Como última entrada de 2025, fica este "Diário de Renia." Comprei-o na feira do livro de Lisboa e foi-me acompanhando enquanto ia lendo outras coisas. Renia é uma adolescente que vive na Polónia e tem sonhos, amores, desilusões como qualquer outra jovem da sua idade. Mas estamos em 1939 e Renia é uma jovem judia.
Renia vê o seu sonho de vir a ser poeta, cair por terra quando a Polónia é invadida pela Rússia e pela Alemanha. Começa a II Guerra Mundial.
A separação da mãe, que se encontra do lado alemão (enquanto ela fica do lado soviético) é o que mais a faz sofrer. Enquanto vai à escola, a sua vida parece normal, surgem os primeiros amores, as festas, o despertar da sexualidade, as primeiras festas, as discussões com a irmã, os seus desejos e a procupação constante com a mãe. Logo no início, Renia explica o motivo que a leva a escrever, a sua vontade de ter "...um amigo. Alguém com quem possa falar sobre as minhas preocupações e alegrias diárias. Alguém que irá sentir o que eu sinto, acreditar no que acredito e que nunca revelará os meus segredos. Nenhum ser humano poderia ser esse tipo de amigo."
Renia encontra a sua paixão, o seu primeiro grande amor: Zygmund, "com quem trocou o primeiro beijo algumas horas antes de os nazis chegarem a Przemysl." Em quase todas as suas entradas, Renia escreve sobre ele, mas também sobre os seus colegas e amigos, sobre as dúvidas que habitam na cabeça de qualquer adolescente e sobre os seus desejos. Apenas uma menina que está a crescer e a descobrir a vida, enquanto lá "fora" o mundo está a entrar em guerra. Renia termina quase todas as suas entradas no Diário com um pedido de ajuda.
No entanto, vamos percebendo através do seu Diário que rapidamente a sua vida começa a assumir novos contornos "quando ela foge de Przemysl para escapar dos bombardeamentos noturnos." Renia descreve-nos "o desaparecimento de outras famílias judias e, finalmente, testemunha a criação do gueto."
Embora num país em guerra, Renia não deixa de escrever. No seu Diário, a poesia é uma constante. Uma das coisas que me fez demorar mais a ler este livro foi, de facto, a poesia, pois a tradução muitas vezes, parecia desorganizar o poema e era preciso que eu me encontrasse nesse ritmo que têm as palavras - decerto, muitas vezes, perdi aspetos importantes e depois tive necessidade de regressar ao poema ou a alguma entrada anterior para agarrar o fio condutor. Outra questão relacionada com este Diário, são as datas. Existem muitas datas corrigidas (ou no dia da semana, ou na data em si) que pela sua frequência, acabam por quebrar a fluência da leitura. Senti que as notas me fariam mais sentido ao longo do texto, se estivessem ali para ajudar a contextualizar a história, até porque temos de entender que um Diário, quando escrito, é algo de tão pessoal que não está previsto para ser lido por outros. No entanto, a qualidade da sua escrita destaca-se, refletindo a sua capacidade como escritora e como poetisa apesar da sua tenra idade, a sua capacidade de introspeção que se mistura com a sua inocência.
Na sua última entrada, Renia descreve o que se passa à sua volta: "...recorda este dia; recorda-o bem. Tu contarás às gerações vindouras. Desde as oito horas de hoje estamos trancados no gueto. Eu moro aqui agora. O mundo está separado de mim e eu estou separado do mundo." Era dia 15 de julho de 1942, e Renia morreria pouco depois.
"Será Zygmunt a escrever o último e comovente texto no diário de Renia." Nas últimas linhas deste diário, a 31 de julho de 1942, pode ler-se: "Três tiros! Três vidas perdidas! Tudo o que consigo ouvir são tiros, tiros," quem o escreve é Zygmund, depois de soldados alemães terem morto a tiro os seus pais e a própria Renia, sua namorada. "Antes de ser deportado para Auschwitz, acabou por deixar o documento com outra pessoa, por segurança, recuperando-o posteriormente. Ao mudar-se para os EUA, em 1950, conseguiu por fim fazer chegar o diário às mãos da mãe e da irmã de Renia."
"Recentemente redescoberto, setenta anos depois, o Diário de Renia é descrito como sendo um clássico da literatura do Holocausto. Escrito com a clareza e habilidade que lembra Anne Frank, é um testemunho extraordinário dos horrores da guerra e da vida que subsiste mesmo nos tempos mais sombrios."
Renia Spiegel, autora do Diário, "nasceu na parte oriental da Polónia em 1924" e é em janeiro de 1939 começa a escrever este seu Diário. "Quando começou a guerra, ela e a irmã estavam a viver com os avós em Przemysl. A guerra separou-a da mãe e durante os anos seguintes viveria sob a ocupação soviética e depois nazi e assistiria à criação do ghetto. No verão de 1942, Renia foi forçada a esconder-se para tentar escapar à liquidação do ghetto. Uns dias depois, o seu esconderijo foi encontrado e ela foi executada. Renia tinha apenas dezoito anos." É a irmã que depois vai agrupar e trabalhar o seu testemunho, como uma homenagem, mas só cerca de 70 anos depois, quando ganha finalmente coragem para o ler. O original esteve "guardado durante quase 70 anos no cofre de um banco em Nova Iorque." Um texto comovente e mais um grande testemunho de uma época que não deve ser esquecida.
Fontes:
https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/o-diario-de-renia/23869631