sexta-feira, 10 de julho de 2026

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos anteriores da mesma escritora, é-nos dada uma perspetiva dos acontecimentos da história de Portugal (e neste caso, do Brasil de Inglaterra e de França também) a partir da visão dos seus intervenientes, com destaque para D. Maria II. A forma como nos é apresentada, faz-nos ter logo uma certa inclinação para gostarmos desta futura rainha. Recomendo a leitura deste livro depois da leitura de "D. Maria I" pois assim será mais fácil compreender a sociedade portuguesa, bem como os motivos de D. Pedro IV se encontrar no Brasil.

Desde logo, encontramos uma menina de pele branca e olhos azuis, que vive no Rio de Janeiro e que é amada por todos, apesar do seu mau feitio. É filha de D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal), e de D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria. 

D. Pedro torna-se rei após a morte de D. João VI em 1826, mas como havia uma lei que proibia a unificação das coroas, D. Pedro resolve abdicar do trono português no nome da sua filha mais velha, a própria D. Maria da Glória de quem Isabel Stilwell nos dá a conhecer a história neste seu romance. Mais uma vez, diferentes personalidades da época nos vão sendo apresentadas, levando-nos a viajar até ao passado, num livro composto por 156 capítulos - mas não se assustem, na sua maioria, são capítulos curtos.

A imagem da felicidade daquela menina, depressa se transforma, com um pai agressivo e manipulador e uma mãe que aceita os maus tratos e tenta, em vão, competir com as amantes do marido. A mais importante é Domitília de Castro, com quem Pedro tem vários filhos bastardos, alguns herdando o seu próprio nome. 

Maria assiste ao episódio em que o pai empurra a mãe, levando-a a um aborto que, dias mais tarde a leva à morte. Maria da Glória vai tornar-se D. Maria II e vai ser rainha de Portugal com apenas 7 anos, tendo à sua espera na capital o seu tio, D. Miguel, com quem está prometida em casamento. Não sabemos o que teria acontecido se o casamento tivesse acontecido, mas a verdade é que D. Miguel volta atrás na sua palavra e recusa casar-se com a sobrinha. 

Para nos ajudar na compreensão deste enredo, são-nos apresentados relatos, retirados de cartas trocadas entre diferentes pessoas importantes, bem como através de páginas de Diários pessoais. Sem estes documentos, a história ficaria talvez um pouco menos completa. Uma dessas entradas é a de "Maria Francisca de Portugal e Castro, marquesa de Aguiar." Ela é amiga e protetora da Imperatriz Leopoldina, mulher de D. Pedro I.

D. Pedro é um homem agressivo, mas ao mesmo tempo dissimulado nas suas ações. Casado desde 1817, não se coíbe de passear com a sua amante, D. Domitília de Castro, e com os filhos desta. D. Leopoldina está grávida pela oitava vez, pouco tempo depois da morte do filho João Carlos e do filho Miguel. As suas meninas, pelo contrário são "saudáveis" e "grandes", entre as quais "Januária Maria (...) Paula Mariana, (...) Maria da Glória e Francisca Carolina." O único filho homem sobrevivente é Pedro, mas há o receio de ser portador da "epilepsia dos Bragança, de que o Imperador também sofria e que tanto o assustava (...)"

A marquesa de Aguiar é uma portuguesa que tem um papel especial na evolução desta narrativa. É casada com o próprio "tio, Fernando de Portugal e Castro" e entende bem a posição e os receios de D. Maria da Glória prometida em casamento ao seu tio Miguel, como forma de apaziguar a luta entre os dois irmãos e de defender os interesses do pai. D. Pedro, tinha afinal abdicado na própria filha, do direito ao trono português, para se poder tornar Imperador do Brasil.

D. Leopoldina acaba por falecer a 11 de dezembro de 1826 e, poucos dias depois, o Imperador expulsa do Paço, Frei António e a marquesa de Aguiar. Esta fica desolada por se ver afastada da menina que jurara proteger e acaba por pedir guarida numa "chácara (...) próxima da Quinta da Boa Vista."

Como em todos os livros desta coleção, são-nos descritos episódios da vida diária da corte, das reuniões entre figuras decisivas e das viagens realizadas. Portugal vivia neste período uma fase complicada. A D. Maria cabe agora viajar e aceitar o seu destino.

Depois de uma viagem de dois meses, Maria não entra em Portugal e o casamento prometido é desfeito. A comitiva segue então para Inglaterra, onde D. Maria é apresentada ao rei Charles e mais tarde a Vitória, uma menina que cresce "aprisionada" entre a obsessão da mãe pela sua segurança, e que aguarda por também ela vir a ser rainha (neste caso, Rainha de Inglaterra). Maria frequenta a casa dos Palmela, família que tem aqui um papel crucial. Durante este período, Maria conhece Alexandre.

Mais tarde acaba por regressar ao Brasil a pedido do pai, que se vai casar com Amélia. Pelo caminho, faz uma paragem na ilha da Madeira, onde aos 11 anos é aclamada rainha. Como já fiz referência, ao longo do livro são as cartas trocadas entre Maria e a sua congénere Vitória que nos vão dando o fio para seguirmos todo este enredo. Um enredo que na verdade retrata aquela que era a realidade de uma sociedade feita de aparências, de contratos feitos e desfeitos. Politicamente, começamos então a assistir à chegada do Liberalismo a Inglaterra, seguindo o repúdio francês ao absolutismo régio. 

