terça-feira, 31 de maio de 2022

Ler - criar novos leitores

Ensinar a ler é uma tarefa dos professores?


Sim.  Mas criar um leitor começa muito antes da entrada da criança para a escola, e não me estou a referir àqueles educadores que enchem as crianças de fichas para lhes ensinarem as letras aos 4 ou 5 anos. Ler é um processo de adaptação, eu diria até de amor. É um vínculo que se vai criando entre o leitor e o objeto lido.


Primeiro, leia para a criança, desde bebé, desde a barriga ainda!


É sensivelmente a partir do 4º mês de gestação que a audição do feto começa a desenvolver-se. Assim, quando lemos para o bebé na barriga, não se espera que ele entenda a história que está a ser contada. Estamos a oferecer tranquilidade, estreitamento de laços e fazer com que o bebé perceba que os pais estão próximos a ele.


A compreensão do mundo chega na primeira infância. Esta fase ocorre desde o nascimento até aos 6 anos de vida, e chega através dos sentidos e do afeto. Através dos livros, as crianças descobrem formas, cores e movimentos.


Conte-lhe histórias. Como tudo na vida, é difícil aprender qualquer coisa sem ser exposto a ela. O brincar, experimentar e imaginar desenvolvem o vocabulário da criança e quando o processo de aquisição da leitura e escrita se iniciar, já a criança foi apresentada às letras, palavras, frases e textos.


Leia livros que ela possa entender, contos, poesias e até as cantigas e lengalengas são importantes, pois todas possibilitam o contato com a língua materna, com a sua musicalidade, com a entoação das palavras. Enriqueça as histórias com expressões faciais, com sons de animais, com o sopro do vento e o balançar das árvores.


Os livros que envolvem os outros sentidos, além da audição, podem ajudar a criança a compreender a história conforme a ouve. Por exemplo: leia obras que tenham desenhos, páginas táteis, sons e até cheiros.


Leia livros que possam desafiar o raciocínio da criança, mas que não deixem de ter histórias interessantes. Que as façam questionar, perguntar muitas vezes porquê. A criança pode aprender a compreender antes mesmo de ler por conta própria. Conforme recita as histórias, questione-o sobre os personagens e o enredo. Aumente a dificuldade gradualmente.


Faça perguntas gerais sobre as histórias que lê para ajudar seu filho a desenvolver pensamentos críticos. Por mais que ele só vá conseguir dar respostas verbais complexas quando estiver com quatro ou cinco anos, basta ter um pouco de paciência.


Não adianta ter inúmeras obras em casa se elas ficam guardadas em locais que a criança não alcança. Deixe-as próximas ao chão, onde o pequeno costuma brincar, para que ele passe a associar a leitura com diversão.


Dê à criança livros com páginas resistentes (impermeáveis, por exemplo) e que não tragam histórias sentimentais demais — já que ele vai tocá-los e lê-los com frequência. Livros pop-up podem não ser ideais para crianças pequenas manejarem sozinhas por serem frágeis, mas podem ser usados com a ajuda de um adulto.


Embora pareça interessante montar uma estante, priorize a funcionalidade e a praticidade da organização dos livros. Monte uma área específica para leitura próxima à estante. Use pufes, almofadas e cadeiras confortáveis. 


E tal como em outras coisas, a criança aprende vendo o que nós adultos fazemos e imita! Seja um exemplo de comportamento. Passe pelo menos dez minutos de cada dia lendo para mostrar à criança que tal hábito é interessante e valioso. Diga-lhe quando vai ler e pergunte-lhe se lhe quer fazer companhia. Dê-lhe livros para que possa explorar sozinho, enquanto está a ler.  Mesmo que não goste de devorar obras, encontre algo simples — uma revista, um jornal, um livro de receitas, o que for, mas lembre-se que é no exemplo que está a maior aprendizagem! Se estiver a ler algo apropriado para crianças, conte-lhe! Além disso, aponte para termos da página que possam ajudá-lo a interligar o texto com os sons. 


