Na primeira parte, é-nos apresentada uma Maria ainda jovem, que irá assumir o trono depois da morte de D. José, seu pai (1777) e de duas das suas filhas (1776 e 1777), vítimas de um surto de sarampo.
Como primeira numa linha de sucessão composta só por mulheres e casada com D. Pedro III, seu próprio tio, irmão de D. José I, não lhe resta senão erguer-se perante tamanho desafio, num reinado deste logo assombrado por alguns acontecimentos. Se por um lado, D. Pedro III é odiado por Carvalho e Melo, por outro, é o Marquês que desempenha um papel crucial no reerguer do país depois do terramoto de 1755, na expulsão dos jesuítas de Lisboa e no processo que levaria ao suplício dos Távora.
Tudo isto acaba por levar ao descontentamento da população contra a família real que habitava, à época, na Real Barraca da Ajuda, depois de ter sobrevivido ao terramoto por estar alojada na chamada Quinta dos Bichos (hoje Palácio de Belém). A decisão sobre a condenação dos Távora, acusados de prepararem um atentado contra D. José I (e que nunca se chegaria sequer a realizar) foi mantida até ao leito de morte de D. José I e, por isso, essa teria sido uma das suas "vontades" que deveria ser realizada e à qual D. Maria I, enquanto sua sucessora e apesar de não acreditar na culpa dos condenados, não se conseguiu opor. Consegue, apesar de tudo, demitir Carvalho e Melo, que se exila na vila de Pombal.
A rainha-mãe, D. Mariana Vitória, aconselha D. Maria a apoiar-se em D. José, no neto (e filho de D. Maria) que entretanto se havia casado com a própria tia, Maria Benedita.Mas Maria I não acha prudente dar tanto poder à irmã e este é apenas um dos diversos assuntos em que mãe e filha discordam. É feita ainda referência a Pina Manique, responsável pela fundação da Real Casa Pia (a partir de um projeto de sua autoria) e das melhorias feitas na iluminação pública em Lisboa, tornando a cidade mais segura com a instalação "se tudo corresse bem" de "770 candeeiros."
Voltando à "anã Rosa", é a ela que cabem alguns dos comentários às práticas sociais da época (quase que funcionando como um bobo das cortes medievais, sem realmente o ser), descrevendo-nos o estilo de vida, sob um diferente ponto de vista. Será, no entanto, um embaixador estrangeiro a mostrar-nos a vida política. Robert Walpole, embaixador da Grã-Bretanha em Portugal, casa com uma portuguesa de nome Diana de quem vem a ter um filho varão.
Em 1781, morre a rainha-mãe, Mariana Vitória, que apesar do título nunca chegou verdadeiramente a reinar (era uma infanta espanhola) e é só com a partida da mãe que a rainha D. Maria I, pede a revião do processo dos Távora. Vários anos passados da sua morte, são considerados inocentes e a culpa, na opinião de D. Maria I não é de outro senão do "duque de Aveiro" (Marquês de Pombal) e "dos seus cúmplices." As lembranças dos "autos de fé" a que fora obrigada pelo "avô João" a assistir, atormentam-na.
E aqui conhecemos outra interveniente de peso, Teresa de Melo. Uma mulher que havia vivido e crescido na casa de Mariana Vitória e que se tornaria amiga de D. Maria. Mais tarde, seria nomeada "priora da Estrela". Maria e Teresa trocam ao longo da vida dezenas de cartas nas quais partilham um segredo: as visões de Teresa. Estas visões poderiam levar à condenação de Teresa de Melo e Maria sabe-o tão bem, que quando ela mesma começa a ter visões, as esconde, temendo ser impedida de continuar a governar.
É a Teresa de Melo que cabe a abertura da segunda parte deste romance (que se inicia em 1784), havendo também aqui nova referência ao problema da saúde mental. A família real faz uma viagem em visita ao cabo Espichel, sendo descrita a capelinha da Nossa Senhora do Cabo (da qual cheguei a conhecer os azulejos azuis e brancos que são aqui referidos) e as peregrinações aí realizadas. São ainda referidas as "pegadas" que o povo acreditava tratar-se ser da mula que tinha ajudado "a virgem com o menino ao colo" e que hoje se sabe serem pegadas de dinossauros que ali terão passado muitos milhões de anos antes. Fala-nos do "Círio", das viagens por mar e por terra, da igreja "de duas torres" e do santuário que lhe dá continuidade, não se esquecendo das "barraquinhas armadas" ao seu redor. A festa a que é feita referência seria a Festa em Honra de Nossa Senhora do Cabo e que agora ocorre em finais de setembro. É ainda referida a Nossa Senhora de Arrábida e a capela a ela dedicada em Calhariz.
