sexta-feira, 18 de outubro de 2024

"A Corporação Invisível"

O livro chegou-me às mãos por acaso, abandonado à sua sorte junto com outros livros usados mas em bom estado. "A Corporação Invisível" pode ser considerado um romance policial e foi escrito por Luís Sítima e por Hugo V. Costa.


Este livro narra a história de um homem, de nome Charlie (ou Carlos Anderson dos Santos, de seu "verdadeiro" nome) que lidera uma das maiores farmacêuticas do mundo, com sede na cidade de Londres. O seu desaparecimento parece deixar todos "chocados", mas a notícia é abafada pelos sedus pares que contratam um detetive privado para descobrir o seu paradeiro. O final, será de certeza o menos esperado.


Um investigador é contratado e tem ao seu dispor todos os meios para seguir as pistas que o poderão levar até Charlie. O português, chega a Londres e embarca nesta viagem cheia de mistérios e segredos entrançados na própria história. Poderá um escrito com raízes no antigo Egito ser a chave para a descoberta do paradeiro de Charlie? Uma conspiração global, uma sociedade secreta, códigos de origens milenares... este livro, que alguns consideram como um thriller, acaba por nos levar a pensar sobre o que é verdade e mentira, a refletir sobre as relações humanas e sobre o poder que muitas empresas e organizações têm no mundo. Mas não deixa de ser uma obra de ficção e, o final, como eu referi, é inesperado, embora na prática o livro acabe por nas capítulos finais começar a fugir àquilo que ia prometendo e, talvez por eu esperar outro fim para as personagens, me deixou um pouco desiludida.


Sobre o que não gostei... as muitas vezes em que os autores optaam por escrever palavras em inglês, tendo o livro sido escrito por portugueses e a personagem principal sendo portuguesa, penso que na maioria das vezes, essa opção seria desnecessária. Apresentado como um livro sobre uma "conspiração", não deixa de ser também um livro que fala de gestão, iniciando cada capítulo com acontecimentos ligados aos sete pecados capitais. Se algumas informações podem fazer sentido, outras parecem ter sido ali colocadas apenas para encher e nada nos trazem de valor à história.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Cultivar os hábitos de leitura

Numa sociedade cada vez mais ligada às novas tecnologias, em que crianças e adultos passam largas horas, agarradas aos ecrãs, é presiso plantar livros, regar momentos de leitura e cultivar os melhores frutos: de crianças que contatam com livros nascerão melhores leitores.


Ser um bom leitor não é ler muitos livros. Muito menos ler tudo o que aparece. Ou ler o que os outros leram ou porque assim somos obrigados. Não precisamos de ler todos o mesmo porque não gostamos todos das mesmas coisas. Quando a criança se torna leitora, ela já terá tido um primeiro contato com os livros e com as histórias. Já terá escutado uma história, ouvido um poema, repetido uma lengalenga. Antes das primeiras palavras serem lidas, existe um contato físico com o livro que não pode ser medroso, mas sim prazeiroso, simples, natural e repetido. Repetitivo.


Tanto como o gesto de pegar num telemóvel e desbloquear o seu ecrã, deveria ser o gesto de abrir e desfolhar um livro. Não devíamos achar normal uma criança estar durante horas a ver vídeos, refém de rápidas sucessões de imagens, de histórias inacabadas, sem no entanto ter paciência para ler até ao fim de um parágrafo, de terminar uma página ou de querer ficar acordada até tarde para saber o final da história.


Passo por isto diariamente. Poucos são os jovens e as crianças que têm consigo um livro na mochila - e quando têm, só alguns o puseram lá por iniciativa própria - e menos são aqueles que se sentam a ler. Atrasa-se o desenvolvimento da escrita. Diminui o vocabulário que conhecem - é impressionante a quantidade de palavras que um jovem de 12, 13 anos ainda desconhece! 


Interpretar um provérbio? Quantos o conseguem? Ler pausadamente, com entoação, com emoção, muito poucos o fazem. Compreender o que leram, serem críticos, dizer com a verdade a sua opinião sobre um determinado assunto e justificá-la de forma coerente, é para muitos alunos uma tarefa hercúlea! Falta sensibilização aos livros! Faltam visitas às bibliotecas municipais! 


