Neste romance da já conhecida Isabel Stilwell continuamos a acompanhar a vida na corte portuguesa, desta vez através da vida de D. Maria I, que como o sub-título deste romance tão bem nos indica, foi uma "rainha atormentada por um segredo que a levou à loucura." Mas sobre o segredo, nada digo, pois têm mesmo de ler o livro de uma ponta à outra.
A edição que li é igual à da imagem que aqui vos deixo e nesta capa estão duas pessoas representadas: D. Maria I, a primeira rainha de Portugal, e Rosa, sua aia e amiga. E é muito importante que Rosa aqui esteja representada, pois ela acaba por ter um importante papel no decorrer deste história, além de representar - neste livro - um grupo de pessoas que foram exploradas e maltratadas ao longo dos tempos. Ao lermos esta obra, iremos perceber que apesar de criados (escravos, na realidade, em muitos dos casos), estas pessoas acabam por ser vistas como raridades, troféus (objetos), quase peças de uma coleção que se quer mostrar.
Do que conheço de D. Maria, ela ficou conhecida por ter sido a primeira rainha de Portugal (a primeira a verdadeiramente reinar). Isabel Stilwell começa este seu romance com uma pequena citação de Emm Roy (conhecida pelas suas ilustrações alusivas à saúde mental), que nos dá o mote para o encadeamento deste romance. Como os anteriores, também este se divide em várias partes e os capítulos estão bem demarcados cronologicamente.
Na primeira parte, é-nos apresentada uma Maria ainda jovem, que irá assumir o trono depois da morte de D. José, seu pai (1777) e de duas das suas filhas (1776 e 1777), vítimas de um surto de sarampo.
Como primeira numa linha de sucessão composta só por mulheres e casada com D. Pedro III, seu próprio tio, irmão de D. José I, não lhe resta senão erguer-se perante tamanho desafio, num reinado deste logo assombrado por alguns acontecimentos. Se por um lado, D. Pedro III é odiado por Carvalho e Melo, por outro, é o Marquês que desempenha um papel crucial no reerguer do país depois do terramoto de 1755, na expulsão dos jesuítas de Lisboa e no processo que levaria ao suplício dos Távora.
Tudo isto acaba por levar ao descontentamento da população contra a família real que habitava, à época, na Real Barraca da Ajuda, depois de ter sobrevivido ao terramoto por estar alojada na chamada Quinta dos Bichos (hoje Palácio de Belém).
A decisão sobre a condenação dos Távora, acusados de prepararem um atentado contra D. José I (e que nunca se chegaria sequer a realizar) foi mantida até ao leito de morte de D. José I e, por isso, essa teria sido uma das suas "vontades" que deveria ser realizada e à qual D. Maria I, enquanto sua sucessora e apesar de não acreditar na culpa dos condenados, não se conseguiu opor. Consegue, apesar de tudo, demitir Carvalho e Melo, que se exila na vila de Pombal.
A rainha-mãe, D. Mariana Vitória, aconselha D. Maria a apoiar-se em D. José, no neto (e filho de D. Maria) que entretanto se havia casado com a própria tia, Maria Benedita.Mas Maria I não acha prudente dar tanto poder à irmã e este é apenas um dos diversos assuntos em que mãe e filha discordam.
É feita ainda referência a Pina Manique, responsável pela fundação da Real Casa Pia (a partir de um projeto de sua autoria) e das melhorias feitas na iluminação pública em Lisboa, tornando a cidade mais segura com a instalação "se tudo corresse bem" de "770 candeeiros."
Voltando à "anã Rosa", é a ela que cabem alguns dos comentários às práticas sociais da época (quase que funcionando como um bobo das cortes medievais, sem realmente o ser), descrevendo-nos o estilo de vida, sob um diferente ponto de vista.
Será, no entanto, um embaixador estrangeiro a mostrar-nos a vida política. Robert Walpole, embaixador da Grã-Bretanha em Portugal, casa com uma portuguesa de nome Diana de quem vem a ter um filho varão.
Em 1781, morre a rainha-mãe, Mariana Vitória, que apesar do título nunca chegou verdadeiramente a reinar (era uma infanta espanhola) e é só com a partida da mãe que a rainha D. Maria I, pede a revião do processo dos Távora. Vários anos passados da sua morte, são considerados inocentes e a culpa, na opinião de D. Maria I não é de outro senão do "duque de Aveiro" (Marquês de Pombal) e "dos seus cúmplices." As lembranças dos "autos de fé" a que fora obrigada pelo "avô João" a assistir, atormentam-na.
E aqui conhecemos outra interveniente de peso, Teresa de Melo. Uma mulher que havia vivido e crescido na casa de Mariana Vitória e que se tornaria amiga de D. Maria. Mais tarde, seria nomeada "priora da Estrela". Maria e Teresa trocam ao longo da vida dezenas de cartas nas quais partilham um segredo: as visões de Teresa. Estas visões poderiam levar à condenação de Teresa de Melo e Maria sabe-o tão bem, que quando ela mesma começa a ter visões, as esconde, temendo ser impedida de continuar a governar.