A filha de D. Maria I, tem agora 16 anos e irá casar com João, de 17 (sendo referida a ponte construída cobre o "Caia" e a "troca" realizada entre as Casas reais espanhola e a portuguesa. Entretanto, a mulher de Robert acaba por morrer no parto do segundo filho do casal e Robert conhece Sofia Stert ue passa a ser ama dos seus filhos e, posteriormente, sua esposa.
Neste romance, são ainda feitas diversas referências ao Entrudo e à forma como esta festa pagã começa a ser parte integrante das tradições da corte portuguesa. É ainda durante esta segunda parte que a infanta Mariana* casa com Gabriel, um infante espanhol, enquanto que o irmão irá casar com D. Carlota Joaquina, repetindo-se de certa forma, a troca de princesas realizada anos antes. Carlota é uma criança de 10 anos quando chega a Portugal e é vista como mimada e desobediente. Robert chega a referir que "os espanhóis" querem ver no trono português a infanta Carlota.
A terceira parte começa em 1787 com uma interessante conversa entre o embaixador, Robert Walpole, e o recém chegado representante da corte francesa, o "marquês de Bombelles". Mais uma vez, o encadeamento entre a realidade histórica e os diálogos criados, demonstra o brilhantismo da escritora.
Há referências também a Beckford, um inglês de renome, mas que é acusado de ser abusador de crianças e que teria combinado "com uma criatura pouco escrupulosa", levar a sua casa um jovem seminarista com quem terá mantido relações sexuais.
Um outro facto aqui apresentado é a controversa abolição do "imposto sobre o bacalhau", mas é sobretudo sobre a varíola que a discussão se vai reacender. A "variolização" (como era conhecida a inoculação do vírus da varíola) é já algo normal na Grã-Bretanha, mas enquanto que D. Maria - mais ligada à Academia de Ciências - achava que se devia seguir a regra inglesa, Teresa de Melo - mais ligada às ideias da igreja - defendia que podia ser perigoso. Pouco depois, o infante D. José acaba por morrer com apenas 27 anos, vítima de varíola e sem deixar sucessão. É a D. João, príncipe do Brasil, que como único homem restante, cabe assumir o trono de Portugal.
O ano de 1788 é, de facto, negro. A infanta Mariana dá à luz o seu segundo filho, mas acaba por morrer (ao que se sabe também devido ao surto de varíola). Dias depois, morre o seu bebé recém-nascido e o pai Gabriel. Fica vivo o pequeno Pedro Carlos que D. Maria I teme que tenha um mau destino por ser português e não ter ninguém que o proteja. É neste ano que D. Maria I começa a sucumbir à loucura, embora ela se tivesse manifestado anteriormente em episódios pontuais. Apoiando-se na amiga de longa data, Teresa de Melo, trava uma luta contra si mesma e contra as "vozes" que a atormentam e que se agravam com a morte de Frei Inácio, a 29 de novembro do mesmo ano.
Na quarta parte é referida a "armadilha" montada para que D. Maria seguisse as "vontades" do seu prior, mas Teresa de Melo acaba por lhe mentir e dá-lhe o nome de D. José Maria de Melo (seu sobrinho e bispo do Algarve) para sucessor de Frei Inácio, cujo pedido havia sido outro.
Notas:
* Quando tentamos seguir a Cronologia apresentada no inicio do livro, constatamos que tendo nascido em 1768, Mariana faria 18 anos quando em 1786 escreve à mãe sobre o seu medo do parto. Adiante, aquando do nascimento do seu segundo filho em 1787, já na 3ª parte do romance, a rainha D. Maria refere que a filha tem 18 anos "quase dezanove" o que passa a estar correto se pensarmos que ela nasceu em 1768.
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