"A voz da Terra"

"A Voz da Terra", é um romance histórico escrito ao estilo muito próprio de Miguel Real. Na verdade, este é o pseudónimo de Luís Martins, nascido em Lisboa em 1953. Com a sua vasta obra, foi vencedor de diversos prémios literários, onde de destaca a ficção, o romance e o drama. Esta, foi distinguida com o Prémio Literário Fernando Namora.

O livro está dividido em três partes: " A cidade de Santo António", em que nos é descrita a chegada de "Julinho" a Lisboa e o seu primeiro contato com as tradições e os costumes do Portugal europeu, "A Voz da Terra" em que o ênfase é dado ao sismo de 1755 e à sua destruição e, por fim, "A Voz dos Homens", em que o autor dá maior destaque à execução dos Távora e aos Autos de Fé.

"Julinho" (Júlio Telles Fernandes) vem da Bahia, a bordo do "São Bartolomeu". Faz-se acompanhar de um velho "Santo António", e de Florentino. Na memória, traz a imagem dos "pretos acorrentados ao tronco na cafua," da casa do governador a ser incendiada, das "ruínas, escombros, pedras pretas, capim queimado," e da "pirâmide de corpos dos pontiguares a arder."

À sua chegada, entra num Tejo sujo, avermelhado pelo "sangue fresco" e pelas "enxúrdias" dos animais mortos no açougueiro do Terreiro do Paço e, depois, lançados às águas do rio. Assim, nos vai preparando para outras descrições mais longas e detalhadas, acima de tudo, realistas, daquilo que era Lisboa - "a cabeça do Império" - no século XVIII: uma capital imunda onde os dejetos eram atirados ao rio pelas "calhandreiras," e onde os animais mortos espalhados pelas ruas contrastavam com as fachadas e os pináculos das igrejas. Aliás, é esse o principal foco do autor: criticar a vida e os costumes de uma Lisboa atrasada no tempo, presa a crenças, submissa à igreja e onde prospera a corrupção.

O livro, de extensos capítulos compostos de longuíssimos parágrafos, alguns dos quais com mais de duas páginas e, um em específico a chegar às dez páginas, tornam-no num livro denso, mas que, no fundo, não considero ser de difícil leitura. É que apesar de ser composto de longas frases, e de uma pontuação que não segue as regras comuns, a narrativa adquire um ritmo próprio, pelo qual basta apenas um pouco mais de atenção para se siga sem se perder o fio à meada. Pelo meio, as conversas vão correndo em mistura com as descrições dos espaços, da vestimenta, dos adereços e dos próprios pratos que compõem as fartas refeições.

Por várias páginas se discutem os milagres atribuídos a Santo António (espanhol, venerado em Lisboa) em comparação aos de São Vicente, português e santificado em Itália, quase como que numa disputa sobre qual deles seria o melhor padroeiro da cidade.

"Julinho" apresenta-se com duas missões: a primeira, mais pessoal, é a de entregar um anel a Violante Dias, judia e prima da sua falecida esposa e descendente de Branca Dias, e a segunda, a de interceder junto do Marquês de Pombal pela independência de Pernambuco. Dela acaba por dar conta através da conversa com o Marquês para saber sobre a "disponibilidade para se iniciarem conversações tendente a uma possível independência de Pernambuco" proposta a que o ministro não reage bem. No entanto, o valor de "10 milhões de cruzados em 10 anos" parecem ser uma boa proposta para a resolução da situação, pois resolveriam "as dívidas d'el-rei."

São narrados diversos acontecimentos, como o naufrágio do Sepúlveda e as aventuras e desventuras de "D. Leonor de Sá" e do "capitão Sepúlveda", história que é narrada por um cego. Além disso, está também presente uma crítica à forma como os "cristãos-novos", os judeus e os escravos são tratados. Destaco também como marcante a descrição do incêndio no Hospital de Todos os Santos em que "homens de tronco nu" atiram os "cadáveres pelas janelas" e em que uns enfermeiros corriam a retirar "as crianças enjeitadas", enquanto outros, partiam as correntes que prendiam os "loucos" que li estavam agrilhoados ao chão, sem conseguirem salvar "Tobias" que se torna "uma tocha viva, retorcendo-se, preso à parede pelas cadeias."

