quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Diário de Renia"

Como última entrada de 2025, fica este "Diário de Renia." Comprei-o na feira do livro de Lisboa e foi-me acompanhando enquanto ia lendo outras coisas. Renia é uma adolescente que vive na Polónia e tem sonhos, amores, desilusões como qualquer outra jovem da sua idade. Mas estamos em 1939 e Renia é uma jovem judia.

Renia vê o seu sonho de vir a ser poeta, cair por terra quando a Polónia é invadida pela Rússia e pela Alemanha. Começa a II Guerra Mundial.

A separação da mãe, que se encontra do lado alemão (enquanto ela fica do lado soviético) é o que mais a faz sofrer. Enquanto vai à escola, a sua vida parece normal, surgem os primeiros amores, as festas, o despertar da sexualidade, as primeiras festas, as discussões com a irmã, os seus desejos e a procupação constante com a mãe. Logo no início, Renia explica o motivo que a leva a escrever, a sua vontade de ter "...um amigo. Alguém com quem possa falar sobre as minhas preocupações e alegrias diárias. Alguém que irá sentir o que eu sinto, acreditar no que acredito e que nunca revelará os meus segredos. Nenhum ser humano poderia ser esse tipo de amigo."

Renia encontra a sua paixão, o seu primeiro grande amor: Zygmund, "com quem trocou o primeiro beijo algumas horas antes de os nazis chegarem a Przemysl." Em quase todas as suas entradas, Renia escreve sobre ele, mas também sobre os seus colegas e amigos, sobre as dúvidas que habitam na cabeça de qualquer adolescente e sobre os seus desejos. Apenas uma menina que está a crescer e a descobrir a vida, enquanto lá "fora" o mundo está a entrar em guerra. Renia termina quase todas as suas entradas no Diário com um pedido de ajuda. 

No entanto, vamos percebendo através do seu Diário que rapidamente a sua vida começa a assumir novos contornos "quando ela foge de Przemysl para escapar dos bombardeamentos noturnos." Renia descreve-nos "o desaparecimento de outras famílias judias e, finalmente, testemunha a criação do gueto."

Embora num país em guerra, Renia não deixa de escrever. No seu Diário, a poesia é uma constante. Uma das coisas que me fez demorar mais a ler este livro foi, de facto, a poesia, pois a tradução muitas vezes, parecia desorganizar o poema e era preciso que eu me encontrasse nesse ritmo que têm as palavras - decerto, muitas vezes, perdi aspetos importantes e depois tive necessidade de regressar ao poema ou a alguma entrada anterior para agarrar o fio condutor. Outra questão relacionada com este Diário, são as datas. Existem muitas datas corrigidas (ou no dia da semana, ou na data em si) que pela sua frequência, acabam por quebrar a fluência da leitura. Senti que as notas me fariam mais sentido ao longo do texto, se estivessem ali para ajudar a contextualizar a história, até porque temos de entender que um Diário, quando escrito, é algo de tão pessoal que não está previsto para ser lido por outros. No entanto, a qualidade da sua escrita destaca-se, refletindo a sua capacidade como escritora e como poetisa apesar da sua tenra idade, a sua capacidade de introspeção que se mistura com a sua inocência. 

Na sua última entrada, Renia descreve o que se passa à sua volta: "...recorda este dia; recorda-o bem. Tu contarás às gerações vindouras. Desde as oito horas de hoje estamos trancados no gueto. Eu moro aqui agora. O mundo está separado de mim e eu estou separado do mundo." Era dia 15 de julho de 1942, e Renia morreria pouco depois.

"Será Zygmunt a escrever o último e comovente texto no diário de Renia." Nas últimas linhas deste diário, a 31 de julho de 1942, pode ler-se: "Três tiros! Três vidas perdidas! Tudo o que consigo ouvir são tiros, tiros," quem o escreve é Zygmund, depois de soldados alemães terem morto a tiro os seus pais e a própria Renia, sua namorada. "Antes de ser deportado para Auschwitz, acabou por deixar o documento com outra pessoa, por segurança, recuperando-o posteriormente. Ao mudar-se para os EUA, em 1950, conseguiu por fim fazer chegar o diário às mãos da mãe e da irmã de Renia."

