quinta-feira, 24 de abril de 2025

"Os Cães de Salazar"

Depois de ter lido "Segredos de Amor e Sangue" resolvi continuar pelas obras de Francisco Moita Flores, desta vez com "Os Cães de Salazar," um livro que retrata o Portugal da década de trinta do século XX e, em que nos é relatado através de diferentes pontos de vista o atentado cometido contra Salazar. 


A 4 de julho de 1937, um grupo de homens faz explodir uma bomba na Avenida Barbosa du Bocage, com o objetivo de assassinar Salazar que, tal como noutros domingos, ali chegava no seu Buick para ir à missa. Mas o ato de rebelião corre mal, a bomba deixa uma cratera no chão e uma grande nuvem de pó. Um dos perpretadores acaba por se ferir, mas todos conseguem então fugir. Só que a lei, naquela época, não se coíbe de prender inocentes nem de os torturar para obter confissões. É neste contexto que um grupo de homens, provenientes das classes mais baixas e vindos do Alto do Pina, acaba por ser detido. As confissões vão sendo arrancadas à laia de pancada e de tortura.


"Suspeitando de militantes comunistas apoiados pelo próprio Partido Comunista Português e financiados pelo Komintern, segue-se a prisão de dezenas de indivíduos e a apressada conclusão do caso. Porém, entre felicitações dos chefes de estado de outros regimes autoritários europeus e os níveis de prestígio e respeito nunca antes atingidos pela polícia política, nasce a dúvida sobre a forma como a PVDE desenvolveu o seu caso e se aqueles que foram detidos são os verdadeiros culpados do atentado." Salazar, que não interfere diretamente no caso, é fonte de admiração dos seus seguidores, que fazem de tudo para agradar ao Presidente do Conselho e, claro, fonte de revolta e de desprezo escondido, da parte daqueles que sofrem na pele a opressão de uma Ditadura.


Este é mais um romance, baseado em factos reais e fundamentado por alguns documentos, em redor dos quais vai crescendo a intriga e se vai revestindo cada uma das personagens que fazem parte da história. Para o escrever, Francisco Moita Flores baseou-se no processo de investigação escrito pelo Director da Polícia de Investigação Criminal, o juiz Alvez Monteiro, que seia designado na época para investigar o processo criminal conduzido pela PVDE, quando se soube que os seus membros tinham acusado, falsamente, vários inocentes, de serem os responsáveis pelo atentado mesmo tendo já detidos os verdadeiros e confessos culpados.


Num livro em que surgem outras histórias em paralelo, algumas necessárias para contextualizar a vida das pessoas nesta época e a situação política em que o país se encontrava, não serão de estranhar também algumas referências à guerra civil espanhola. São várias as descrições daquilo que se passa dentro das paredes da PVDE na António Maria Cardoso. A censura é aqui também um dos pontos a que Francisco Moita Flores deita mão, mostrando-nos que este era um país onde se vivia de aparências. Um país onde nenhum membro da PVDE se suicida e em que a pedofilia, mesmo quando do conhecimento das altas patentes, não existe, porque não dá jeito que exista. 


Um livro que veio mesmo na altura certa do ano e que me fez mais uma vez embrenhar pelos mais macabros e terrivéis episódios da história de um Portugal pobre, que vivia cheio de fome e que estava constantemente triste. De um povo sem direitos. Sem liberdade.


Fontes: 


https://www.almedina.net/os-c-es-de-salazar-1593511350.html


 

terça-feira, 15 de abril de 2025

"Segredos de Amor e Sangue"

Da autoria de um autor português que muito admiro, "Segredos de Amor e Sangue" leva-nos numa viagem a uma Lisboa acabada de entrar num liberalismo emergente. Em pleno século XIX, as ruas da capital estavam marcadas pela pobreza e pela violência.


O narrador é "Manuel Alcanhões", um homem simples que herdou de seu pai uma taberna em Alfama. Manuel tem duas paixões: as letras e a sua Isabel. As várias classes sociais são aqui representadas através de diversas personagens. O "padre Sales" que tem como função confessar os criminosos do Limoeiro e do Aljube, antes de irem para a forca, encontra na taberna de Alcanhões um lugar em que, entre um e outro copo, pode conversar e pregar o catolicismo. Miguelista de convições, é este padre que vai ajudar Manuel Alcanhões na viagem pela aprendizagem da leitura e da escrita e que o vai introduzir na Língua Portuguesa, ajudando-o a concretizar o seu maior sonho.



"Isto só lá vai com instrução pública. A ignorância é a maior inimiga da nossa vontade."



Mas naquela taberna, tal como em muitas tabernas da Lisboa pobre do século XIX, param também fadista e bandidos, muitos deles considerados como a escória da sociedade. Um deles é "Pancada", cujo nome era na verdade Diogo Alves. Apesar de muita gente acreditar que o que se passava no Aqueduto das Águas Livres eram suicídios de gente que já não encontrava motivos para continuar a viver, Manuel Alcanhões perceber que o que ali se está a passar é a ação de um assassino que, depois de roubar as suas vítimas, as atira sem dó nem piedade, do alto do Aqueduto. O culpado é Diogo Alves, mas Manuel tem de manter as suas suspeitas em segredo, sob pena de pôr a sua vida e a da sua amada Isabel em risco. Diogo Alves vive maritalmente com "Parreirinha," de quem tem uma filha. A menina, acompanha-o muitas vezes nos crimes funcionando como isco e, acabaria por ser ela a, mais tarde, acusar o assassino descrevendo como ocorriam os crimes.


