quinta-feira, 27 de junho de 2024

Poesia... desabafos

Hoje, partilho convosco esta poesia que escrevi há algum tempo, mas que poderia ter sido escrita hoje. É um desabafo... num dia em que me sinto um pouco incompreendida. Uma forma de mostrar que o caminho que escolhemos, apesar das dificuldades, se torna muitas vezes no caminho certo e que não devemos desistir mesmo que a esquina seja escura e as opções não sejam animadoras. 


Tantas vezes este é um caminho solitário, incompreendido. Só nosso.


 



Esta dor que é só minha


 


Um lamento baixinho


No silêncio do meu quarto,


Choro já pouco, que o caminho


É só meu, não o reparto.


 


Parece um sorriso aquilo


Que coloco no meu rosto


Saio de casa tranquilo


A dor está cá não a mostro.


 


Sigo em passos constantes,


Doloridos, hesitante,


Sou eu quem manda, não és tu!


Dói, mas sem ser pedante


Ergo a cabeça, embirrante


Sou mais forte do que tu!


 


Esta dor que é só minha


Não define quem eu sou


Nem presto conta à vizinha


Das noites que passo sozinha


À janela, a ver quem passou.


 


Esta dor que me impede


De ser totalmente quem quis


É a vencê-la que me impele


A cada dia ser mais feliz!


 


O que fui já se acabou,


Outra vida, construí


Agora aquele que sou


É sobre o vencer da dor


Que a caminhar consegui.


Elsa Filipe, 2024


terça-feira, 25 de junho de 2024

"O Almirante Português"

Terminei hoje a leitura do romance "O almirante português", escrito por Jorge Moreira Silva e que nos narra de que forma os marinheiros portugueses, iam conseguindo sobreviver ao início das guerras napoleónicas.


Um romance construído sobre factos históricos que é fruto de uma intensa investigação sobre a nossa história naval que nos vai relatando a participação da força portuguesa e de Moreira Freire (o Marquês de Nisa) na Campanha do Mediterrâneo, ao lado da esquadra britânica de Lord Nelson, passando pelo bloqueio da ilha de Malta, pelo combate aos piratas sarracenos e pela reconquista de Nápoles. Tendo como pano de fundo a Campanha do Egito, a segunda invasão francesa de Itália e os dramáticos dias da República Napolitana, é na pitoresca Nápoles que assistimos ao desenrolar da vida aventurosa de várias personagens, cujos destinos se cruzam de forma indelével e que ali se encontram. Um livro que também nos conta sobre atos de traição e de heroísmo, de paixão e inveja, de vingança e de perdão. 


Jorge Moreira Silva, mestre em História Marítima, consegue descrever, não apenas as batalhas do ponto de vista marítimo, mas também a forma como a guerra era decidida a bordo, com acordos de honra mas também com situações de espionagem e de traição, o que sendo ele também marinheiro e Capitão-de-fragata, e tendo servido o seu país em várias missões, nos traz uma perspetiva diferente sobre os acontecimentos.


O autor, Jorge Moreira Silva, conta-nos a saga de uma das esquadras portuguesas que lutou sob o comando do almirante Marquês de Nisa, na campanha do Mediterrâneo, ao lado da esquadra britânica de Lord Nelson. Como já devem ter percebido, o estilo que mais me atrai na escrita é precisamente a narrativa, em especial os romances históricos, onde posso conhecer a história do nosso país, da construção e queda de um império, das relações com outros povos e com outros países, de perspetivas diferentes consoante o autor. E por isso, quando tomei contato com este título, logo logo senti vontade de o ler.


A história desenrola-se num ambiente de permanente tensão, que é pontuado por episódios de intriga, paixão, heroísmo e traição que trazem à narrativa um ritmo próprio e nos fazem ficar agarrados aos acontecimentos. Os dramáticos dias da República Napolitana, são o pano de fundo desta história, apesar de a maioria dos seus intervenientes serem lusitanos.

Entretanto, vamos acompanhando o desenrolar da vida amorosa de várias personagens, cujos destinos se cruzam de forma indelével e aventurosa. Uma das coisas que mais me agradou neste livro foi a forma como o autor interligou a realidade ao próprio enredo, sem perder a verdadeira essência do romance histórico, mas dando às  personagens relacionamentos que criaram neste livro um conteúdo mais atrativo. O aparecimento dos piratas mouros e o rapto de uma jovem rapariga açoriana, foi uma das partes da história que mais me custou ler, sou sincera, mas que me trouxe um choque com a realidade da época e das caraterísticas das relações entre estes povos.