"Recentemente redescoberto, setenta anos depois, o Diário de Renia é descrito como sendo um clássico da literatura do Holocausto. Escrito com a clareza e habilidade que lembra Anne Frank, é um testemunho extraordinário dos horrores da guerra e da vida que subsiste mesmo nos tempos mais sombrios."

Renia Spiegel, autora do Diário, "nasceu na parte oriental da Polónia em 1924" e é em janeiro de 1939 começa a escrever este seu Diário. "Quando começou a guerra, ela e a irmã estavam a viver com os avós em Przemysl. A guerra separou-a da mãe e durante os anos seguintes viveria sob a ocupação soviética e depois nazi e assistiria à criação do ghetto. No verão de 1942, Renia foi forçada a esconder-se para tentar escapar à liquidação do ghetto. Uns dias depois, o seu esconderijo foi encontrado e ela foi executada. Renia tinha apenas dezoito anos." É a irmã que depois vai agrupar e trabalhar o seu testemunho, como uma homenagem, mas só cerca de 70 anos depois, quando ganha finalmente coragem para o ler. O original esteve "guardado durante quase 70 anos no cofre de um banco em Nova Iorque." Um texto comovente e mais um grande testemunho de uma época que não deve ser esquecida. 

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/diario-inedito-de-jovem-judia-reflete-ocupacao-nazi-da-polonia-e-sera-publicado-em-2019_n1110450

https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/o-diario-de-renia/23869631

https://www.portoeditora.pt/autor/renia-spiegel/4563634

https://expresso.pt/sociedade/2019-09-13-Diario-de-jovem-judia-polaca-vai-ser-publicado-70-anos-depois

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

"Isabel de Borgonha - Ínclita geração"

Neste livro, Isabel Stilwell apresenta-nos a filha de Filipa de Lencastre, Isabel. 

Isabel deixa Portugal para se casar com Filipe II, duque de Borgonha, deixando para trás os cinco irmãos e o pai, D. João I. Filipe de Borgonha tinha enviuvado pela segunda vez e vê no casamento com Isabel, já com 32 anos, uma forma de reatar as relações com Portugal. Apesar de estar na Borgonha, Isabel nunca deixou de se preocupar com o que se passava em Portugal com o pai e com os irmãos. O livro está muito bem escrito e prende-nos entre o romance e a  descrição histórica, sem se tornar maçador.

Uma das coisas que este livro me fez pensar foi que pouco sei sobre esta época da história de Portugal, apesar de ser uma das mais trabalhadas a nível escolar. E há tantas intrigas, tantos casamentos e mortes, tantos descendentes legítimos e bastardos, e fala-se tão pouco neles apesar da importância que tiveram para o país.

A narrativa começa em 1429, apenas quatro anos antes da morte de D. João I. Isabel tinha sido educada para saber bem bem o que dela era esperado e tinha como figuras de referência a sua mãe e a sua avó. França e Inglaterra estão de costas voltadas e Portugal está a avançar pelo norte de áfrica, tendo já descoberto a Madeira. Esta é a época da expansão, marcada pelo descobrimento de novas terras, pelo desenvolvimento de técnicas de navegação inovadoras e "pelo desenvolvimento mercantil." ,MN 

Das personagens, além de Isabel, foram mesmo os seus irmãos quem me despertou mais interesse: D. Pedro, D. Duarte, D. Fernando, D. Henrique e o seu meio irmão, D. Afonso. Filho ilegítimo de D. João I com D. Inês Pires, fiquei a conhecer D. Afonso, no volume anterior, quando nos é descrita a sua chegada ao palácio. Além de ter sido conde de Barcelos e de Ourém, chegou ainda a ser o primeiro duque de Bragança e a casar com D. Beatriz, filha do condestável Nuno Álvares Pereira (de quem também ficamos a conhecer a história no livro "Filipa de Lencastre"). Nas suas viagens passou pela Europa e pelo Médio Oriente, tendo ainda participado na conquista de Ceuta. Enquanto o seu filho, D. Afonso V era menor, "opôs-se à regência do infante D. Pedro, chegando a participar na Batalha de Alfarrobeira", na qual D. Pedro, seu tio acaba por perder a vida.

