António Lobo Antunes sempre quis ser escritor. Mas foi médico, e foi no consultório do Hospital Miguel Bombarda, onde exercia psiquiatria, que "reconheceu e compreendeu a dimensão da fragilidade humana." Uma fragilidade que se foi perpetuando nos textos que escrevia, fosse nas suas crónicas, fosse através das personagens que criava para os seus livros.
Lobo Antunes queria ser escritor, mas foi para a guerra de Angola e lá foi "tenente, cirurgião e psiquiatra." Um homem é muitas coisas e não é só uma que o define. Somos uma data de coisas e é da sua experiência que nascem as suas personagens. E são essas "vozes múltiplas que se atropelam nas páginas que escreve," que se vão enredando nas suas histórias. Lobo Antunes é um homem de memórias, um escritor de factos, que consegue ser frio e direto, mas também metafórico.
Muitos vieram agora falar dele, pesar a sua morte. Desses, quantos o terão realmente lido em vida? O Presidente da República terá sido um dos que o leu e que acompanhou a sua obra, mostrando o seu pesar e adiantando que irá colocar junto da sua urna o "grande colar da Ordem de Camões." Talvez um dia, o seu corpo descanse no Panteão Nacional, onde estão outros grandes do nosso país.
António Lobo Antunes deixa já uma marca na história da literatura portuguesa, marcando o seu tempo e deixando-nos 35 romances e cinco livros de crónicas. O seu primeiro grande romance foi "Memória de Elefante" (1979), seguido de "Os cus de Judas" quase publicados em simultâneo num claro rancor a uma guerra que deixa feridas abertas em dois continentes. O autor nunca mais deixaria de escrever, num claro uso da escrita (umas vezes) como terapia, (outras) como saco de pancada. E foi depois numa escrita de frases longas e divagações que se entrelaçam entre o concreto e o abstrato que nos vai dando sinais da sua tentativa de afastamento da sua profissão de médico, de psiquiatra. Uma escrita que ou se adora ou se detesta, ou nos embrenhamos ou nos afastamos.
Li em tempos "Ontem não te vi em Babilónia", mas descubro depois que a sua obra é muito mais vasta, densa. Também neste livro se sente a sombra do antigo Estado português, as feridas de uma guerra ainda latente na nossa memória (mesmo de quem não a viveu).
António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro (era meu contemporâneo em dia de aniversário), e faleceu esta quinta-feira. Tinha 83 anos.
Fontes:
https://ensina.rtp.pt/artigo/antonio-lobo-antunes-o-medico-psiquiatra-no-oficio-da-escrita/
https://sicnoticias.pt/cultura/2026-03-05-enorme-tristeza-e-perda-irreparavel-para-a-literatura-as-reacoes-a-morte-de-antonio-lobo-antunes-923ea0a5
https://observador.pt/especiais/antonio-lobo-antunes-um-mapa-literario-em-cinco-livros/
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