Em abril de 1831, D. Pedro vê-se obrigado a deixar o império brasileiro ao seu filho Pedro, uma vez que o Brasil se recusa a ter no governo um "imperador nascido em Portugal." De certa forma, D. Pedro estava a perder poder e acaba por regressar à Europa deixando para trás todos os seus filhos à exceção de D. Maria. A já rainha passa por Londres, mas é em França - onde fica hospedada em casa das primas de Orleães - que se reencontra com Alexandre. Infelizmente, Alexandre morre pouco tempo depois. Seis meses depois, outra das filhas de D. Pedro, D. Paula Januária, acaba por falecer. 

Dois anos depois, o almirante Napier consegue levar a que "os absolutistas" abandonem Lisboa, o que dá a Maria uma oportunidade de entrar em Lisboa e assumir, finalmente, o seu reinado. A guerra não está ganha e "D. Miguel ainda está em Portugal." D. Leonor acaba mesmo por ser afastada por ordem de D. Pedro dos serviços à rainha, acusada de "traição" e de "ser contra o regime constitucional."

Na segunda parte, depois da morte de D. Pedro, cabe a D. Maria fazer chegar ao Porto o "coração do pai, arrancado do seu peito" como agradecimento por terem estado do seu lado. D. Maria casa com Augusto, um "homem liberal (...)enteado de Napoleão Bonapart (...)". No entanto, não chegam a consumar o casamento, pois D. Augusto adoece e morre.

Aos 17 anos, em 1836, D. Maria espera no Arsenal pelo desembarque do seu novo marido, D. Fernando, primo de Vitória. A sua vida como rainha, no entanto, não lhe está a ser facilitada, em parte pela grave crise económica que o país atravessa devido aos anos de conflitos, em parte devido à oposição política que se vê obrigada a enfrentar. Ao contrário daquilo que muitos lhe pedem que faça, D. Maria não foge e acaba por receber uma "comitiva", perante a qual renuncia à "Carta" e aceita assinar "uma Constituição Republicana, ou quase." Mesmo prisioneira, D. Maria não perde a sua altivez.

Em novembro desse ano, porém, a "Carta" é restaurada o que traz alguma tranquilidade ao reino. D. Maria engravida pouco antes de fazer os 18 anos, dando assim um descendente ao trono de Portugal - D. Pedro - que nasce em setembro de 1837. Em outubro do ano seguinte nasce Luís. O excesso de peso da rainha começa a dar que falar, além da sua impulsividade e pela quebra de protocolos. Em outubro de 1840, a rainha dá à luz uma bebé sem vida a quem chama de "pequenina Maria da Glória." Vitória por seu lado, havia também casado e, apesar de referir nas suas cartas que não desejava ter filhos, a verdade é que os seus filhos nascem saudáveis. Esta troca de correspondência é bastante assídua.

É nesta corte que nasce também uma forma diferente de celebrar o natal, onde é "São Nicolau" que vem distribuir os presentes às crianças, depois da Missa do Galo.

Conhecemos também outra figura importante, Costa Cabral, que, politicamente, acaba por ter grande influência nas decisões tomadas por D. Maria II. Em 1846, dá-se a revolta da Maria da Fonte e o que havia começado por uma revolta contra a proibição de enterrarem os seus mortos dentro das igrejas, passa a ser uma rebelião contra a ditadura política e a exploração económica de Costa Cabral. Em 1849 a rainha afasta-se de todos os seus outros filhos uma vez que existe um surto de rubéola que a pode matar ou ao bebé. No entanto, o bebé acaba mesmo por ser um nado-morto. Algum tempo depois, a rainha acaba por adoecer e ao examiná-la, o médico, Drº Kessler, decide ter de a operar o que na época era extremamente perigoso e feito sem qualquer recurso a anestesia. A rainha aguenta mas perde muito sangue.

A família refugia-se em Mafra, na Tapada das Necessidades, onde se tenta afastar um pouco dos problemas da capital. Isso faz com que haja rumores de que a rainha iria abdicar do trono no seu pequeno Pedro. Em setembro de 1850, a rainha recebe a notícia da morte de Leonor da Câmara, marquesa de Ponta Delgada. Pouco tempo depois, recebe a notícia da morte do Duque de Palmela, "D. Pedro de Sousa Holstein", pai de Domingos.

D. Maria II acaba por morrer no seu 9º parto, possivelmente devido ao excesso de peso e a problemas de coração que já tinha vindo a manifestar. No entanto, esta morte precoce não nos deve afastar do facto de que foi sempre uma rainha presente e que se tentou manter sempre na linha da frente das decisões sobre o destino do país, não deixando que ninguém governasse por ela. D. Fernando também teve aqui um papel importante, mostrando sempre o amor à sua esposa, mesmo quando com ela discordava. Apesar deste amor, é perceptível que D. Maria II nutria também alguns sentimentos por Costa Cabral, o que acaba por ser denunciado nas cartas que lhe escreve quando Costa Cabral é deportado para Espanha.

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...