"A bailarina de Auschwitz" é mais do que uma história sobre campos de concentração. Aquilo que mais me surpreendeu, foi a forma como, mesmo depois de saber que Edith tinha sobrevivido e era ela própria a autora do livro, tremia perante a sensação de morte. Tal só é possível quando, quem escreve, tem na sua mão o poder das palavras e o faz com o coração. Este livro tocou-me de uma forma diferente, tocou-me de forma pessoal pois nele vi, por diversas vezes, refletidas algumas questões com as quais me identifiquei, fossem elas relacionais, pessoais ou profissionais. É estranho que o tivesse sentido, partindo de uma história de vida tão diferente da minha? Talvez, mas às vezes aprendemos mais nessa diferença, tanto da faixa etária, como das próprias situações vividas, do que com alguém que aparentemente fosse mais parecida comigo.
A vida de Edith é-nos contada na primeira pessoa, começando durante a sua infância. Uma de três irmãs, Edith nasceu e viveu a sua infância na Hungria. A mãe vivia com a dor da recente perda da sua própria mãe, representando a não aceitação, a procura da melhoria e da perfeição, enquanto o pai, alfaiate, tenta pôr de lado a sua vontade para que a família funcione, ele que desejava ser médico e a quem essa oportunidade tinha sido retirada. Ela é bailarina, mas cresceu sempre a ouvir que era feia e incapaz, que não era perfeita como as irmãs e que nunca as alcançaria. Normalizou, até certo ponto, as ofensas verbais sofridas e, por isso, a sua casca, acaba por ajudá-la a lidar com outras situações, que apesar de muito mais dolorosas e inaceitáveis, ela entende como uma opção, a escolha de se deixar ficar, de morrer, ou a escolha de viver, apesar das dificuldades que a esperam. Edith é uma jovem com muitas fragilidades, mas é a luta contra essas mesmas fragilidades que a vão ajudar a formar-se como pessoa e como profissional, como esposa e como mãe, tendo de lutar contra si mesma para aceitar as suas limitações e ultrapassar, enfrentando-os, os seus medos.
É uma história dura - como o são todas as que nos falam deste período da história - mas não é só mais uma narração de episódios passados durante este período, pois vai muito mais além. Aos 16 anos, é enviada para Auschwitz, onde viu a mãe ser enviada para a câmara de gás e onde foi forçada, entre outras coisas, a dançar para Joseph Mengele. A sua resiliência ajudou-a a sobreviver ao campo até ser finalmente retirada de uma pilha de corpos moribundos. Neste livro, assistimos a todo um processo de recuperação da própria Edith, mas também daqueles que a rodeiam e, da forma como ela transporta para os seus pacientes, as aprendizagens feitas ao ,longo da sua vida. Edith nunca desistiu e, esta é a maior lição a tomar. Ela nunca perdeu a sua liberdade, nem se deixou aprisionar, mesmo quando estava fisicamente impossibilitada de liberdade. Havia sempre algo a decidir e, era a esse poder interno, que ela se quis sempre agarrar.
Atualmente, ela é psicóloga, mas até lá chegar teve de vivenciar diversos obstáculos, Para ser reconhecida internacionalmente, Edith teve de se libertar dos seus fantasmas, teve de aprender a pôr cá fora aquilo que a corroía e a ultrapassar as suas limitações, fazendo-o sempre que dava a si mesma o poder de poder escolher. Nos seus pacientes, incluem-se desde soldados com stress pós traumático a jovens com problemas alimentares e mulheres vítimas de abusos. Edith acaba por ganhar a Hitler quando ela sobrevive e ele não. Ganha, quando ultrapassa os arames do campo, consegue formar a sua própria família e, lutando até contra o sistema, chegar à América onde conseguiu refazer a sua vida.
Uma história de vida, mais do que um romance histórico, contada na primeira pessoa , quase que em forma de diário. Por diversas vezes tive necessidade de fechar e ir arejar as ideias, respirar, limpar as lágrimas, mas rapidamente sentia vontade de regressar à leitura.
Vou até à biblioteca. Alguma sugestão?