimentos. Beatriz e Afonso, depois de terem perdido o primeiro filho, são agora pais de um menino de nome Dinis, tal como o avô. O bebé falece pouco depois fazer o primeiro aniversário. Vataça tinha entretanto regressado à corte portuguesa e vive agora no Paço de Santiago do Cacém, mantendo-se como embaixadora de Isabel e de D. Dinis. 

Nesta terceira parte, existe a alusão ao sismo de 1319 que afeta Portugal. Constança e Afonso têm um bebé, o pequeno Dinis, que acaba por mporrer pouco tempo depois de perfazer um ano de vida. Isabel dita o seu primeiro testamento, deixando os seus bens aos "conventos e mosteiros para que comprassem camas (...) boas."

Em 1321, o rei D. Dinis acaba por ser afrontado pelo filho, Afonso IV, mas Isabel consegue intervir, acalmando os ânimos. Logo depois pede que Dinis a deixe partir para Alenquer, para o Convento de Sº. Francisco. Vataça, continua a visitá-la, mas tem agora um novo embaixador e interlocutor: o seu amante Pedro de Urriés. Afonso acabaria por tomar Santarém e Torres Novas, escapando Tomar, cidade que estava protegida "pelo mestre da Ordem de Cristo." Seguir-se-ia Leiria. Dinis manda cortar "as mãos e os pés aos nove homens que tinham entregado as chaves da vila" a Afonso, "queimando-os depois na fogueira." Depois, Afonso ataca Coimbra, Montemor-o-velho e Feira. A maior batalha seria a de Guimarães, mas é enquanto esta decorre que D. Dinis avança para tentar retomar Coimbra. Durante o cerco a Guimarães, Isabel vai ao encontro do filho e, com o apoio do enteado, Pedro Afonso, tenta fazê-lo ver os erros e injustiças que está a cometer contra o pai, oferecendo-se para ir ela própria ao encontro do rei a Coimbra, para o tentar demover.

Em maio de 1322, o exército de D. Dinis haveria de recuar até Leiria e o de Afonso para Pombal. D. Dinis compromete-se a deixar ao filho os castelos de Coimbra, Feira e Gaia, por este já conquistados, se este lhe jurasse vassalagem. 

D. Dinis falece em janeiro de 1325 e, apesar da promessa feita ao pai, D. Afonso IV, agora rei, condena à morte o meio-irmão João Afonso que sempre tinha defendido Afonso Sanches, a quem remete ao exílio. D. Isabel retira-se então para o Convento das Clarissas, em Coimbra, mantendo ainda o contato com o esterior, atravé de Pedro de Urriés e de Vataça.

Na quarta parte do romance, existe como esperado o desfecho do romance de Vataça e Urriés, bem como ficamos a conhecer um pouco mais sobre os últimos anos de vida da Rainha Dª Isabel, que continua a tentar resolver os conflitos entre o filho, D. Afonso IV e o neto. Isabel acaba mesmo por morrer, aos 66 anos, depois de uma viagem a Estremoz, na qual tenta mais uma vez apaziguar os ânimos e evitar uma guerra civil, em 1336. Uma dor forte com vários dias revela-se uma chaga negra, como tantas que ela cuidara ao longo da vida, como se finalmente, a sua proteção tivesse acabado. Depois da sua morte, o corpo tem de ser trasladado e apesar da distância, diz a lenda que do caixão saía um aroma suave a flores. Esta lenda e a lenda das transformação de pães em rosas, da sua tia-avó Isabel de Hungria, são muitas vezes confundidas e atribuídas à mesma pessoa. No caso da rainha D. Isabel, D. Dinis não se importava com o facto da mulher gastar a sua fortuna com os pobres, principalmente com os doentes que todos abandonavam e a quem ela sempre ajudara. Entre o que Isabel deixou, está o Mosteiro de Santa Clara que mandou construir em Coimbra.

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