Este livro vem também relembrar a coragem das forças navais portuguesas em oposição a Bonaparte.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Poesia para a criança-soldado

Nestes dias não posso deixar de escrever sobre as crianças que estão na guerra. Que combatem de armas na mão... que matam e ferem sem terem brincado aos polícias e ladrões. Crianças que em vez de irem para a escola, foram obrigadas a combater. Sem o colo da mãe ou o abraço do pai. Este poema estava guardado, mas hoje resolvi publicá-lo aqui, para que estes meninos não sejam esquecidos.



Criança-soldado 


Nascido sem linho nem contas

Que lhe pesasse o destino

Vendem-no quando a fome aperta

Escolhendo o mais forte menino.

 

Em casa mais uma boca

Ali mais um soldado

Tem na pele o medo à solta

E um olhar desconfiado.


A arma pesa-lhe tanto

Mas depressa vai aprender

Que não será o seu pranto

A salvá-lo de morrer.


Limpa as lágrimas, teimosas

E ajeita a arma brilhante

E das suas mãos ansiosas,

Sai o disparo, fulminante.


Cai por terra, um rapaz

A ele igual, o guerreiro,

Só diferente por incapaz

De ter disparado primeiro.


Foge para o meio do cerrado,

Sofre por matar um irmão

Sabe apenas que esteve errado

É o que lhe sai do coração.


O seu corpo baloiça,

As mãos trémulas em perdão,

Mas sem haver quem o oiça

Cai de rastos no chão.


Frémito silêncio, engole

O seu choro, mal entendido

Porque ali não há quem console

Um menino arrependido.


Devia estar a brincar,

Ou a rir com os irmãos,

Em casa havia fome

Mas sem armas nas mãos.


Soldado desde cedo

Dali em diante matou

Tantos, que aquele mancebo

Depressa se habituou.


Mas quando no mato à noite

O silêncio se ergue devagar

Volta a chorar o menino

Sem ninguém o abraçar.


Nem o pai que já morreu

Nem os irmãos, compreende,

Nem a mãe que o vendeu

Já nem a esperança se acende.


Um dia, zunem balas ali

Atacam a sua posição,

Abre os braços e caminha

Para a morte ou rendição.

Elsa Filipe, junho de 2024

terça-feira, 11 de junho de 2024

"O rapaz que venceu Salazar"

A minha última leitura foi este livro de Jacinto F. Matias que conta a história de quatro amigos que se encontram às escondidas para jogar à sueca e para ouvir a BBC e a Rádio Moscovo, ambas proibidas. Este pequeno grupo está no entanto na ser espiado, enquanto discutem não só política, mas também gastronomia, mulheres e a vida. Nesta aldeia alentejana, vive-se com o medo associado ao cerco que se vai apertando pelos informadores e agentes da PIDE. 


Numa escalada de atrevimento, estes quatro amigos afixam um cartaz do Movimento de União Democrática na vila, divulgando a sua participação nas eleições (que non fundo acabaram por ser uma farsa da ditadura), pagam com uma proibição dolorosa, mas que irá desencadear a improvável resposta de uma criança ao estado de medo e de obediência a que o País foi subjugado ao longo de décadas. 


Neste livro, são também retratados episódios da vida quotidiana, relações familiares que, no meio da normalidade quotidiana, escondem o medo constante provocado pelo regime e pelo despoletar da guerra colonial. Um livro que, de uma forma leve, nos conduz a um tempo não muito distante em que a inocência da infância leva a melhor sobre o medo. Apesar de recheado de episódios divertidos, este é um livro que nos faz refletir nas mudanças que o 25 de Abril nos trouxe, mas sobretudo naquilo que continua tal e qual como era antes. 


Além de "O rapaz que venceu Salazar", Jacinto F. Matias escreveu também "A guerra do Salavisa". Jacinto nasceu em Moçambique, mas acabou por viajar e conhecer o mundo. Tinha 20 anos quando em 1974, a liberdade libertou o nosso povo.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades de Língua Portuguesa

Esta é uma data importante que assinala a data da morte do grande poeta português, Luís de Camões, estudado nas nossas escolas, especialmente pelos alunos do 9º ano e que necessitam dos "Lusíadas" para passar na prova de final de ciclo. Além do feriado que nos dá mais um dia de descanso e da obrigatoriedade escolar, é também importante pensarmos na relevância desta data ao longo dos tempos.


"Durante o regime ditatorial do Estado Novo de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, o dia 10 de Junho era celebrado como o Dia da Raça," em que se exacerbavam as caraterísticas nacionais associadas à "raça" portuguesa. Esta ideia, felizmente, perdeu-se com a revolução!


