quinta-feira, 8 de junho de 2023

Poesia... para meninos que morrem

Ser criança... neste mês que tantos festejam como sendo o mês da alegria e das crianças, há meninos sudaneses a morrer abandonados e sozinhos num orfanato. Crianças sem direitos, sem quem delas cuide, que morrem sem ninguém se importar.


É a eles que dedico hoje este poema que escrevi. Não valerá grande coisa, mas é entre lágrimas que o escrevo.


 



O teu olhar


 


No canto de um berço imundo


Numa casa já sem teto


Encontro o escuro profundo


De um olhar sem afeto.


 


No canto deste orfanato


Abandonado pelo mundo


Vive da morte o retrato


No teu olhar moribundo.


 


Moscas, ratos, serpentes,


Passeiam pelos teus pés.


Abandonado,


És os restos da sociedade


Que já não quer saber quem morre


Que se cala e não assume


Ainda tem de vir a lume


O sangue que em África escorre!



Elsa Filipe, junho de 2023

terça-feira, 6 de junho de 2023

"Lusitano Fado"

Luís Corredoura é o meu novo autor favorito. Depois de ler "Lusitano Fado", fiquei rendida à sua genialidade como escritor. O que é verdade e o que é apenas ficção nesta história? 


São relatos de sombras de um Portugal recente de histórias escondidas por detrás de outras histórias, de notícias que fizeram correr muita tinta e de escândalos nacionais que afinal talvez encubram outros crimes. Sabemos que o nosso país está cheio de histórias, mas Luís Corredoura, fez desta dualidade entre a verdade e a mentira uma teia tão intricada que só poderia dar um romance. Afinal, não se costuma dizer que a realidade por vezes supera a ficção?


O livro fala-nos de um professor de Filosofia, divorciado e com uma filha, que se vê envolvido numa tentativa de mancharem o seu nome na escola onde lecciona. Perante as acusações de uma aluna, acaba por ser suspenso durante algum tempo e é durante esse tempo que acaba por conhecer Rodrigo Lucas, que aos poucos lhe vai dando a conhecer alguns dos mais intricados episódios da história recente do nosso país. 


Sobre o prefácio do livro, diz-nos que a "justiça parece adormecida, perante um poder oculto, uma sociedade apática, um Portugal parco de virtudes públicas e com demasiados vícios privados. Mas há quem queira denunciar essa maré de corrupção, venalidades, falsos costumes e aparências que há muito se vê, sente e cheira. Tudo na vida tem um preço. Mas Alberto está disposto a tudo fazer para salvar a honra e divulgar a verdade, mesmo que isso implique o maior dos sacrifícios."


Sobre o autor, fiz uma pequena pesquisa que não me deu muito mais do que poderia descobrir pelo próprio livro. "É natural de Pêro Pinheiro, concelho de Sintra, onde nasceu em 1975. Arquiteto de formação e Mestre em Recuperação do Património Arquitetónico e Paisagístico, desde tenra idade que se empenha naquilo que designa como "projetos literários".


O escritor editou cinco originais: "Nome de Código Portograal" – Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica do Fórum Fantástico de Lisboa e Encouragement Award da European Science Fiction Society -, "Lusitano Fado" – livro RTP -, "O Senado – história de uma conspiração""A Recriação do Mundo""O Segredo de Wuhan"."


Fontes:


https://livros.reli.pt/livros/lusitano-fado/


https://www.wook.pt/livro/lusitano-fado-luis-corredoura/15951140


 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

E todos têm mesmo direito à educação?

No artigo 26º, diz a "Declaração Universal dos Direitos Humanos" que "Todos tem direito à educação" e refere também no artigo 14º da "Carta dos Direitos Fundamentais da UE", que "Todas as pessoas têm direito à educação, bem como ao acesso à formação profissional e contínua."


Ai, se isto fosse mesmo verdade...


Em Portugal, contabilizam-se "cerca de 6500 crianças que não têm as condições necessárias para estudar (dados do mais recente Relatório das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens)."


"O plano da Unicef passa por denunciar as situações que descreve como sendo “inaceitáveis” relativamente ao incumprimento do direito básico à educação."


Pelo mundo, são milhões as crianças que não têm acesso à educação. Muitas não vão à escola devido a graves situações de pobreza, mas há casos ainda mais graves...


De acordo com dados da UNESCO de 2016, "quase 16 milhões de meninas em todo o mundo, entre os 6 e os 11 anos," nunca irão à escola. Isto é verdade "sobretudo no mundo árabe, na África subsaariana e na Ásia meridional e ocidental."