Aceito sugestões! O que é que se pode fazer quando, aos 14 anos, um aluno nos diz que não se lembra qual foi o último livro que leu? Ou quando outro, não se lembra de ter lido um livro até ao fim (sozinho, sem ser lido pelos pais ou por alguém quando eram mais novos...). Assustador.


Mas nem tudo é mau. Ontem, descobri que alguns dos meus alunos andavam a ler "O Diário de Anne Frank" e "O rapaz do Caixote de Madeira"... e que quando se trata de futebol, um dos meus alunos se agarra e "devora" com avidez um livro que lhe foi oferecido pelo aniversário e sobre o qual já consegue, com alguma orientação, emitir a sua opinião e escrever um breve texto de opinião. Fiquei feliz, muito feliz. Afinal... ainda há esperança!


 


 

domingo, 29 de setembro de 2024

Poesia à Senhora do Cabo

No fim do mês de setembro há uma festa, uma romaria em honra da Senhora do Cabo. O meu jeito para estas coisas não é muito e, a verdade, é que não acredito em nada destas coisas de santas ou milagres. Escrevi este pequeno poema em honra daqueles que mantém as tradições que são tão importantes para nos unir como povo. Às gentes da vila e às gentes do campo que se juntam para fazer a festa do Cabo, a minha singela poesia.



 


Cabo


 


Há um penhasco


E há a vida


O som da batida


Do seu coração


Que junto da ermida


Se recolhe no fundo


Da dor sem perdão.


 


Há um penhasco


Qual escarpa profunda


Onde se espreita o início


Deste nosso mundo


Em que grandes gigantes


Passaram sem pressa


E marcaram-lhe o fundo.


 


Há um penhasco


Um sentir que é preciso


No momento exato


Cair num abraço


Que a vida é mais forte


Mais valente, mais tudo


E se funde num laço.


 


Há uma estrada


Um caminho a percorrer


Vontade de seguir a vida


Com esperança no olhar


Uma família a acontecer


E junto daquela ermida


Há uma mulher a rezar.


 


Há um penhasco


E há uma história


Da pedra da mua


Onde a Senhora subiu


Padroeira da memória


Dizem que foi obra sua


O mar não os engoliu!



Elsa Filipe, setembro de 2024

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Curso de Escrita - últimos textos

Tenho estado a fazer uma formação online, e têm sido vários os exercícios de escrita que me têm sido pedidos. O bom destas formações é que, além de colocarmos as nossas ideias no papel, percebemos também como funcionam alguns dos processos criativos. Nas últimas aulas, foi pedido que criássemos uma personagem e a caraterizássemos. Depois, dessa personagem nasceu uma estrutura com outras personagens, espaços, ações. Para mim, o processo normalmente funciona ao contrário. Começo a envolver as personagens nas ações e entre si, para só depois as caraterizar amíude. Para mim, certas "personagens" (pessoas) não iriam fazer determinadas ações e, se lhes der antecipadamente aspetos psicológicos (os físicos não me influenciam tanto) acabo por limitar as suas ações e reações. É estranho, não sei explicar, mas é isso que sinto.


Ontem, acabou por nascer o seguinte:


Mais um dia, mais uma manhã e Pedro sente-se preso. Tem 28 anos e sente que a rotina o prende e que a sua vida não etm sentido. Concluiu o curso com mérito mas não está, de todo, a tirar proveito da vida que tinha imaginado. A verdade, é que aquela empresa já lhe pareceu mais desafiante.


Sai de casa à pressa e quase tropeça no carteiro que, especado à sua porta, lhe pede que assine o registo de entrega de uma carta registada. Assina, à pressa, sem sequer olhar para o remetente e enfia a carta dentro da mala, misturando-a com outros papéis e documentos. 


O trânsito (...) um acidente na ponte mantém-no parado por desesperantes minutos. (...)


(Elsa Filipe, 26.09.2024)


O texto continua... mas não está bom para partilhar e sei que não interessa a ninguém o que se pasou com este personagem. Apenas deixo aqui uma pista. A carta traz uma notícia triste e irá levá-lo numa aventura. O destino será algures entre o Egipto, Israel e a Palestina... também pensei no Sudão, confesso, pois queria falar sobre guerra, sobre limites ultrapassados, mas apesar de ter estruturado uma ideia, ela ainda nem sequer faz sentido e talvez nunca venha a representar um verdadeiro texto. O mal, é que eu me ponho a fazer pesquisas.. sou muito mais de factos do que de criatividade. Se escrever algo, será mais um romance histórico ou uma história que tenha um fundo de verdade e de investigação. O que me limita num curso de escrita criativa...


