terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal posto em verso



Natal

 

Por cá, a neve não cai

Mas ainda há natal.

Falta a árvore mas os presentes

Estão felizes, contentes,

Prontos para ofertar

Mas o que importa no fundo

Em qualquer natal do mundo

Não é ter... é estar!





Se o frio apertar

há uma manta quentinha,

Comida na cozinha,

se a fome espreitar

Pode faltar um certo luxo

Ou prendas caras até,

Mas não faltará amor

Não irão faltar abraços,

Aconchego e calor.





Podem faltar as fotografias

Amorosas ou pirosas

Mas as lembranças que ficam

Vêm do peito, do fundo,

Nos stories não vão brilhar.

São momentos, são memórias

Que nenhum tesouro do mundo

Pode algum dia pagar.

 

E numa caneca quentinha,

Que aquece o coração,

Um chá quente a fumegar

A enganar a solidão.

 

Haverá maior riqueza?

Só eu e os meus pensamentos,

Pois com eles tenho a certeza

Este natal, vou passar!




 




Elsa Filipe, dezembro de 2024


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

"A Rapariga do Casaco Azul"

Este livro fez-me lembrar outros livros. Mas na sua essênci, traz-nos algo de soberbamente diferente, um jovialidade e uma visão diferente da realidade de uma época dramaticamente marcada pelo sofrimento e pela morte e, sobre a qual, já tanto se escreveu e se disse.


A história passa-se no ano de 1943, em Amesterdão. Hanneke é uma jovem de apenas 18 anos, sobre cujos ombros recai a responsabilidade de ajudar a família a sobreviver. Depressa Hanneke aprendeu que traficar alguns bens é, naqueles dias, não um crime de que se arrependa, mas uma forma de sobrevivência. De bicicleta, ela percorre diariamente as ruas da cidade para conseguir encontrar alguns produtos. Quanto mais raros, mais perigosos são de conseguir, mas isso não a impede de continuar. Ela ajuda-se a si mesma, mas está também a ajudar os outros, embora a jovem o faça não por bondade mas pelo dinheiro que consegue e que leva para casa. No mundo que conhece, não há espaço para a fragilidade nem para a bondade: a guerra devasta tudo à sua volta e está cada vez mais próxima da sua porta.


Num desses dias, uma das clientes habituais de Hanneke faz-lhe uma revelação tão perigoso que ela não pode ignorar: naquela casa, uma jovem judia esteve escondida durante alguns dias, mas acabou por desaparecer sem deixar qualquer pista. Hanneke resiste àquilo que sabe que esta revelação lhe poderá saber, mas acaba por ser incapaz de virar a cara e ignorar o destino desta jovem.


Mirjam, é uma rapariga judia, mas dela Hanneke só sabe que, no dia em que desapareceu, vestia um casaco azul. Aos poucos, a jovem vai descobrindo que à sua volta muitos outros segredos se escondem e que, está longe de ser a única a fazer coisas ilegais. A surpresa vai aparecendo a cada página que viramos!


O que Hanneke ainda não sabe, é que ao procurar Mirjam, ela vai acabar por se colocar frente a frente com os seus próprios fantasmas e a sua vida nunca mais irá ser a mesma. As bombas podem ter destruído a sua vida, mas os remorsos que sente, destroem-na a cada dia um pouco mais.


Um livro que me agarrou desde a primeira página e que fica agora na lista dos melhores que li até hoje. Uma escritora que voltarei a procurar numa das próximas  vezes que regressar à biblioteca, certamente. E, de certa forma, um livro que recomendo para a faixa etária entre os 13 e os 18 anos, porque acho que os nossos jovens também precisam de saber o que se passou no mundo, especialmente na Europa e que lhes vai chegando a conta-gotas através dos livros de história com um filto que não deixa passar o choque com a verdadeira realidade.

sábado, 23 de novembro de 2024

"O comboio dos órfãos"

Duas histórias de vida... e tanto em comum entre duas mulheres de gerações diferentes. 


Vivian era Niahm, uma pequena emigrante irlandesa de 9 anos que em 1929 foi parar a Nova Iorque com a sua família. Tinha um lar onde, apesar de toda a pobreza, vivia com a sua família. Mas um devastador incêndio destrói tudo o que conhece e deixa-a sozinha no mundo. Niahm passa a ser apenas mais uma entre as centenas de crianças abandonadas em Nova Iorque e que acabam forçadas a embarcar no "Comboio dos Órfãos," um comboio que transporte crianças de cidade em cidade para que sejam adotadas. As que o são, passam a ter uma casa onde morar, mas são muitas vezes vítimas de trabalhos forçados e de escravatura, passam fome, frio e são maltratadas fisica e psicologicamente. Foi nesta situação que Niahm passou a maior parte da sua infância e juventude, tornando-se Dorothy e, mais tarde Vivian.