Na África Subsaariana, são as meninas a ser "as primeiras a ver negado o direito à educação, apesar de todos os esforços realizados." São mais de "30 milhões de crianças com idade para estar na escola," que ainda não estão a ser "escolarizadas e, embora algumas venham a começar a estudar em idades mais avançadas, muitos serão privados dessa formação."


Esta problemática vai muito mais além da falta que faz o ensino básico. Estas crianças vão acabar "por trabalhar ilegalmente, são vulneráveis à exploração e mais facilmente recrutadas para grupos armados." As escolas em vez de servirem para dar aulas, servem como "abrigo para famílias deslocadas" e, outras, são atacadas por serem muitas vezes utilizadas "como base para combates." Os edifícios acabam completamente destruídos.


"A UNICEF adverte que se está á beira de perder uma geração inteira de crianças." 


Em vários países, como a "Síria, Iraque, Iémen e Líbia, perto de nove mil escolas estão sem condições para uma normal utilização e milhares de professores abandonaram a região, com medo." Se observarmos o que se passa nestes países, a guerra é sempre a causa para esta situação. "Mais de 8850 escolas na Síria, no Iraque, no Iémen e na Líbia não podem acolher alunos porque foram destruídas ou danificadas, porque servem de abrigo a famílias deslocadas ou estão ocupadas por beligerantes." Assim, é natural que, mesmo que as escolas estejam a funcionar, muitos pais optem por "não deixam os seus filhos ir à escola por razões de segurança."


Está assim posto em causa "um dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que a comunidade internacional acordou concretizar até 2030: uma educação inclusiva e de qualidade disponível para todos."


Fontes:


https://fra.europa.eu/pt/eu-charter/article/14-direito-educacao


https://marketeer.sapo.pt/unicef-lembra-que-ha-6500-criancas-em-portugal-sem-acesso-a-educacao/


https://criancasatortoeadireitos.wordpress.com/tag/criancas-sem-escolaridade/


https://www.abrilabril.pt/internacional/258-milhoes-de-criancas-no-mundo-nao-vao-escola


 


 


 


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Poesia... ser pequeno e querer ser grande!

Um poema que escrevi para dedicar a todas as crianças. Especialmente, àquelas que são obrigadas a crescer muito depressa, depressa demais e que não chegam a ter tempo de ser crianças. É que aquilo que vemos, nem sempre é o que parece e, tantas vezes, por trás do riso de uma criança, está um ser frágil, dorido e sofredor.


Parecia


Parecia mais pequeno

Que o polegar de uma mão.

Mas tinha um coração tão grande

Do tamanho de um gigante,

E um enorme coração.


Parecia pequenino

Mas não tinha medo não

Tinha uma alma tão grande

Do tamanho de um gigante

E um enorme coração.


E na sua cabeça havia

Fadas, monstros e um dragão

Parecia Fantasia

Mas era apenas alegria

E um enorme coração.


Brincava sozinho, coitado

Com as pedrinhas lá do chão

Constrói castelos, palácios

Onde moram belas princesas

Com um enorme coração.


Parecia ser frágil, pequeno

O menino, lá da cidade

Mas era apenas criança

De sonhos e de lembrança

A lutar p’la liberdade.

Elsa Filipe, 2023

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Apresentação do meu livro num ATL

Hoje fui a uma escola (ou melhor, ao ATL de uma escola) fazer a apresentação do livro que escrevi. E foi maravilhoso.


Ia com bastante receio que as crianças não gotassem - ou até que os adultos me olhassem com tom reprovador. Mas nada disso aconteceu. Preparei tudo com muito cuidado e ia receosa. Levava o meu computador, para poder projetar as imagens do livro enquanto falava e alguns livros para vender. Mas o nervosismo depressa passou e consegui fazer a apresentação do meu livro e, ainda mais do que isso, conversar com as crianças, responder às suas perguntas.


Acabei por ser muito bem recebida e por fazer três sessões ao todo, todas elas diferentes umas das outras. Cada grupo tinha uma faixa etária diferente e por isso a própria história também se foi adaptando na velocidade com que contava, nas perguntas que eu lhs fazia e nas respostas e comentários que eles me iam dando. Foi muito bom, estar ali a apresentar o meu próprio livro. Nestas coisas, eu sou muito insegura, porque acho que a reação dos outros vai ser negativa ou que não vou conseguir dar o meu melhor.