Antes de começar a ensinar o alfabeto e detalhes de determinados sons, ajude a criança a entender que o texto nas páginas se relacionam diretamente ao que você está dizendo. Aponte para cada termo conforme recita a obra em voz alta para ajudar a criança a entender conceitos como pronúncia e entonação.


E a primeira parte está feita. Tem um potencial leitor em casa! Agora a curiosidade e alguma técnica associada irá fazer o resto. A aprendizagem será mais fácil se a leitura for um prazer e não uma obrigação!


 


Fontes:


https://pt.wikihow.com/Ensinar-Seu-Filho-a-Ler


https://www.academiavvv.com/importancia-leitura-na-primeira-infancia/


 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

"Os Náufragos do Amor"

Rui Araújo, jornalista e escritor,  tendo sido correspondente na RTP e integrou a equipa do programa Grande Reportagem. Na sua biografia, diz ainda ter sido o primeiro português a entrar em Timor depois da invasão. Colaborou também com as revistas Grande Reportagem (co-fundador, a revista deixa de ser publicada em dezembro de 2005), Visão, Nieman Reports (tendo sido o primeiro jornalista português admitido)e Marine's Mirror. Colabora agora com a TVI e com o jornal Le Point. É ainda o primeiro membro português ( desde 1997) do International Consortium of Investigative Journalists (nos EUA).


Perceber o seu grande percurso jornalistico, ajuda-me a entender a sua escrita. Direta, simples, sem grandes floreados. São os diálogos que nos levam pelos factos da narrativa. Do livro apenas não entendi a escolha do título. A história passa por um crime violento do qual resultou uma mulher baleada e um homem com um traumatismo craneano, o que começou desde logo a levantar dúvidas: violência doméstica, um assalto mal sucedido, um crime passional? O homem, Irlandês, marido ou amante? No local, as provas são observadas e é no decurso de cada procedimento que as próprias personagens (através do narrador que vai contando vários episódios vividos com e por cada uma delas) se vão dando a conhecer. Adorei a forma como ao mesmo tempo que o narrador nos leva de cenário em cenário, como diria, descrevendo cada "teatro de operações" de forma a nos sentirmos lá no local, vai também falando da sua vida pessoal, da forma como construiu as suas defesas, mas também dos seus medos, das suas falhas e dos seus desejos.


Confesso que para quem como eu já viveu nesse "mundo" (não através da perspetiva da PJ mas de uma outra perspetiva), a descrição dos cheiros do látex das luvas, dos sons metálicos das mensagens rádio, da gíria e do calão, me fizeram voltar a alguns locais de crime, de transportes de cadáveres, de muitas outras histórias que aqui poderia acrescentar. Foi uma surpresa este livro. Posso dizer que gostei e que irei procurar os outros romances policiais escritos pelo autor. Mais uma vez, a capa induz aqui em erro, não identificando este como um romance policial, mas apenas como "romance", ficando aqui a ressalva que não sou ninguém com conhecimentos na classificação dos romances, mas esta é apenas a minha opinião, sem críticas, apenas sugestiva de melhorias. 


 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Escrita...

Ontem era um semáforo,


que as impedia de passar, 


luz vermelha que dali a nada


em verde se ia virar.


Ms hoje, o vermelho é sangue,


o verde já não brilha mais,


está tudo negro, caído,


e são tanques que as param nas ruas,


pedras, barreiras infernais.


 


Ontem, era a campainha da escola


que as fazia correr.


Hoje, a sirene que toca,


alerta-as para as bombas que caem,


mísseis que não poupam ninguém,


e que as obriga a esconder


se hoje não querem morrer.


 


Ontem, os pais chamavam


para a mesa, para jantar!


Hoje, os pais choram e gritam,


enquanto as balas silvam, 


as bombas caem e todos têm de correr


se a vida querem salvar.


 


Ontem era a escola,


uma boneca, um carrinho!


Uma canção infantil, 


um hino, uma melodia!


Hoje, da vida que sobra,


amanhá pode não haver sinais


nem menino, nem menina,


nem ninguém que conte a história


desta guerra nos jornais.