Molly Ayer é uma jovem que vive revoltada, inserida num sistema que não a consegue ajudar a integrar-se numa família que verdadeiramente a ame e a acolha, conhecendo apenas a rejeição das famílias de acolhimento por onde passa. Os livros são para ela um escape e numa atitude impensada, acaba por roubar um livro de uma biblioteca o que a leva a uma complicada situação, da qual sabe que ninguém a defenderá. Mas talvez esse erro lhe venha a abrir uma nova porta e a sua vida esteja prestes a mudar. Castigada com cinquenta horas de trabalho comunitário, Molly acaba por ir para a casa de Vivian, uma idosa que precisa libertar-se dos seus fantasmas e das lembranças que a assombram, uma tarefa na qual a Molly irá ter um papel preponderante.


Posso-vos dizer que foi um dos melhores livros que li até agora e recomendo a que o leiam. Além da maravilhosa história de amizade entre duas mulheres que poderiam ser avó e neta, é sem dúvida um livro que nos leva até uma época em que tantos procuraram o sonho americano e acabaram por fracassar. Para quem gosta de romances históricos, neste encontramos relatos adaptados de acontecimentos entre os finais do século XIX e meados do século XX, incluindo o envolvimento dos EUA na 2ª Guerra Mundial. É excelente a forma como a autora interliga duas realidades tão diferentes e de épocas tão distantes.


No final do livro encontramos também alguns esclarecimentos sobre a Associação que na época era responsável por estas crianças e por estas adoções, a Children Aid (a qual foi fundada em 1853 por Charles Loring Brace). O último comboio terá feito a sua derradeira viagem carregado de crianças para adoção em 1929.

sábado, 16 de novembro de 2024

"A fuga de Auschwitz"

Este livro foi escrito por Joel C. Rosenberg e conta a forma como um grupo de prisioneiros organizou e pôs em prática uma das mais importantes fugas aos horrores de Auschwitz. A história é inspirada em relatos reais de presos e deportados e nas histórias dos poucos que conseguiram escapar a este genocídio. Talvez por eu gostar de saber o como e o porquê de determinados momentos da história, este livro me tenha desde logo agarrado às primeiras páginas.


Começamos por conhecer as principais personagens e a forma como cada uma delas acabou dentro destes campos de extermínio e ficamos logo a perceber que não foram apenas judeus a ir parar a estes campos, embora estes fossem de facto a grande maioria. Um plano para deter um dos comboios que transporta prisioneiros para Auschwitz acaba por correr mal, mas é dentro dos campos que se tornaa realmente visível a chocante realidade. 


Este livro permite-nos entrar (tal como aconteceu na "Bibliotecária de Auschwitz") nos horrores escondidos por trás dos muros dos campos de concentração, e compreender como é que aqueles homens e mulheres se empenhavam numa luta desigual para sobreviver. Mostra-nos a coragem daqueles que tentaram escapar aos nazis e denunciar aquilo que se passava nos campos de concentração e que estava escondido dos olhos do mundo.


Foram precisas várias tentativas e muitas provas para que finalmente alguém abrisse os olhos e compreendesse que aqueles não eram apenas campos de trabalho e que milhares estavam a ser mortos de forma brutal e indiscriminada. Um livro que aconselho a quem gosta de ler sobre este tema, mas também a quem se encontre a estudar a 2ª Guerra Mundial e o Genocídio. Um choque brutal de realidade e de certeza de que não podemos deixar que nada que se pareça mesmo que de longe com isto, se venha um dia a repetir.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

"A Bibliotecária de Auschwitz"

Procurei este livro por me ter sido recomendado num grupo de leitura e a verdade é que me surpreendeu pela positiva, superando as minhas expetativas. Auschwitz foi um dos campos que a Alemanha nazi construiu entre 1933 e 1945. Estas construções tinham várias finalidades, desde a detenção à escravatura. Mas o que se acabaram por revelar, foram campos para o extermínio em massa. Milhares e milhares de pessoas morreram nestes campos. 


Este livro conta-nos a história de uma das milhares de meninas cuja infância foi interrompida e que se viram presas num lugar imundo, sem nenhumas condições de saúde, habitabilidade ou salubridade, a passar fome e a ver os que a rodeiam morrer. No meio da desgraça em que a sua vida se tornou, esta menina cresce e torna-se uma jovem que, apesar de todo o mal que a rodeia, mantém o seu foco nos outros em especial na sua família que, como ela, estão presos em Auschwitz.


No meio da desgraça e da lama imunda deste lugar, um homem conseguiu erguer algo que se assemelha a uma escola e que dá às crianças alguma distração e esperança, lhes permite continuar a seguir uma rotina mais parecida com o normal. Naquele lugar podem aprender e podem ouvir histórias contadas por "livros vivos". Mas são os livros verdadeiros, com páginas rasgadas e muito manuseados que vão devolver a esperança a Edita. Livros esses que devem ser escondidos, pois a sua presença não é permitida pelos nazis, mas também protegidos, pois naquele lugar são um tesouro raro. A jovem e corajosa Edita esconde debaixo do seu vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu.