 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Escrita... a chuva

Da janela da sala, as crianças vêem a chuva lá fora. Do interior, sentem o vido fresco, pousando as mãos na janela e, tentando sentir as gotas lá fora. 


De sorriso no rosto, Cecília pede:


- Por favor, podemos ir à chuva?


A educadora pensa um pouco e, olhando para a colega, desafia:


- Vamos?


E assim, todos vestiram o casaco e calçaram as galochas. A chuva não era muita, mas as poças do chão já davam para despertar a atenção das crianças, que felizes, assim que se viram lá fora:


- Tão bom! A chuva é fria!


- Ai, olha o meu salto!


- Olha aqui os salpicos que eu faço a saltar!


E felizes brincaram, livres como todas as crianças devem ser. Pena daqueles meninos que nunca pisam as poças de água, ou que nunca saem da bolha para sentir na cara as gotas de chuva.


Elsa Filipe

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Escrita... no banco do jardim

Na minha rua, há um banco de jardim. Castanho, voltado para o rio que corre mais abaixo, tem na vista a paisagem saudosa dos homens que ali se sentam.


De manhã, um morador, de um prédio dos arredores, senta-se só no banco e lembra-se dos que deixou para trás. Está cá a lutar pela sua vida, a cuidar da sua saúde, com poucas notícias dos seus, que deixou em Moçambique. Será rápido o regresso? Não sabe, ninguém lhe consegue dizer. Senta-se a olhar o rio, deixando que a água dos seus olhos espreite e veja que não vale a pena competir, com a força da maré que enche. O sol ainda amorna as manhãs, ainda lhe aquece o corpo e o coração, mas deixa o banco pouco depois para regressar ao lar que por estes dias tornou seu. 


Pouco depois, vão chegando, um a um, às vezes em par, outros que usam o banco, apenas para conversar. Agrada-me assim vê-los, sem nada que fazer, na plenitude dos dias, aparecem para se ver. O convívio é diário, discutem quem vai e quem chega. Todos os cumprimentam, confiam na sua presença que é assídua e estranham até, se algum deles faltar, havendo logo conversa para saber o que se passou. Vêm os miúdos a correr da escola para casa, relembram os seus tempos de juventude, quando tinham grão debaixo da asa. E a zona era diferente, os prédios não existiam.


Relembram os namoros, as esposas, as traquinices dos filhos... mas se uns estão felizes, outros há preocupados... ou por vezes revoltados, com o abandono, com a tristeza de não os virem ver, ou ligar para conversar. Então, ali juntos, desabafam as suas mágoas, levando para casa o coração mais leve e o peito mais animado. Amanhã cá voltarão a estar, estranho seria não os vermos. 


Elsa Filipe

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Escrita: A (tão típica) história da Ilha deserta

Ontem, depois de alguns exercícios mais pequenos e simples, chegou-nos o desafio da "Ilha deserta". A sério?


Uma mensagem numa garrafa... o que escolhemos para levar para uma ilha... e, o que escrever se estamos perdidos e encontramos algo para escrever e uma garrafa (um pouco difícil e imaginário, ter papel seco e um lápis ou uma caneta funcional... mas vamos lá imaginar que sim). Já tentaram fazer algo do género? Eu ontem estava mesmo muito cansada e sem vontade de escrever e, como se repara, o tema também não foi do meu agrado.


Vou só colocar um pouquinho... o resto fica à vossa imaginação. 


Se encontrar esta garrafa é porque, eu afinal, cedi à minha vontade de desistir e deitei-a ao mar. Ou, talvez, num último impulso antes de morrer a tenha deixado ir pela água. Se ainda andam à minha procura, coloquei atrás a minha identificação e a minha morada. (...) Passaram-se semanas, meses? Não sei bem. Fui registando ao início e, depois acabei por me perder entre as horas e as noites não dormidas, os dias extenuantes de desespero. (...) Talvez já me tenham esquecido ou lançado balões estúpidos a lamentar a minha morte certa. (...)


(Elsa Filipe, 17.09.2024)

"D. Maria II"

No seguimento da leitura de D. Maria I, procurei agora pela história de D. Maria II, de Isabel Stilwell. Neste romance, à semelhança dos ant...