D. Pedro, que tinha acompanhado o pai na campanha de conquista de Ceuta, recebe o título "cavaleiro no dia seguinte à tomada da cidade, na recém consagrada mesquita. É nesta altura que lhe é conferido o Ducado de Coimbra, tornando-se, com o irmão Henrique, nos dois primeiros duques criados em Portugal." Aquando da morte do rei, D. João I, torna-se regente de Portugal. Acaba morto por uma seta, frente às tropas do sobrinho, D. Afonso V, e o seu corpo fica exposto durante três dias no campo de Batalha de onde é depois roubado.

Voltando a Isabel, esta é-nos descrita como uma mulher poderosa e decidida. Isabel tem três filhos, dos quais apenas o mais velho sobrevive. Numa época marcada por doenças que hoje teriam cura, a mortalidade infantil é uma constante. Carlos é o único sobrevivente e, por isso, muito amado e mimado por Isabel. Torna-se conde de Charolais e cavaleiro do Tosão de Ouro, uma ordem criada por D. Filipe para D. Isabel como presente. Aquando do seu nascimento, D. João I tinha falecido e D. Duarte tinha acabado de ser coroado rei de Portugal. A escolha tinha recaído sobre ele pois tinha acompanhado sempre "o seu pai nos assuntos do reino, sendo portanto" considerado "um herdeiro preparado para reinar." O seu reinado foi, no entanto, bastante curo, deixando viúva D. Leonor de Aragão, tendo dado "continuidade à política de exploração marítima" e de "conquistas em África e da centralização do poder que vinha do reinado anterior," durante as quais o seu irmão Henrique, se tinha estabelecido "em Lagos, de onde dirigiu as primeiras navegações." Numa das campanhas feitas a "Tânger, o seu irmão D. Fernando foi capturado e morreu em cativeiro."

Fontes:

https://www.infopedia.pt/artigos/$d.-afonso-(c.1380-1461)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_de_Portugal,_1.%C2%BA_Duque_de_Coimbra

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_I_de_Portugal

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Mensageiro da Poesia

Com um singelo poema, composto apenas por duas quadras, participei num desafio que a Associação Mensageiro da Poesia colocou. A decisão de participar foi simples e sem grandes pretensões. Era a oportunidade de dar a conhecer um pouco da minha escrita, de conhecer pessoas que, como eu, gostam de passar as suas ideias para o papel. 

A poesia tem sido algo que me acompanha desde que me lembro de aprender a escrever. Quanto do que já escrevi se perdeu... entre folhas e rascunhos que acabaram no lixo. Além da leitura do poema com que concorri, pude também ler outros dois: Mulher que és portuguesa e Criança-soldado.

E a verdade é que a minha participação, valeu-me um 1º lugar. De entre os vários participantes, houve excelentes trabalhos (pelo menos, naqueles que nos foram dados a conhecer). Esta Associação que fica mesmo aqui na Amora, no coração do nosso concelho, precisa de crescer! Precisa de gente, pois o trabalho que faz na divulgação da poesia (e acrescento eu, da cultura e da Língua), não pode cair no esquecimento!

Aqui fica o poema vencedor:

"A Partida

Era apenas a noite, madrugada fria
O sol repousava e se ouvia gritar:
“É hora!”, e nem o dia nascia
Saíam os homens, bravos para o mar!

O mar que lhes dava o sustento, o pão
Era o mar que à praia uma tábua trazia
O nome esculpido, gravado à mão
Do barco que o mar, seu, já o fazia!"

Elsa Filipe, 2025

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...