É também descrita uma tourada, no "redondel" armado em pleno Terreiro do Paço em honra de Santo António e em que, incitado pela multidão, o "conde" encara o touro já assustado pela espada que lhe havia sido cravada no pescoço, e espeta-lhe "os dois punhais no cachaço." Esta é mais uma das mortes descritas de forma detalhada, tal como é de uma enorme brutalidade o que a seguir é feito a duas vacas que entram no redondel: "espetou-lhes bandeirinhas com petardos, atiçou-lhes fogo (...), as vacas revolutearam no ar (...) as bombas iam rebentando e as vacas, de dorso aberto, em carne viva, vomitando sangue, mugiam de pavor (...)". Através de "Julinho" é relembrado o respeito pelos animais a que ele assistiu no Brasil: "pediam desculpa ao boi quando o matavam por necessidade de comida (...) e aqui, estes lisboetas sandeus atam petardos à carne das vacas para se divertirem."

A descrição da procissão é feita numa única frase que chega praticamente às cinco páginas, como se o narrador o fizesse de apenas um fôlego desde "do povoléu, uma Lisboa clama," até "a imagem branca de Nossa Senhora Reparadora é deposta na Peanha (...), suplica futuro que o passado está morto e o presente é vazio."

Na terceira parte, "A Voz dos Homens" traz a renovação da fé da população de Lisboa, contrastando com os livros passados às escondidas entre os estudantes. Volumes de "Sandes" e de "Verney" que "desafiavam a filosofia escolástica dos jesuítas, única ensinada em Portugal", além de "Rousseau" e de "Montesquieu" ou, até de "A religiosa" de "Diderot," afirmando-se nos "subterfúgios" as ideias liberais, aclamava-se as ciências es proclamava-se "a igualdade entre todos os homens (...)".

Sobre o sismo, é descrita a violência dos abalos que derrubaram igrejas cheias de fiéis no Dia de Todos os Santos, casas arrasadas, dos palacetes destruídos, focando-se Miguel Real na descrição de um cenário de caos, em que se combinaram dois grandes eventos: o sismo e o tsunami que a este se seguiu, sendo bem visíveis o sofrimento, o desespero e a fuga desorganizada das pessoas. 

O povo é visto como uma grande turba de ignorantes que, aceita sem perguntas, as ideias "soberanas" e absolutistas. Os livros, que traziam novas perspectivas, eram considerados "ateus" e "revolucionários", e quem deles tivesse posse, podia ir parar ao "limoeiro" ou à "Junqueira". Sob medo do jugo divino, o povo mantinha-se quieto, não fosse repetir-se o sismo como forma de castigo.

Através da visão de "Julinho" se vê Lisboa a ser reconstruída. Fidalgos e burgueses erguiam os seus palacetes (embora menos faustosos do que já haviam sido) e o "povopéu" amontoava-se em tendas, em barracas ou ficava mesmo ao relento. Ao longo do romance o povo é referido como "povopéu", "povoquéu", "povobéu" e outras expressões. A fé deste mesmo povo é posta em análise, agora por "Smith" que tentava "perceber com um povo que estava levantando a maior praça da Europa (...) podia (...) encantar-se por uma arcaica e corroída estatueta (...)", e mais adiante em "mantinha-se calado (...) a superior capacidade portuguesa de idolatria e superstição, uma fortuna para se cultuar um pedaço de madeira em vez de se levantar um hospital, uma estrada real (...)".

É na terceira parte que são mortos os Távora e de Malagrida. Este último, da sua prisão em Setúbal, "desafiava D. José (...) o Ministro (...), Porão Escorço (...), arriscava a vida ," criticando o poder do "Ministro Carvalho cuja vontade é suprema na corte." Tal como em todas as outras descrições, a ida ao maior dos pormenores, estende a confissão e  morte dos condenados.

"Julinho" acaba por encontrar Violante e regressa com ela a Lisboa. Antes da sua partida é ainda contado o ataque feito à Trafaria, que resultaria na morte de Porão Escorço. O ataque havia sido mandado pelo próprio Marquês de Pombal e, durante o mesmo, a povoação é arrasada e as crianças atiradas o mar. Neste livro, assistimos à passagem de uma Lisboa imperial, absolutista e supersticiosa para uma Lisboa pombalina, mais racional e organizada, mas ainda com réstias da sua podridão inicial.

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