Agora já posso dizer que estou quase a terminar as vendas dos exemplares que tenho em casa e que se tiver mais horas do conto terei de encomendar mais. Lucro? Ainda não tive nenhum, só para que saibam como tenho sido apoiada pela editora, mas pronto, cá está o meu livro e quem o tem lido tem gostado muito. Os meninos até me deram ideias para eu continuar a escrever sobre a Vivi e sobre o seu dragão... mas sem apoio da editora para as vendas, não me arrisco tão cedo. Ainda estou a pagar um crédito que tive de fazer para editar o livro e, como devem compreender, isso torna tudo muito mais complicado. 


Se me apetece escrever?


Muito. Sobre tantas coisas diferentes. Tenho tantas ideias... tanta coisa começada que espera nos cadernos ou em folhas soltas para ter um destino. Talvez se acabem por perder por aí.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

"Crime Impune"

Na sequência de ter lido um dos livros de Simenon, escolhi este "Crime Impune" para conhecer um pouco mais sobre a obra do autor. Este livro, escrito em 1954 e editado cá em 1988, traz-nos em primeiro lugar a descrição de como era a vida dentro de uma pequena residencial, em Liége e dos seus hóspedes.


Nesta casa habita um hóspede peculiar, Elie, um Romeno que veio para Liége e que nutre uma especial e secreta simpatia pela filha da dona da casa. Elie leva uma vida recatada, que se resume à universidade, mas a chegada de uma personagem enigmática, vem alterar toda a sua rotina. Zograffi não entende a língua e tem de ser Elie a fazer a função de tradutor, tarefa que não o satisfaz. 


Elie apercebe-se que Zograffi guarda um grande segredo no seu quarto encarnado e quando descobre do que se trata, começa a vê-lo como um opositor, um concorrente que tem de desaparecer. Mas apesar de fugir após ter cometido o crime que o liberta de Zograffi, o destino volta a reuni-los. 


Sem entrar em grandes pormenores, o autor leva-nos muitas vezes através dos pensamentos da personagem principal ao mais profundo da mente humana, onde nos surpreende com a justificativa que para Elie fazia todo o sentido cometer aquele crime. A personagem não se apresenta de forma alguma arrependida, pelo contrário, ele apenas deseja explicar-se, fazer com que a vítima entenda os motivos que o levaram a cometer o crime, como que atribuindo à vítima a culpa do dano.


Foi um livro fácil de ler, com uma tradução excelente e de uma enorme qualidade literária. No fim, fica a vontade de saber mais, com um final que apesar de não ser de todo inesperado, nos deixa a querer saber "e depois?"

sexta-feira, 5 de maio de 2023

"A Fada Oriana"

Este deve ser um dos contos mais lidos de Sophia de Mello Breyner Andresen. Publicado pela primeira vez em 1958, faz parte do PNL e é um dos livros de leitura obrigatória na disciplina de Português, dos alunos do 5º ano.


Composta por nove capítulos, conta a história de uma jovem Fada a quem é atribuída a tarefa de cuidar de uma floresta. Para o fazer, Oriana recebe da Rainha das Fadas uma varinha mágica que a ajudará a realizar os desejos de cada habitante da floresta, animais, plantas e homens. Oriana é uma "Fada Boa", e "bonita," que "vivia livre, alegre e feliz." 


Esta é uma obra riquíssima em recursos expressivos, visível nas diversas enumerações e adjetivações usadas para caracterizar as personagens e os espaços onde a ação decorre. Encontramos também várias repetições. Por exemplo, no aparecimento da "velha": "Era uma velha muito velha que vivia numa casa velhíssima," ou mais adiante no terceiro capítulo na frase "...havia espaço, espaço, espaço," ou em "Vi, vi, vi," na intervenção do "Espelho." Um outro exemplo de figura de estilo utilizada pela escritora, é a personificação, presente em "Os sofás e as cadeiras davam cotoveladas uns nos outros, as cómodas davam coices nas paredes..."


"A Fada Oriana", é uma belíssima obra destinada a crianças onde podemos encontrar nas fadas o "dom da proteção sobre os seres mais frágeis que vivem numa floresta,"  bem como as "peripécias de uma luta entre o bem e o mal," comuns neste tipo de narrativa. É uma história bonita, até divertida, mas que leva a que os leitores reflitam no que é certo ou errado, ou nas ações que cada um tomaria se estivesse perante as mesmas situações em que Oriana se foi encontrando ao longo da história.


Capa da 1ª edição


Capa da 1ª edição, 1958.


Fontes:


https://purl.pt/19841/1/1950/galeria/f1/foto1.html


https://www.fnac.pt/A-Fada-Oriana-Sophia-de-Mello-Breyner-Andresen/a644684


 

Quem foi Orwell?

O nome George Orwell é o pseudónimo de Eric Artur Blair, nascido em 1903 numa região que na época pertencia à Índia britânica. Eric viria a ...