Um dia, um crime está a ser preparado mesmo à frente do seu nariz e Manuel acaba por se aperceber que a verdade pode ser salvadora e matá-lo ao mesmo tempo. O medo de morrer corre-lhe nas veias e acaba por calá-lo, o que resulta na morte de uma família, assassinada de forma brutal às mãos de alguns conhecidos seus. Entre eles estão outros bandidos da praça que respondem pelas algunhas de "Pé de Dança", "Palhares", "Enterrador" e "Beiço Rachado." Este último é, de facto, amigo e protegido de Manuel Alcanhões e, ao saber do crime que ele os restantes do grupo haviam cometido na Rua das Flores, aconselha-o a entregar-se e a denunciar os seus companheiros, tentando assim salvar o amigo da forca e, ao mesmo tempo, espiar a sua pópria culpa, por saber do que se estava a planear e nada ter dito com medo de represálias.


Outros nomes da época passam também por este livro, alguns deles, visitadores da taberna de Alcanhões: João de Deus, Joaquim António de Aguiar ou Almeida Garrett, são referidos. Neste romance de Francisco Moita Flores há um Portugal verdadeiro, um Portugal que vive um período conturbado, onde está presente a corrupção política, a criminalidade bárbara e o analfabetismo. Retrata aqui o autor uma época em que a justiça se fazia sem provas e com recurso à tortura e em que o povo trabalhador, sofria muitas vezes fome e encontrava no álcool e na vida boémia, o elixir para aguentar uma vida de luta contra os poderosos e contra bandidos, assassinos e meliantes. 



"Dia após dia, explodia um tumulto político, duques contra duques, generais contra generais, liberais contra miguelistas, padres contra maçons, cartistas contra vintistas, e pelas ruas fedorentas, atapetadas pelos excrementos de cavalos, de porcos e de galinhas, cresciam os assaltos, os assassínios, e organizavam-se quadrilhas onde se misturavam soldados e civis, numa balbúrdia tal que não se sabia onde terminava a rixa política e começava o crime."


domingo, 13 de abril de 2025

Faleceu Carlos de Matos Gomes

Carlos de Matos Gomes combateu em África e foi um dos Capitães de Abril. Nasceu a 24 de julho de 1946, em Vila Nova da Barquinha. Foi oficial do Exército, tendo cumprido comissões em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau. Faleceu esta madrugada no hospital CUF Tejo, em Lisboa, aos 78 anos.


Da sua história, sabe-se que terá sido "expulso da Mocidade Portuguesa." No Colégio Nun’Alvares, em Tomar, terá conhecido Salgueiro Maia.


"A sua carreira militar iniciou-se em 1963, quando entrou para a Academia. Fez o curso de Cavalaria, sendo mobilizado para Moçambique quatro anos depois. Cumpriu comissões durante a guerra colonial também em Angola e na Guiné, nas tropas especiais Comandos. Foi ferido em combate e altamente condecorado."


Das três comissões que fez na Guerra Colonial nasceu a inspiração para as suas obras. Quando em 1972 se "ofereceu para ir para a Guiné," este oficial já tinha "decidido que depois disso abandonaria a carreira militar por acreditar que a única solução para a Guerra Colonial era política." 


Na Guiné, Carlos terá sido na verdade "um dos fundadores do Movimento dos Capitães" e participado "na primeira Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA)." Quando se deu a revolução em Portugal, estava ainda "na Guiné, nos Comandos, e pertencia à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné."


Escreveu "um livro de História sobre a operação Nó Górdio" com o nome “Moçambique 1970” e que seria publicado pela editora Tribuna da História. Sobre aquele ambiente de guerra, escreveu ainda o seu primeiro romance, “Nó Cego”, que sairía em 1982, sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz. De sua autoria são ainda, "A Última Viúva de África" e "Os Lobos não Usam Coleira" (1995). Este livro, foi depois adaptado pelo realizador António-Pedro de Vasconcelos ao cinema, com o título “Os Imortais."


Em 2020, publicou o ensaio "Guerra Colonial" junto com o seu camarada de armas Aniceto Gomes. Colaborou com Maria de Medeiros no filme “Capitães de Abril”, no qual chegou mesmo a interpretar uma das personagens. Escreveu ainda outros romances cuja temática se afasta do tema colonial.


No ano passado, em nome próprio, Carlos de Matos Gomes publicou "Geração D: da ditadura à democracia" onde fala da sua geração, aquela que conheceu a ditadura e, onde se interroga sobre os motivos da Guerra Colonial e da sua própria presença em África.


Fontes:


https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-04-13-morreu-carlos-de-matos-gomes-o-capitao-de-abril-que-gostava-de-escrever/


https://expresso.pt/50-anos-25-de-abril/2025-04-13-morreu-o-coronel-carlos-matos-gomes-um-dos-capitaes-de-abril.-tinha-78-anos-7a5a07e4


https://expresso.pt/50-anos-25-de-abril/2025-04-13-matos-gomes--1946-2025--nos-portugueses-recebemos-bombons-no-25-de-abril-e-comemo-los-todos.-depois-refilamos-com-quem-os-distribuiu-69af1a21


https://mediotejo.net/entrevista-carlos-matos-gomes-nao-e-preciso-outro-25-de-abril-porque-nao-e-preciso-nenhum-salvador/


 


 

"Sonata em Auschwitz"

Este livro de Luize Valente leva-nos através de Amália, uma portuguesa com ascendência alemã, pela história de uma mãe que teve a sua bebé n...