Elsa Filipe

domingo, 24 de abril de 2022

Os vampiros

Podia colocar aqui muitas divagações, mas deixo isso para outras pessoas e outros locais. Coloco apenas uma das letras que mais esconde para os que não têm a capacidade de ver e de identificar quem são.


Os vampiros:


No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada [bis]

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos

Mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo

Dançam a ronda no pinhal do rei
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada


No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

sábado, 23 de abril de 2022

Dia Mundial do livro

Hoje num dos meus passeios descubro um frigorífico com livros. Sim, um frigorífico, junto a uma paragem de autocarros, cheinho de livros, prontos a quem quiser ler ali mesmo na paragem ou levar e depois devolver quando tiver terminado a leitura.


Pode ser uma imagem de livro


Tirei foto e, depois de publicar, apercebi-me que é Dia do livro. Faltava-me então dizer que já não há desculpas para não ler, mesmo sem se poder comprar livros, há sempre as bibliotecas e os frigoríficos com livros fresquinhos. Melhor, só se estivesse ao lado uma máquina de café e chocolate quente. As melhores tardes, são essas, de preguiça, com um bom livro e uma caneca com uma bebida quente.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

"Bala Santa"

Um thrillher emocionante de Luís Miguel Rocha, também autor de "A filha do Papa". Com uma fabulosa e envolvente narrativa, leva-nos a locais secretos, onde passamos pelos meandros das mais importantes organizações mundiais. Religião e política, uma nunca sem a outra, nenhuma delas sem o poder de querer fazer girar o mundo a seu bel prazer. Uma batalha de grandes titãs, de governos inteiros e de personalidades individuais. 


Um livro que além de explorar a questão da tentativa de assassinato de um Papa, nos leva muito mais longe. Emocionante e poderoso, assustadoramente atual e real. O que se conta passou-se mesmo, assim tal como está contado? Eu acredito que deve ter andado muito perto, apesar de toda a fição envolvida, há muita verdade escondida pelas entrelinhas. Os capítulos não eram demasiado extensos, embora se trate de um livro bem volumoso, o que ajuda e facilita a leitura. A construção do livro está magnífica.


Adorei o tom da escrita, as sequências dos acontecimentos, os esclarecimentos do autor que nos ajudavam a sentir dentro da história. Com personagens muito bem caraterizadas, com papéis bem definidos e interessantes, com cuidado na narrativa histórica que faz dos acontecimentos. 


 

quarta-feira, 30 de março de 2022

"O tesouro"

Voltando aos contos. 


"O tesouro" é um original de Eça de Queirós, que conta a história de três irmãos de Medranhos, chamados Rui, Guanes e Rostabalque, que encontram um tesouro. O "três" está muito presente na história e tem um grande simbolismo. São três irmãos, três chaves... e claro, neste conto está subjacente uma lição: é que no fim, vence o egoísmo e nenhum dos três consegue ficar com o tesouro. 


Este conto é um dos vários que encontramos no livro "Contos" de 1902. Eça notabilizou-se pela originalidade e riqueza do seu estilo e linguagem mas também pelo o realismo descritivo e pela crítica social constantes nas suas obras.


José Maria de Eça de Queiroz nasceu no dia 25 de novembro de 1845, numa casa da Praça do Almada na Póvoa de Varzim, no então número 1 ao 3 do Largo de São Sebastião (hoje Largo Eça de Queiroz), no centro da cidade, em casa de um parente de sua mãe, Francisco Augusto Pereira Soromenho, funcionário aduaneiro da Póvoa de Varzim. O pai de Eça de Queiroz, magistrado e par do reino, convivia regularmente com Camilo Castelo Branco, quando este vinha à Póvoa para se divertir no Largo do Café Chinês. Em Coimbra, Eça foi amigo de Antero de Quental. Os seus primeiros trabalhos, publicados na revista "Gazeta de Portugal", foram depois coligidos em livro, publicado postumamente com o título Prosas Bárbaras.


 

Quem foi Orwell?

O nome George Orwell é o pseudónimo de Eric Artur Blair, nascido em 1903 numa região que na época pertencia à Índia britânica. Eric viria a ...