Este livro mostra-nos que até no meio da maior desgraça que terá um dia acontecido à humanidade, esta mesma humanidade pode continuar a existir enquanto houverem pessoas corajosas como estes professores, como Edita e como tantos outros que, de uma forma ou de outra reagiram. Os livros, objetos proibidos, podiam ser a sua morte, mas morreriam mais depressa se deixassem que a desumanidade daquele lugar os impedisse de ser quem eram - mesmo que esse fosse o objetivo principal do campo, a sua anulação como pessoas.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

"A Corporação Invisível"

O livro chegou-me às mãos por acaso, abandonado à sua sorte junto com outros livros usados mas em bom estado. "A Corporação Invisível" pode ser considerado um romance policial e foi escrito por Luís Sítima e por Hugo V. Costa.


Este livro narra a história de um homem, de nome Charlie (ou Carlos Anderson dos Santos, de seu "verdadeiro" nome) que lidera uma das maiores farmacêuticas do mundo, com sede na cidade de Londres. O seu desaparecimento parece deixar todos "chocados", mas a notícia é abafada pelos sedus pares que contratam um detetive privado para descobrir o seu paradeiro. O final, será de certeza o menos esperado.


Um investigador é contratado e tem ao seu dispor todos os meios para seguir as pistas que o poderão levar até Charlie. O português, chega a Londres e embarca nesta viagem cheia de mistérios e segredos entrançados na própria história. Poderá um escrito com raízes no antigo Egito ser a chave para a descoberta do paradeiro de Charlie? Uma conspiração global, uma sociedade secreta, códigos de origens milenares... este livro, que alguns consideram como um thriller, acaba por nos levar a pensar sobre o que é verdade e mentira, a refletir sobre as relações humanas e sobre o poder que muitas empresas e organizações têm no mundo. Mas não deixa de ser uma obra de ficção e, o final, como eu referi, é inesperado, embora na prática o livro acabe por nas capítulos finais começar a fugir àquilo que ia prometendo e, talvez por eu esperar outro fim para as personagens, me deixou um pouco desiludida.


Sobre o que não gostei... as muitas vezes em que os autores optaam por escrever palavras em inglês, tendo o livro sido escrito por portugueses e a personagem principal sendo portuguesa, penso que na maioria das vezes, essa opção seria desnecessária. Apresentado como um livro sobre uma "conspiração", não deixa de ser também um livro que fala de gestão, iniciando cada capítulo com acontecimentos ligados aos sete pecados capitais. Se algumas informações podem fazer sentido, outras parecem ter sido ali colocadas apenas para encher e nada nos trazem de valor à história.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Cultivar os hábitos de leitura

Numa sociedade cada vez mais ligada às novas tecnologias, em que crianças e adultos passam largas horas, agarradas aos ecrãs, é presiso plantar livros, regar momentos de leitura e cultivar os melhores frutos: de crianças que contatam com livros nascerão melhores leitores.


Ser um bom leitor não é ler muitos livros. Muito menos ler tudo o que aparece. Ou ler o que os outros leram ou porque assim somos obrigados. Não precisamos de ler todos o mesmo porque não gostamos todos das mesmas coisas. Quando a criança se torna leitora, ela já terá tido um primeiro contato com os livros e com as histórias. Já terá escutado uma história, ouvido um poema, repetido uma lengalenga. Antes das primeiras palavras serem lidas, existe um contato físico com o livro que não pode ser medroso, mas sim prazeiroso, simples, natural e repetido. Repetitivo.


Tanto como o gesto de pegar num telemóvel e desbloquear o seu ecrã, deveria ser o gesto de abrir e desfolhar um livro. Não devíamos achar normal uma criança estar durante horas a ver vídeos, refém de rápidas sucessões de imagens, de histórias inacabadas, sem no entanto ter paciência para ler até ao fim de um parágrafo, de terminar uma página ou de querer ficar acordada até tarde para saber o final da história.


Passo por isto diariamente. Poucos são os jovens e as crianças que têm consigo um livro na mochila - e quando têm, só alguns o puseram lá por iniciativa própria - e menos são aqueles que se sentam a ler. Atrasa-se o desenvolvimento da escrita. Diminui o vocabulário que conhecem - é impressionante a quantidade de palavras que um jovem de 12, 13 anos ainda desconhece! 


Interpretar um provérbio? Quantos o conseguem? Ler pausadamente, com entoação, com emoção, muito poucos o fazem. Compreender o que leram, serem críticos, dizer com a verdade a sua opinião sobre um determinado assunto e justificá-la de forma coerente, é para muitos alunos uma tarefa hercúlea! Falta sensibilização aos livros! Faltam visitas às bibliotecas municipais! 


Aceito sugestões! O que é que se pode fazer quando, aos 14 anos, um aluno nos diz que não se lembra qual foi o último livro que leu? Ou quando outro, não se lembra de ter lido um livro até ao fim (sozinho, sem ser lido pelos pais ou por alguém quando eram mais novos...). Assustador.


Mas nem tudo é mau. Ontem, descobri que alguns dos meus alunos andavam a ler "O Diário de Anne Frank" e "O rapaz do Caixote de Madeira"... e que quando se trata de futebol, um dos meus alunos se agarra e "devora" com avidez um livro que lhe foi oferecido pelo aniversário e sobre o qual já consegue, com alguma orientação, emitir a sua opinião e escrever um breve texto de opinião. Fiquei feliz, muito feliz. Afinal... ainda há esperança!


 


 

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...