Depois da Implantação da República, em 1910, "foi publicado um decreto que dava aos municípios e
concelhos a possibilidade de escolherem um dia do ano que representasse as suas festas
tradicionais e municipais. Lisboa escolheu para feriado municipal o 10 de Junho, em
honra de Camões. Durante o Estado Novo e até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho
passa a ser comemorado a nível nacional e passa a chamar-se o também o Dia da Raça,
em memória das vítimas da guerra colonial. A Segunda República não se revê neste
feriado pelo que, em 1978, o converte em Dia de Portugal, de Camões e das
Comunidades Portuguesas."


Nesta data, é costume que o Presidente da República e individualidades do Estado participem em cerimónias que decorrem em cidades diferentes todos os anos, com várias atividades, tais como desfiles e demonstrações militares. Anualmente, costumam também ser "distinguidas novas individualidades pelo seu trabalho em nome da nação."


Mas porquê Camões? Bem, em primeiro lugar porque já a este poeta que Lisboa havia dedicado a data, mas no Estado Novo, a importância tinha sido atribuída pela sua ligação aos Descobrimentos e à forma como o poeta valorizava o povo lusitano como superior, destacando os seus feitos. De facto, Camões - que associamos à Língua Portuguesa - nem tinha na época grandes preocupações ortográficas! Lembremo-nos que uma boa parte da população era analfabeta e que a obra deixada, só a muito poucos chegaria. Na versão original, uma mesma palavra aparece escrita sob várias formas de grafia, umas vezes por erro, outras talvez para manter a estrutura estabelecida para o esquema rimático usado pelo poeta. Enquanto vivo, a sua obra não foi muito valorizada e, é apenas depois da sua morte que os seus poemas são reunidos em coletânea e publicados. O que se sabe da sua vida... bem, não está tudo confirmado e há grandes dúvidas sobre quem tem razão. "Diz-se que tinha grande valor como soldado, exibindo coragem, combatividade, senso de honra e vontade de servir, bom companheiro nas horas de folga, liberal, alegre e espirituoso quando os golpes da fortuna não lhe abatiam o espírito e o entristeciam." Inclusivamente, "a ossada que foi depositada em 1880 numa tumba no Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa." 


Fontes:


https://eurocid.mne.gov.pt/eventos/dia-de-portugal-de-camoes-e-das-comunidades-portuguesas


https://gds.pt/pt/noticias/sabe-porque-razao-o-dia-de-portugal-se-celebra-a-10-de-junho


As origens de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas / Conceição Meireles. – In:
http://nisefa.wordpress.com/2008/06/09/sabia-que-10-de-junho


https://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2008/10/2011-06-Dia-de-Portugal.pdf


https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_de_Cam%C3%B5es


 

sábado, 1 de junho de 2024

Poesia... em Dia da Criança

Hoje é dia da criança e escolhi a poesia para o assinalar. Dedico estes poemas a todas as crianças que, neste dia, não brincam nem sorriem, que são obrigadas a crescer. Choram de frio, de fome e saudade. Estes poemas são de três grandes poetas: António Nobre, Manuel Lopes Fonseca e Cecília Meireles. 


"Menino e Moço"



Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta Águia, linda fada,
Que dantes estendia as azas sobre mim.


Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!


Mas, hoje, as águias de oiro, águias da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!


Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais…



(António Nobre)


"Menino"



No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.


Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.


De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.


Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.


Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.


Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.



(Manuel Lopes Fonseca)


"A bailarina"



Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.


Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá


Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.


Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.


Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.


Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.



(Cecília Meireles)


A poesia é um excelente recurso para trabalhar com as crianças. A "repetição de rimas e cantigas é como que um exercício para a memória das crianças." Além da "memória semântica," a poesia é rica pelo seu contributo na "memória afetiva." De facto, quando a criança é exposta à poesia, à leitura de poemas infantis, ela irá fazer registos "semânticos e afetivos" na sua mente, podendo depois vir a recordá-los quando se deparar noutras ocasiões "com palavras componentes do poema." O que fica, além do sentido atribuído às palavras que compõem o poema, são as "sensações que experimentaram" da primeira vez que com ele tiveram contato.


Desenvolver o bom uso da linguagem é algo fundamental para o processo cognitivo da criança e que irá ter um impacto enorme na sua vida futura, independentemente do caminho que escolha.


Fontes:


https://comofazerumpoema.com/poemas-infantis-curtos-e-famosos-ler-criancas/


 

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