É a Teresa de Melo que cabe a abertura da segunda parte deste romance (que se inicia em 1784), havendo também aqui nova referência ao problema da saúde mental. A família real faz uma viagem em visita ao cabo Espichel, sendo descrita a capelinha da Nossa Senhora do Cabo (da qual cheguei a conhecer os azulejos azuis e brancos que são aqui referidos) e as peregrinações aí realizadas. São ainda referidas as "pegadas" que o povo acreditava tratar-se ser da mula que tinha ajudado "a virgem com o menino ao colo" e que hoje se sabe serem pegadas de dinossauros que ali terão passado muitos milhões de anos antes. Fala-nos do "Círio", das viagens por mar e por terra, da igreja "de duas torres" e do santuário que lhe dá continuidade, não se esquecendo das "barraquinhas armadas" ao seu redor. A festa a que é feita referência seria a Festa em Honra de Nossa Senhora do Cabo e que agora ocorre em finais de setembro. É ainda referida a Nossa Senhora de Arrábida e a capela a ela dedicada em Calhariz.
A filha de D. Maria I, tem agora 16 anos e irá casar com João, de 17 (sendo referida a ponte construída cobre o "Caia" e a "troca" realizada entre as Casas reais espanhola e a portuguesa.
Entretanto, a mulher de Robert acaba por morrer no parto do segundo filho do casal e Robert conhece Sofia Stert ue passa a ser ama dos seus filhos e, posteriormente, sua esposa.
Neste romance, são ainda feitas diversas referências ao Entrudo e à forma como esta festa pagã começa a ser parte integrante das tradições da corte portuguesa.
É ainda durante esta segunda parte que a infanta Mariana* casa com Gabriel, um infante espanhol, enquanto que o irmão irá casar com D. Carlota Joaquina, repetindo-se de certa forma, a troca de princesas realizada anos antes. Carlota é uma criança de 10 anos quando chega a Portugal e é vista como mimada e desobediente. Robert chega a referir que "os espanhóis" querem ver no trono português a infanta Carlota.
A terceira parte começa em 1787 com uma interessante conversa entre o embaixador, Robert Walpole, e o recém chegado representante da corte francesa, o "marquês de Bombelles". Mais uma vez, o encadeamento entre a realidade histórica e os diálogos criados, demonstra o brilhantismo da escritora.
Há referências também a Beckford, um inglês de renome, mas que é acusado de ser abusador de crianças e que teria combinado "com uma criatura pouco escrupulosa", levar a sua casa um jovem seminarista com quem terá mantido relações sexuais.
Um outro facto aqui apresentado é a controversa abolição do "imposto sobre o bacalhau", mas é sobretudo sobre a varíola que a discussão se vai reacender.
A "variolização" (como era conhecida a inoculação do vírus da varíola) é já algo normal na Grã-Bretanha, mas enquanto que D. Maria - mais ligada à Academia de Ciências - achava que se devia seguir a regra inglesa, Teresa de Melo - mais ligada às ideias da igreja - defendia que podia ser perigoso. Pouco depois, o infante D. José acaba por morrer com apenas 27 anos, vítima de varíola e sem deixar sucessão. É a D. João, príncipe do Brasil, que como único homem restante, cabe assumir o trono de Portugal.
O ano de 1788 é, de facto, negro. A infanta Mariana dá à luz o seu segundo filho, mas acaba por morrer (ao que se sabe também devido ao surto de varíola). Dias depois, morre o seu bebé recém-nascido e o pai Gabriel. Fica vivo o pequeno Pedro Carlos que D. Maria I teme que tenha um mau destino por ser português e não ter ninguém que o proteja. É neste ano que D. Maria I começa a sucumbir à loucura, embora ela se tivesse manifestado anteriormente em episódios pontuais.
Apoiando-se na amiga de longa data, Teresa de Melo, trava uma luta contra si mesma e contra as "vozes" que a atormentam e que se agravam com a morte de Frei Inácio, a 29 de novembro do mesmo ano.
Na quarta parte é referida a "armadilha" montada para que D. Maria seguisse as "vontades" do seu prior, mas Teresa de Melo acaba por lhe mentir e dá-lhe o nome de D. José Maria de Melo (seu sobrinho e bispo do Algarve) para sucessor de Frei Inácio, cujo pedido havia sido outro.
* Quando tentamos seguir a Cronologia apresentada no inicio do livro, constatamos que tendo nascido em 1768, Mariana faria 18 anos quando em 1786 escreve à mãe sobre o seu medo do parto. Adiante, aquando do nascimento do seu segundo filho em 1787, já na 3ª parte do romance, a rainha D. Maria refere que a filha tem 18 anos "quase dezanove" o que passa a estar correto se pensarmos que ela nasceu em 1768.
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